Publicado 26/08/2026 08:00
Rio - Celebrado nesta quarta-feira (26), o Dia Mundial do Cão chama a atenção sobre a importância dos pets na sociedade. Para marcar a data, O Dia conversou com tutores, que revelaram como foram escolhidos por seus cachorros e relembraram momentos inesquecíveis de parceria. 

No caso da aposentada Jane Rodrigues, de 72 anos, moradora de São Gonçalo, sua alegria responde pelo nome de Nina. As duas dividem a casa e a rotina há seis anos.

"Dizem as pessoas espirituosas que o cachorro adota o dono, e ela me adotou. Ela apareceu assim do nada aqui no condomínio, de repente eu deixei o portão meio aberto. Eu não queria mais cachorro, mas estava lavando louça quando ela chegou e começou a me lamber como quem diz: ‘Me deixa ficar aqui?’ Ela estava suja demais, cheia de pulga, eu a levei ao veterinário, ela ficou bem e hoje em dia é minha amiguinha, minha companheira", conta.

Nina e tutora Jane estão juntas há seis anosArquivo Pessoal
Para Jane, a relação foi se fortalecendo com o tempo. "Ela sabe quando estou alegre, quando estou triste... Quando eu passo mal ela não sai de perto de mim. Nas datas comemorativas, costumo sempre fazer uma roupinha pra ela. É Natal, agora a Copa, Carnaval… ela fica toda feliz. Aqui é a zona de conforto dela. Todos os dias ela me chama de manhã, 7h30 batendo na porta pra eu levar ela pra passear. Aí ela faz xixi, cocô e quando chega a tardinha, ela me chama de novo. São duas vezes ao dia. Conclusão, ela não faz nada aqui dentro, fica tudo limpinho. Ela é minha amiguinha e vai ser difícil eu ficar sem ela", diz.
A estudante de psicologia Ana Letícia Rodrigues, 47, revela que o "salsichinha" Fumaça também chegou em sua vida de forma inesperada. 
"Eu não escolhi ele, ele que me escolheu, porque eu tinha dito que não queria mais cachorro, porque nós tínhamos perdido nosso cachorro, de quem a gente era muito apegado. Aí, um certo dia, o meu marido e a minha filha trouxeram ele sem que eu soubesse e, de cara, já me apaixonei, e ele me escolheu. Hoje parece que eu sou a mãe dele. Eu falo que parece que ele saiu da minha barriga, porque eu não posso sair que ele chora, né?", brinca a estudante, que mora em São Gonçalo.
Letícia revela que conhece cada detalhe do comportamento de Fumaça e que os dois mantêm uma relação de muito carinho.
"É uma relação de muito amor. Eu conheço cada olhar dele. Ontem mesmo eu fiz uma comidinha pra ele, um arrozzinho com frango e cenoura, que ele adora. Ele fica grudado comigo 24 horas, faz chantagem emocional quando eu falo que é pra ele dormir do lado de fora, porque ele só dorme do lado de dentro", acrescenta. 
Fumaça e a filha mais nova de Ana LetíciaArquivo Pessoal
A estudante relata, ainda, que Fumaça construiu uma relação especial com sua filha mais nova, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA).
"Todo mundo da família gosta muito dele. Tenho a minha filha mais nova, que tem TEA, e, assim, ela não consegue chamar ele pelo nome, mas ela chama de ‘uau-uau’ e de ‘Belinha’, que foi um outro cachorro da minha mãe, e ele atende! Aí ela vai, faz carinho, e ele deixa. Antes, ele estranhava, mas agora eu só olho e ele fica quentinho, deixa ela fazer carinho nele. Então, assim, é uma relação muito bonita, mas eles implicam um bocado um com o outro", acrescenta.
Encontro inesperado
O designer gráfico Lucas Neves, 35, de Niterói, também não estava à procura de um cachorro quando conheceu Napolitano. O encontro aconteceu por acaso, na porta da academia, e acabou mudando a rotina dos dois.
"Escolhi esse nome porque ele tem três cores. Minha antiga academia tinha resgatado um 'doguinho' da rua e, um dia, ele estava dormindo embaixo do balcão e não consegui vê-lo. Depois, soube que ele tinha sido adotado. Eu fiquei com ele na cabeça, mas não pensava em ter um 'doguinho' no momento. Quando eu fui treinar outro dia, encontrei ele lá. Ele tinha sido devolvido pela família. Fiquei fazendo carinho e ele pedindo mais carinho e, quando eu percebi, aquele doguinho que hoje eu chamo de filho era pra ser meu", conta. 
Napolitano e Lucas costumam passear pelo menos duas vezes ao diaArquivo Pessoal
Os dois estão juntos há quatro anos e, desde então, os passeios se tornaram suas atividades preferidas. Lucas costuma levar Napolitano ao Campo São Bento, em Niterói, na Região Metropolitana, e também à praia.
"Eu amo levar ele para passear no campo e na praia duas vezes por dia, porque eu também sei que é a parte mais feliz do dia dele. Ele pula igual a canguru quando eu pego a coleira. Ele possibilitou que eu tivesse uma troca com outros pais de pets, e isso também foi um presente na minha vida. Conheci muita gente especial através dele. Aí, sempre estamos fazendo algo juntos e, às vezes, até deixamos as ‘crianças’ em casa", diz, aos risos.
Lucas ressalta que Napolitano costumava fazer muita "arte" quando filhote, mas que se adaptou à rotina.
"Acho que as pessoas que amam verdadeiramente os cachorros e não os veem como status e pela raça. Elas acabam se conectando através desse amor. Ele fazia bastante arte em casa quando adotei e até por isso foi devolvido anteriormente. Mas passei a gastar energia dele nos passeios, educar e fazer com que ele sinta confiança em mim. E hoje é supertranquilo e carinhoso. É mais fácil eu destruir alguma coisa do que ele."
Da última da ninhada ao amor da família

Moradora de Niterói, a advogada Karine Reis, de 30 anos, revela que se apaixonou por Zoe à primeira vista. A cadela tem uma cor diferente do “padrão” e por isso foi a última que sobrou da ninhada. As duas estão juntas há quatro anos.

"Ela é superdoce, amorosa e grudada comigo. Costumo levar ela nos locais abertos porque sei que ela ama e se diverte. Ela representa uma parte muito importante da minha vida. Eu amo animais, sempre amei, e ela, sem saber, me ajuda todos os dias a lidar com meus próprios sentimentos. A chegada dela foi uma surpresa para o Pablo, meu marido. Ele não sabia que eu estava indo buscá-la e, simplesmente, encheu nosso lar de alegria", afirma.

Zoe foi a última da ninhada a ser escolhida e hoje é o grande amor da famíliaArquivo Pessoal
Segundo Karine, Zoe tem comportamentos únicos. "Ela sabe a hora de passear e fica na frente do móvel quando dá o horário latindo baixinho para o local da coleira. Ela por vezes fica latindo para frente da vasilha pra gente fazer teatro fingindo que vai comer e só assim ela come. Ela ama frutas e não pode ver eu cortando que fica em pé do meu lado pedindo, além de que meu pé é um dos brinquedos favoritos dela. Ela também ama ficar deitadinha no sofá assistindo TV comigo", diz.
Quanto mais, melhor

A professora Rogéria de Oliveira, 56 anos, adotou Rakan e Xayah. Os dois, segundo ela, não são nada parecidos, enquanto um é mais tranquilo, a outra é extremamente levada, mas ambos se completam.

"O Rakan entrou na minha vida no dia em que a minha amiga que resgata cães de rua postou uma fotinha dele no Instagram falando que tinha acabado de resgatá-lo, ele tinha 15 dias e estava com um morador de rua. Ele tinha levado uma pancada na cabeça. Aí eu vi, fiquei com dó, com muita pena. Meu outro cachorro tinha acabado de falecer, tinha uns seis meses, e eu achei que não fosse pegar mais nenhum, mas fiquei apaixonada pelo Rakan desde bebezinho", explica a moradora de Niterói.
Rakan e Xayah são irmãos e levam alegria para tutora RogériaArquivo Pessoal


Rogéria cuida do Rakan desde que ele tinha 45 dias. "Ela me deu ele com papinha de desmame, já todo cuidadinho, já tinha feito raio X, já tinha feito um monte de coisa. E eu estou com ele há quatro anos. Com o tempo eu fiquei querendo um irmãozinho para a Rakan, uma irmã, e aí veio a Xayah", relata.

A cadela também foi resgatada de um abrigo. "Eu fiquei apaixonada por ela também. Eles são lindos, são meus amores, a gente tem uma relação muito boa, amo os dois, levo para o Campo São Bento, para a praia, me parece que eles gostam muito de mim, que eles estão felizes. A Xayah implica com Rakan todo o tempo, toma os brinquedos dele, puxa ele pela guia, e se ele estiver brincando com outros cachorros ela vem para atrapalhar. É um amor muito grande, uma alegria mesmo. São como filhos."
A guia de turismo Sandra Cunha, 68, de Maricá, tem quatro cachorros, cada um com seu "jeitinho". São eles: Amora, Fox, Moana e Sky.

"Cada um com uma personalidade e comportamentos diferentes. Todos são carinhosos e muito chegados. Um com temperamento mais levado, até por ser filhote ainda. A outra já é mais idosa, mas é muito amorosa. E os outros dois, que são de pequeno porte, são cachorros que realmente conhecem todo o meu comportamento. Quando chego, quando vou sair, quando acordo… Eu amo todos os meus pets... adoro. E são todos saudáveis, faixa etária de 15, 4, 2 e 1 ano", frisa.
Fox é um dos cachorros de SandraArquivo Pessoal


O que explica esse vínculo?
Formada pela Universidade Federal Fluminense, a veterinária Fernanda Gonçalves explica que o cão é um animal que, na natureza, vive em matilha e, por isso, não costuma viver sozinho.
"O cão foi domesticado, e a convivência com seu dono se torna um fator de muita importância e relevância na saúde e bem-estar do animal. O cão que desenvolve atividades com seu responsável cria vínculo, desenvolve sua parte cognitiva, alivia estresse e ansiedade. São muito recorrentes relatos de cães isolados, abandonados ou criados presos, sem interação com seus tutores, que desenvolvem ansiedade e estresse, chegando até a atos de automutilação", ressalta.
Segundo Fernanda, os cães que convivem com seus donos são capazes de perceber nuances da rotina, bem como mudanças no comportamento de seus tutores.
"Eles conseguem perceber estados mais agitados x tranquilos e podem reagir conforme o estado de seu tutor", explica.
Para a veterinária, o comportamento do tutor também influencia diretamente ao do animal. "Tutores que não tenham uma rotina estabelecida com seu animal e comportamentos esperados podem criar animais ansiosos e imprevisíveis. É importante que o tutor crie esse vínculo e mostre o comportamento esperado para cada situação ao seu cão, assim evitando imprevisibilidade."
Para os passeios ao ar livre, Fernanda indica que o animal passe por um check-up com um médico veterinário, evite beber água de fontes desconhecidas, esteja com as vacinas obrigatórias em dia e faça exames de fezes para a detecção de possíveis vermes, protozoários e bactérias.
Por fim, ela reforça que as maiores "provas de afeto" preventivas que um tutor pode dar para garantir que o cão tenha uma vida longa são manter o acompanhamento com um médico veterinário, oferecer uma alimentação de qualidade e permitir que o animal exerça seu comportamento natural dentro das regras de bom convívio na sociedade.
"O tutor deve estabelecer uma rotina para que o animal tenha uma vida previsível e ativa, evitando ansiedade, estresse e problemas comportamentais."