Fachada da loja dos nigerianos Raphael e Jennifer Monye, roubada no último final de semana Reprodução
Publicado 20/08/2026 17:23 | Atualizado 20/08/2026 17:26
Rio - O que levou mais de dez anos para ser construído desapareceu em poucas horas. Ao chegar à loja na madrugada de domingo (2), a nigeriana Jennifer Monye encontrou um cenário que ainda tenta assimilar. Praticamente todo o estoque de cabelos naturais havia sido levado. Laces, perucas, closures, apliques e outros produtos que representavam meses de investimento simplesmente não estavam mais ali.
Publicidade
LEIA MAIS: Bolsão de gás pode ter sido causa de explosão em prédio, diz delegado

O estabelecimento, especializado na venda de cabelos humanos e acessórios, fica na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, Zona Norte. O prejuízo estimado pelos proprietários chega a R$ 30 mil. Além das mercadorias, os criminosos levaram R$ 1,5 mil em dinheiro que estava guardado no local e correspondia a parte do valor do aluguel.

Para Jhenifer Monye e seu marido e sócio, o também nigeriano Raphael Monye, o furto não representa apenas a perda de mercadorias. É o resultado de anos de esforço para construir uma vida no Brasil e manter uma pequena empresa funcionando. Nigerianos, os dois vivem no país há mais de dez anos e estão há três anos naquele endereço.

“Agora ficou mais difícil com três crianças pequenas, sem estoque para continuar trabalhando, aluguel, contas, etc.”, contou Jennifer, para a reportagem de O DIA 

O susto na madrugada

O furto aconteceu por volta das 23h de sábado (1º), segundo a comerciante. Durante a madrugada, o celular começou a receber uma sequência de ligações e mensagens.

“Recebi centenas de ligações na madrugada do domingo e áudio dizendo que a minha loja foi roubada”, relatou.

No início, Jennifer não entendeu o motivo de tantas ligações naquele horário. Até que ouviu a mensagem de que a loja havia sido aberta e que o estabelecimento tinha sido invadido.

Quando chegou ao endereço, percebeu que não se tratava de um simples furto. O estoque havia sido praticamente desmontado.

“Não deixou nenhum cabelo aqui”, afirmou.

Os criminosos, segundo os proprietários, não levaram tudo de maneira aleatória. Os produtos de maior valor desapareceram, enquanto itens de fibra sintética, que custam menos, permaneceram no estabelecimento.

Para Jennifer e Raphael, essa diferença reforça a suspeita de que a ação tenha sido planejada e que os autores soubessem exatamente o que procurar.

Porta sem sinais de arrombamento

Outra circunstância chamou a atenção dos comerciantes. A porta de blindex não apresentava sinais evidentes de arrombamento.

Raphael acredita que os criminosos possam ter utilizado uma chave-mestra para entrar no estabelecimento. A suspeita surgiu a partir das imagens registradas por uma câmera de segurança de um imóvel vizinho.

Uma das gravações mostra um homem mascarado nas proximidades da loja e registra a movimentação dos suspeitos. As imagens foram encaminhadas à Polícia Civil e podem ajudar na identificação dos responsáveis.

Como a câmera instalada dentro da loja não estava funcionando, os donos não sabem exatamente quanto tempo os criminosos permaneceram no local.

Essa ausência de imagens internas também impede que a família tenha uma resposta para uma das perguntas que mais incomodam desde o crime: como os ladrões conseguiram retirar praticamente todo o estoque sem serem percebidos.

Até o dinheiro do aluguel foi levado

Além dos cabelos, perucas e apliques, os criminosos encontraram dinheiro guardado na loja. Jennifer conta que os R$ 1,5 mil seriam utilizados para o pagamento do aluguel. Ela havia entrado em contato com o proprietário para entregar o valor, mas, como ainda não tinha recebido uma resposta, decidiu deixar o dinheiro no estabelecimento. O valor também desapareceu.

A perda financeira, portanto, foi além dos R$ 30 mil estimados em mercadorias. Para o casal, entretanto, o problema mais grave é a falta de estoque para continuar trabalhando.

Os produtos que restaram foram colocados novamente no mostruário. É pouco diante do que havia antes do furto, mas representa uma tentativa de manter a loja funcionando enquanto o casal procura uma maneira de recompor o estoque.

Mais de dez anos de esforço

Jennifer e Raphael chegaram ao Brasil há mais de uma década. Ao longo dos anos, construíram a própria trajetória e investiram no comércio de cabelos naturais.

A loja atual funciona há três anos no endereço da Tijuca. O negócio se tornou fonte de renda da família e uma forma de sustentar os três filhos pequenos.

Por isso, o furto provocou não apenas um prejuízo financeiro, mas também medo e insegurança.

“É ódio, insegurança, medo e tudo mais”, afirmou a nigeriana

O nigeriano resume o sentimento ao lembrar que, enquanto os criminosos precisaram de poucas horas para levar as mercadorias, a família passou anos trabalhando para construir aquele estoque.

“Só um dia, uma noite, alguns minutos, levaram tudo do suor de mais de dez anos. É muito triste isso. É muito lamentável”, desabafou.

O casal também reclama da falta de segurança na região. A loja fica em uma das principais vias da Tijuca, mas, segundo Rafael, a sensação de insegurança faz parte da rotina dos comerciantes.

Depois do furto, ele passou a cobrar maior presença policial no bairro e espera que as imagens ajudem a encontrar os responsáveis.

Para os proprietários, identificar os autores também é uma forma de impedir que outros comerciantes passem pela mesma situação.

Investigação

O caso foi registrado na 19ª DP (Tijuca). As imagens das câmeras dos imóveis vizinhos foram entregues aos investigadores e devem ser analisadas na tentativa de identificar os envolvidos.

A Polícia Civil realiza diligências para esclarecer o crime e localizar os responsáveis.

Enquanto isso, o casal tenta colocar a loja de pé novamente. O espaço que antes estava cheio de cabelos humanos, laces e perucas agora tem grandes espaços vazios nas prateleiras.

Restaram poucos produtos, contas para pagar e a necessidade de reconstruir um estoque praticamente do zero.
Leia mais