Lucelmo Lacerda fala da importância de produzir evidência científicaDivulgação / Fernando Capellato
Publicado 18/10/2026 00:00
A AFIRM Brasil adapta ao português 28 cursos desenvolvidos pela Universidade da Carolina do Norte e oferece acesso gratuito a práticas baseadas em evidências para apoiar pessoas autistas do nascimento aos 22 anos. O objetivo é aproximar o conhecimento científico da realidade de escolas, clínicas e famílias.  A AFIRM Brasil é a adaptação brasileira da AFIRM (Recursos e Módulos de Intervenção Focados no Autismo), desenvolvida pelo Instituto de Desenvolvimento Infantil Frank Porter Graham, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Os conteúdos são destinados a professores, profissionais de saúde, terapeutas e familiares, sem exigência de formação prévia. A plataforma reúne vídeos, atividades, exemplos e materiais para download, como planos de intervenção e instrumentos de registro. Entre os temas estão estratégias da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), Integração Sensorial de Ayres (ASI), suportes visuais e práticas cognitivo-comportamentais. Uma ferramenta auxilia na escolha da intervenção mais adequada conforme idade e necessidade.

"Produzir evidência científica é apenas uma parte do caminho. O desafio seguinte é fazer esse conhecimento chegar a quem está na escola, na clínica ou dentro de casa e precisa tomar decisões todos os dias", afirma Lucelmo Lacerda de Brito, pesquisador brasileiro e visitante no Frank Porter Graham Child Development Institute, acrescentando que a iniciativa busca, assim, ampliar não apenas o acesso a informações sobre autismo, mas principalmente o acesso a saberes que passaram por processos de avaliação científica e podem orientar profissionais e famílias na escolha e aplicação de estratégias.
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"O objetivo não é dizer às famílias ou aos profissionais o que fazer em cada situação, mas ampliar o acesso ao conhecimento para que essas decisões sejam cada vez mais informadas por evidências. Se queremos que a ciência produza impacto social, ela precisa sair dos artigos científicos e chegar às pessoas de forma compreensível, gratuita e aplicável", declara Brito.
Veja a opinião de alguns especialistas

Daiane Soares da Silva Gonçalves (pedagoga e supervisora de Educação Inclusiva)
"Como profissional da educação, penso que trazer essa iniciativa para o Brasil é extremamente positivo, porque aproxima a ciência da realidade de quem convive diariamente com pessoas autistas — professores, profissionais e familiares. Um dos grandes desafios na área é transformar conhecimento científico em algo acessível, que possa ser compreendido e aplicado no cotidiano. Ter acesso gratuito a conteúdos validados, acompanhados de materiais de apoio, contribui muito para qualificar a tomada de decisão dos profissionais e melhorar a vida das pessoas autistas e de suas famílias. Em um cenário de tantas fake news, considero essencial termos uma plataforma brasileira com informações reais e fidedignas", pontua.

Eliza de Souza (professora e analista do comportamento)
"Essa iniciativa preenche uma lacuna importante na formação docente no Brasil, já que ainda há pouca preparação sistemática para que professores saibam pesquisar, identificar e selecionar práticas baseadas em evidências. Saber buscar e avaliar evidências é uma habilidade fundamental, porque mesmo que a ciência avance, o professor continuará capaz de analisar e aplicar práticas eficazes. Sem esse preparo, muitos acabam mantendo estratégias ineficazes ou interrompendo intervenções que estavam funcionando. A AFIRM Brasil oferece a oportunidade de treinar professores para utilizarem práticas que realmente funcionam, colaborando para o ensino de habilidades como comunicação, engajamento e independência", avalia.

Gabriela Mazaro (neuropsicopedagoga)
"A inclusão escolar não acontece apenas porque uma criança autista está matriculada. Ela precisa participar, aprender e comunicar suas necessidades. Para isso, o professor deve estar preparado. Muitas vezes, ele quer ajudar, mas não recebeu formação suficiente para compreender determinados comportamentos ou adaptar atividades sem reduzir expectativas de aprendizagem. Recursos visuais, organização da rotina, antecipação de mudanças e diferentes formas de apresentar conteúdos podem fazer enorme diferença, mas precisam ser usados com objetivo e de acordo com cada necessidade. Não existe uma ‘sala de aula para autistas’, porque não existe um único perfil de aluno autista. O desafio é olhar para cada estudante como indivíduo e oferecer suporte para que participe da vida escolar com pertencimento e autonomia", afirma.

Damião Silva (psicólogo e neuropsicólogo)
"Um dos maiores equívocos é imaginar que o diagnóstico determina sozinho as necessidades da pessoa. O espectro é muito heterogêneo: pessoas da mesma idade e com o mesmo diagnóstico podem ter perfis completamente diferentes de comunicação, aprendizagem, interação social e autonomia. Por isso, não basta escolher uma intervenção conhecida ou que funcionou com outra criança. É preciso compreender quais habilidades precisam ser desenvolvidas, quais barreiras estão presentes e quais estratégias possuem evidências para aquela finalidade. Além disso, é essencial acompanhar a resposta individual. Práticas baseadas em evidências não são receitas prontas, mas ferramentas que devem ser adaptadas às características e ao contexto de cada pessoa", conta.

Thiago Castro (pediatra)
"É importante entender que o autismo é um espectro, e não existe uma única forma de apresentação. Algumas crianças demonstram diferenças mais perceptíveis na comunicação e interação social, enquanto em outras os sinais são sutis e podem demorar a chamar atenção. O pediatra tem papel fundamental porque acompanha o desenvolvimento e pode perceber mudanças que não surgem como esperado. Isso não significa buscar diagnóstico diante de qualquer comportamento diferente, mas reconhecer sinais persistentes que justifiquem avaliação mais aprofundada. Quanto mais cedo compreendemos as necessidades da criança, mais cedo conseguimos orientar a família e pensar nos suportes adequados. Também é essencial combater mitos, como a falsa associação entre vacinas e autismo. Informação de qualidade ajuda os pais a trocar o medo pela observação e pela busca de orientação adequada", pondera.
Formação gratuita sobre autismo
No Dia dos Professores, a AFIRM Brasil chama atenção para a importância da formação continuada de educadores que atuam com alunos autistas. A plataforma reúne 28 cursos gratuitos, com conteúdos voltados a professores, profissionais do Atendimento Educacional Especializado (AEE), saúde e familiares.
Os cursos abordam desenvolvimento, inclusão e práticas baseadas em evidências, com foco na aplicação dos conteúdos no dia a dia escolar. A proposta é ampliar o acesso de educadores a informações qualificadas para o atendimento de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
 
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