Arte coluna Nuno 01 fevereiro 2026_VERSAO ONLINEArte Paulo Márcio
Publicado 01/02/2026 00:00
As eleições ainda estão distantes, mas o eleitor pode, desde já, ir preparando os ouvidos e o espírito para uma campanha que, na melhor das hipóteses, será a repetição das duas anteriores. Por mais que haja assuntos sérios a serem tratados no país, ele ouvirá mais lacração do que propostas, mais bate-boca do que debate sério. Daqui por diante, a temperatura estará sempre em elevação e a troca de acusações entre os candidatos será cada vez mais estridente.
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Quem esperava que a abertura de uma “terceira via” ajudasse a distensionar o ambiente e trazer um pouco de fidalguia às discussões, pode esquecer. A menos que algum fato novo que esteja completamente fora do radar neste momento provoque uma mudança radical no cenário, a disputa se dará entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorrerá pelo PT, e o senador Flávio Bolsonaro, que sairá pelo PL. Dia após dia, a corrida ficará mais afunilada entre eles — e os outros nomes que permanecerem na raia serão tratados como meros figurantes.
Daqui em diante, todos os problemas do Brasil se resumirão em uma só: quem governará o país nos próximos quatro anos? Esse é o tipo da pergunta cuja resposta, como no poema de Cecília Meireles, “acende paixões que alastram sinistras rivalidades”. Portanto, o aviso mais sensato a ser dado nesta hora é: “Senhoras e senhores, apertem os cintos! Passaremos por uma zona de muita turbulência!”
Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado na quinta-feira da semana passada, avaliou as preferências do eleitor em dois cenários diferentes. O primeiro tem como protagonistas Lula e Flávio Bolsonaro. No outro, o atual presidente mede forças com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Por ser um nome simpático ao “Centrão” — aquela turma de políticos adesistas que nunca arrisca o próprio pescoço numa disputa, mas que está sempre disposta a embarcar na canoa que mais tiver mais chance de vitória —, o governador de São Paulo era, e ainda é apontado por muita gente como o nome da direita com mais chances de vitória numa disputa contra o favorito Lula. Desde a semana passada, porém, essa possibilidade foi sepultada. E, pelo que tudo indica, de uma vez por todas.
O próprio Tarcísio, na saída da visita que fez ao ex-presidente Jair Bolsonaro, no presídio em que cumpre pena, em Brasília, também na quinta-feira, repetiu pela enésima vez que não concorrerá à Presidência da República. Seus esforços estarão concentrados na própria reeleição para o Palácio dos Bandeirantes. Diante dessa declaração recorrente, qualquer afirmação em contrário daqui por diante deve ser tratada como mera especulação. O melhor, então, é esquecer o governador e concentrar as atenções na corrida entre o experiente Lula, que pleiteia o quarto mandato, e o filho mais velho do ex-presidente, estreante na disputa.

CONSUMO E INFLAÇÃO — A situação, é claro, pode sofrer alterações nos 245 dias — ou oito meses — que, a contar de hoje, faltam para o primeiro turno das eleições. Dependendo do ponto de vista, isso é tempo de sobra para alguma mudança que interfira no trajeto. Quer um exemplo dessa possibilidade? Vamos lá: a partir de fevereiro, o mercado começará a sentir os efeitos da isenção do Imposto de Renda para assalariados que ganham até R$ 5 mil. A tendência é que isso injete mais dinheiro na economia e estimule o consumo, certo? Certíssimo! Na visão dos marqueteiros, isso aumentaria a popularidade do governo e consolidaria o favorito Lula como um candidato praticamente imbatível.
O debate não acaba aí. Qualquer vestibulando de economia sabe que o aumento exagerado na demanda por alimentos em outras mercadorias pode gerar pressão sobre os preços e aumentar a inflação, certo? Isso já aconteceu outras vezes no Brasil e pode voltar a acontecer agora. Portanto, se a expansão do consumo gerar desabastecimento, promover o desarranjo geral dos preços e exigir que o Banco Central eleve ainda mais os juros para conter a inflação, o beneficiado eleitoral será o senador Flávio.
É claro que, no mundo real, a relação de causa e efeito entre esses fenômenos não é tão simples e automática — e que as possibilidades apontadas acima não passam de conjecturas. Elas foram mencionadas aqui apenas para deixar claro que novos fatos podem surgir e alterar o cenário eleitoral nos próximos meses. Na prática, porém, as eleições já estão logo aí e, naquilo que realmente interessa—ou seja, nos nomes dos candidatos favoritos — nada indica a possibilidade de uma guinada capaz de desviar a rota apontada pelo Paraná Pesquisas na semana passada.
Pelo levantamento, Lula lideraria o primeiro turno, com 39,8% dos votos. Flávio viria em seguida, com 33,1%. A lista apresentada ao eleitor inclui os nomes dos governadores Ratinho Júnior, do Paraná, Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas Gerais, e mais alguns políticos que anunciaram a intenção de postular à presidência. Juntos, eles somariam 15,6% das intenções de voto. Um total de 11,5% dos entrevistados não escolheu, não opinou ou não sabe em quem votar.
Esses percentuais, é claro, tendem a se alterar ao longo da campanha. O mais interessante — e, para alguns, até surpreendente — é o resultado da simulação para o segundo turno. Ali, Flávio desponta em “empate técnico” com Lula. O presidente, que se comporta como candidato desde que derrotou o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2020, tem 44,8% das intenções de voto. O senador, por sua vez, aparece com 42,2%. O empate se repete no quesito rejeição. A de Lula é de 45,3%. A de Flávio, 44,7%. O simples anúncio desses números já foi suficiente para atiçar o ânimo das hostes da direita.

CAMINHADA DE NIKOLAS — Na próxima quinta-feira, dia 5 de fevereiro, completam-se dois meses do dia em que Flávio Bolsonaro, ao sair de uma visita a Jair, que, na época, se encontrava preso na Polícia Federal, declarou que, por decisão do pai, se lançaria candidato ao Palácio do Planalto. Isso mesmo: apenas dois meses. Considerado até aquele momento uma peça descartável no baralho bolsonarista, o anúncio causou surpresa — a ponto de muita gente lançar dúvidas sobre a seriedade da candidatura. Muitas apostas indicavam que, ao se apresentar para uma disputa para a qual não estava escalado, ele estava apenas criando um factoide que, mais adiante, seria usado como moeda de troca em benefício do pai.
A trama seria a seguinte: Flávio entraria na disputa, bagunçaria o cenário, esperaria o momento oportuno e se retiraria em troca do compromisso do “Centrão” com uma situação que, na pior das hipóteses, tirasse o pai da cadeia e o permitisse cumprir em casa a pena a que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal. O que pouca gente observou foi que, enquanto os “analistas” tentavam provar por A mais Bê que a candidatura não se manteria de pé, Flávio passou a falar, a se comportar e a cumprir uma agenda de candidato a presidente da República. E essa mudança de postura, pelo que já se viu, foi notada pelo eleitor e se refletiu no resultado da pesquisa da semana passada.
É óbvio que o crescimento de Flávio pode ter sido estimulado por acontecimentos recentes, que deram mais projeção a seu nome. Mas isso apenas reforça a viabilidade de sua candidatura. O levantamento do Paraná Pesquisas foi feito entre os dias 25 e 28 de janeiro e, certamente, sofreu alguma influência da caminhada liderada pelo deputado Nikolas Ferreira em apoio a Jair Bolsonaro. Admitam ou não admitam os esquerdistas, a peregrinação de mais de 200 quilômetros entre a cidade de Paracatu, em Minas Gerais, e Brasília, por mais que tenha sido tratada pela chamada “grande imprensa” como se não tivesse acontecido, dominou as redes sociais e foi o acontecimento político mais marcante no Brasil nos últimos dias. Isso, certamente, deu à candidatura de Flávio uma projeção que os marqueteiros de Lula não conseguiram anular.
Outro acontecimento que também pode, em menor medida, ter influenciado o resultado da pesquisa foi o discurso feito por Flávio, em Israel, na terça-feira passada, dia 27. Falando na Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, na presença do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Flávio se expressou com segurança, e em inglês. O senador criticou a postura no Brasil no cenário internacional, se referiu ao presidente Lula como antissemita e disse que não discursava apenas como senador, mas como futuro candidato à presidência.
Ter assumido essa postura e ter chegado a uma posição como essa nas pesquisas em tão pouco tempo é, de fato, animador para um candidato que, ainda hoje, tem a candidatura posta em dúvida por muita gente. Mas, quem observar as circunstâncias do ambiente político brasileiro, porém, notará que a consolidação da candidatura de Flávio nada tem de surpreendente. E que, além disso, ter como adversário um candidato com o sobrenome Bolsonaro é o que mais atende aos interesses do presidente Lula.

DUELO MARCADO — Não existe eleição decidida antes da apuração dos votos, mas a evolução dos fatos mostra que o bolsonarismo se tornou o adversário preferido de Lula ainda antes das eleições de 2022. Tanto assim que, em seus discursos, o presidente não se cansa de trazer Bolsonaro para a cena. Mesmo em situações que não tenham a ver diretamente com o adversário, Lula sempre faz questão de incluir no enredo alguma crítica ao “governo passado”. Como a menção sempre tem um efeito positivo entre seus apoiadores, o presidente acaba abusando do recurso. Esse recurso, ao invés de atrapalhar, acaba ajudando a delimitar o campo de batalha e a não deixar dúvida sobre a identidade do adversário contra o qual todos os seus seguidores devem se unir.
Mais de uma vez já se falou, neste e em outros espaços, que, se Lula pudesse escolher a quem enfrentar nas urnas deste ano, o nome de Jair Bolsonaro estaria na cabeceira da lista. Afinal de contas, o presidente já o derrotou uma vez, sabe como enfrentá-lo e, pela maneira com que se comporta, se sente à vontade nesse embate. A questão é que, nesse caso, a recíproca é absolutamente verdadeira. Desde 2022, os bolsonaristas sonham em enfrentar Lula numa revanche.
É como se dois pugilistas veteranos, que já mediram forças dezenas de vezes, subissem ao ringue para um novo combate. A essa altura, cada um deles já conhece os pontos fortes e os pontos vulneráveis do adversário. Um sabe perfeitamente de onde pode vir o golpe, sabe como se esquivar e como partir para o contra-ataque. A luta que sairá daí é daquele tipo que inflama paixões dos dois lados e gera barulho dos torcedores.
Com a ausência forçada de Jair dessa disputa, o entorno de Lula chegou a sonhar com uma liderança tão folgada que lhe garantisse algo que não teve nas três vezes em que já foi eleito presidente da República: uma vitória no primeiro turno. As circunstâncias do momento, no entanto, indicam que a luta não será decidida por nocaute. Ganhe quem ganhar, a vitória será por pontos.
Ah, sim! O candidato da vez não será Jair — mas alguém mais jovem e, teoricamente, menos desgastado do que ele. Dadas as circunstâncias, porém, esse detalhe é insignificante: haverá um momento da campanha em que o eleitor olhará para Flávio e enxergará Jair em seu lugar. Em outras palavras, a consolidação do nome do senador como um candidato viável e com chances de colocar Lula contra as cordas dá ao cenário eleitoral de 2026 a feição que ele já teria há mais tempo, caso Jair não estivesse inelegível e pudesse ser — ele, não o filho — o protagonista de um duelo que já estava marcado há quatro anos.
Flávio ocupa a posição que a Justiça impediu que Jair ocupasse. Por mais que procure evitar os exageros retóricos e a agressividade que sempre fizeram parte do discurso de seu pai, ele só está na disputa porque o outro não pode estar. O sobrenome, nesse caso, conta pontos desfavoráveis ao senador — que herda automaticamente a rejeição ao pai. Mas, também, conta pontos a favor: com o sobrenome que carrega, ele herdará, também, a fidelidade cega que a “direita raiz” tem ao ex-presidente.
Lula, por sua vez, é o mesmo Lula de sempre. Ele terá os benefícios de estar no comando da máquina, e isso não é pouco. Terá o bônus e o ônus de estar à frente de um governo que não vai tão bem como dizem seus apoiadores, mas está longe de ir tão mal como apontam os adversários.

DESCONSTRUÇÃO — Num cenário como o que está se desenhando para outubro, nenhum eleitor deve esperar por uma campanha propositiva e inovadora. Pelo contrário: pelo que já se viu até aqui, a corrida eleitoral de 2026 será mais influenciada por comparações e pelo que já se foi do que para o que está por vir. Mais pelo passado do que pelo futuro!
É aí que está o problema. Essa situação de confronto permanente, em que ninguém parece ter força suficiente para apontar novos caminhos, mantém o país sempre preso a políticas que já não deram certo. Assim como aconteceu em 2018 e 2022, o eleitor não deve esperar pela apresentação de programas consistentes, por propostas disruptivas e por soluções viáveis para os problemas do país. De agora em diante, e antes mesmo que se cumpram todos os ritos e prazos que a Justiça Eleitoral estabelece para a disputa, a única certeza que se pode ter em relação ao pleito de 2026 é a de que a campanha será marcada pela tentativa de cada um dos adversários “desconstruir” a imagem do outro.
O verbo “desconstruir” é um eufemismo alimentado por marqueteiros para se referir a um tipo de propaganda eleitoral que mais aponta os defeitos (reais ou imaginários) do adversário do que mostra as propostas e realça as qualidades eleitorais do próprio candidato. O que interessa não é conquistar a simpatia do eleitor — mas fazer com que ele rejeite a ideia de votar no outro. Nesse esforço, os dois lados em disputa provavelmente se esquecerão de tocar em pontos essenciais que — eleição vai, eleição vem — raramente são tratados com a seriedade necessária.
O Brasil tem muitos problemas a resolver e alguns foram aprofundados pelas administrações mais recentes. Um deles — certamente, o principal deles — é a situação das finanças federais e a falta de dinheiro que o próximo governo, qualquer um que vier a ser eleito, terá de enfrentar para conseguir o dinheiro necessário para cumprir os compromissos de campanha. Sem recursos no caixa, qualquer compromisso de campanha se torna uma promessa vazia.
Outro ponto importante é a necessidade de se reduzir o peso de um Estado perdulário, que se agigantou sem mostrar qualquer eficiência e que pesa cada vez mais nos ombros de uma sociedade já sobrecarregada de impostos. A segurança pública é outro problema que sempre preocupa o eleitor — já cansado de promessas de soluções que nunca dão os resultados esperados. Nessa hora decisiva da campanha, seria muito bom que o voto do eleitor fosse orientado por programas que mostrasse como o candidato pretende lidar com essas e outras situações delicadas. O mais provável, porém, é que ele só ouça um candidato falar sobre a incapacidade do outro em lidar com essas situações.
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