Arte coluna Nuno 12 abril 2026_VERSAO ONLINEArte Paulo Márcio
Publicado 12/04/2026 00:00
Daqui a dois ou três meses, quando a campanha eleitoral estiver pegando fogo mesmo sem ter começado oficialmente, o cidadão será mais uma vez chamado a refletir sobre temas que os políticos só discutem de quatro em quatro anos. A política de segurança pública, o acesso à saúde, a qualidade da educação, o preço dos alimentos e outras situações parecidas surgirão no centro dos discursos e tratados como se sua solução dependesse apenas da decisão do eleitor de votar em quem jura ter “vontade política” de resolvê-los. São assuntos fundamentais, que têm repercussão sobre a vida da sociedade inteira, mas que voltam a hibernar assim que os votos são apurados e os nomes dos vencedores, anunciados.
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Soluções fáceis para problemas difíceis aparecerão nos debates. No final da campanha, no entanto, quando os nomes de quem governará pelos próximos quatro anos e dos parlamentares que elaborarão as leis do país já forem conhecidos, a mãe de todas as perguntas continuará sem resposta. Mais do que uma pergunta, trata-se, na verdade, de um enigma que persiste entre os analistas que acompanham o comportamento da economia — que, no final das contas, é a origem de todos os problemas e soluções. Se a economia vai bem, a solução dos outros problemas torna-se possível e em certos casos, até fácil. Se vai mal, a solução fica mais distante. E, em alguns casos, impossível.
O enigma é: por mais que em determinados momentos o Brasil começa a andar, dá a impressão de que vai deslanchar, mas logo para diante do primeiro obstáculo. É o caso do momento atual. Embora apresente taxas positivas de crescimento e tenha indicadores saudáveis para dizer que tudo vai bem, o país tem sido incapaz de engatar um ciclo positivo e duradouro de crescimento sustentável. Em resumo: o Brasil cresce, mas não decola. O que explica essa situação?

ENIGMA PERSISTENTE — Vistos com frieza, os números atuais são positivos. Depois de superada a recessão que se seguiu à pandemia da Covid 19 e que, em 2020, fez o PIB recuar em 4,1%, o Brasil vem crescendo a taxas razoáveis e constantes. Para resumir, a expansão em 2024 foi de 3,4%. No ano passado, 2,3%. Este ano, as instabilidades internacionais e seus reflexos sobre os preços do petróleo empurraram as previsões de crescimento para baixo. Mas, de qualquer forma, haverá crescimento.
Se a estimativa da edição mais recente do Boletim Focus, com dados do mercado, estiver correta, o crescimento deste ano será de 1,85%. Um dos indicadores que mantêm os índices positivos são os investimentos em infraestrutura — que continuam batendo recordes. Puxados pelo capital privado, eles devem superar R$ 300 bilhões em 2026.
Aliado a esse número vem outro indicador que sempre esteve no centro da preocupação dos brasileiros: a taxa de inflação. Volta e meia, essa fera ameaça fugir do controle do Banco Central — a instituição responsável pela estabilidade da moeda. Mesmo assim, a taxa tem se mantido comportada. A previsão do Focus para este ano é de um IPCA de 4,36%. Era de 4,31% na edição anterior. Não é o número desejável, mas, de qualquer maneira, está abaixo do teto da meta de 4,5%.
Outro ponto a ser observado: ao contrário das previsões pessimistas, que indicavam uma desvalorização crescente do Real, o câmbio não ultrapassou os R$ 6,50 por dólar. E, a menos que aconteça alguma catástrofe, não chegará tão cedo a esse ponto. Na sexta-feira passada, recuou para perto de R$ 5,00, em função do alívio das tensões no Oriente Médio. A expectativa é que, no final deste ano, seja negociado por mais ou menos R$ 5,50.
Ah, sim! Embora a credibilidade do IBGE venha sendo posta em xeque pela politização ostensiva que passou a contaminar as ações da instituição sob a presidência do economista Márcio Pochmann, a taxa de desemprego medida pela instituição é baixíssima. Em 2025 foi de 5,4%, a menor desde 2012. As empresas se queixam do déficit de engenheiros e técnicos e muitas delas têm dificuldade para preencher as vagas abertas. Ou seja, com politização ou sem a politização das estatísticas, a economia dá sinais de aquecimento.
Números positivos como esses, ao invés de esclarecer, só reforçam o enigma mencionado no início deste texto. A situação, porém, perde a exuberância no momento em que o desempenho do Brasil é comparado com o de outros países emergentes. O Brasil pode estar até indo bem na corrida contra seu passado recente — quando viveu, na década passada, a recessão mais profunda da história. O pior ficou para trás, mas o país perde feio quando seus números são comparados com os de países com os quais disputa espaço num mercado global cada vez mais competitivo e agressivo.
Os 2,3% de expansão do PIB em 2025 deixam o país em uma modestíssima 35ª posição entre as economias que mais cresceram no mundo. O líder global em matéria de crescimento é a emergente Índia, que, no ano passado, registrou uma expansão de 6,5%, depois de batido em 6,4% em 2024. Com um PIB estimado em US$ 4,1 trilhões, a Índia ocupa hoje a 5ª posição entre as maiores economias do mundo. Enquanto isso o Brasil, que já foi o 8º mais rico, aparece em 11º lugar.
Esses números ilustram um quadro doloroso. No final dos anos 1980, mesmo com a crise que viveu durante a chamada “década perdida”, quem comparasse a economia do Brasil com a de países como China, Índia, Coréia do Sul, Indonésia e Tailândia, teria a impressão de testemunhar a disputa de um gigante emergente contra economias condenadas à indigência eterna. De lá para cá, porém, mesmo tendo vivido momentos de otimismo, a situação se inverteu. O Brasil perdeu posições no ranking e foi ultrapassado senão em PIB, pelo menos em produção industrial. A primeira questão é: por que ele pisou no breque enquanto os outros aceleravam? O que ele fez de tão errado para ficar para trás?

GASTOS POR FORA — A resposta envolve mais de um fator e deve ser buscada com cuidado — sob o risco de, além de não esclarecer os fatos, contribuir para alimentar a polarização excessiva que tem contaminado qualquer debate que se proponha a fazer no Brasil. O problema vai muito além da disputa retórica entre a direita e a esquerda, que atribuem uma à outra a responsabilidade pela paralisia do Brasil.
A esquerda, que, com poucas interrupções governa o Brasil desde o início do Século 21, acha que os problemas começam e terminam na distribuição de renda injusta, em que os pobres têm pouquíssimo e “os do andar de cima”, eufemismo que o esforço de marketing do governo criou para se referir aos mais abastados, levam vidas de nababos. E a solução que ela propõe é tirar de uns e dar para outros. Será que isso resolve a questão? É preciso ser muito ingênuo ou mal-intencionado para acreditar nessa conversa.
O Brasil ocupa uma posição incômoda num ranking sensível: o PIB Per Capita — que divide a riqueza nacional pelo número de habitantes. Nele, o país está na 76ª colocação, com pouco mais de US$ 11 mil dólares por cabeça. A média mundial é de quase US$ 14 mil por ano. Nos Estados Unidos, de US$ 85 mil, na França US$ 47 mil. No Uruguai, 23 mil e no Chile, US$ 16 mil — para citar apenas alguns exemplos. Ou seja, a divisão pura e simples da riqueza entre os habitantes serviria apenas para aumentar o número de miseráveis na comparação com os demais países do mundo.
A frieza dos números não deixa dúvidas quanto à ineficácia das políticas distributivas como solução dos problemas estruturais do país — embora ninguém em sã consciência possa negar a importância das políticas assistenciais conduzidas pelo Estado no combate aos casos extremos de miséria. Em tempo: ninguém pode negar a importância ou a necessidade dos programas sociais. Mas daí a enxergar nesses programas a solução que atenderá às necessidades da atual e das próximas gerações vai uma distância abissal.
Seja como for, o atendimento das demandas sociais acaba sendo a desculpa para os gastos públicos exagerados — embora não estejam longe de ser a principal causa do desajuste fiscal crônico do país. Esse é o ponto: mais do que pagar o preço de estar submetido a um governo gastador como o atual, o Estado brasileiro é perdulário pela própria natureza. Isso mesmo! Gastar mal e deixar o dinheiro público escapulir pelo ladrão não é privilégio do atual governo, mas uma característica do Estado brasileiro. Além de gastar mal o dinheiro que arrecada, ele ainda considera correto usar recursos públicos para cobrir uma série de despesas e não contabilizar esses gastos no cálculo do déficit fiscal.
Ou seja, o dinheiro sai do Tesouro Nacional para pagar precatórios atrasados, para ressarcir os aposentados lesados pelas fraudes do INSS, para despesas com a defesa do país, mas, na hora de apresentar as contas é como se esses gastos não tivessem sido feitos. No ano passado, os gastos federais superaram em R$ 61,7 bilhões o orçamento previsto para o ano — mas, na hora de calcular o déficit público para efeito da meta fiscal, R$ 48,7 bilhões desse valor astronômico foram simplesmente ignorados.
O governo efetivamente gastou, mas fingiu que não gastou essa dinheirama. E, para cobrir o rombo precisou recorrer ao velho recurso da emissão de títulos. No ano passado, a dívida pública aumentou 18% e alcançou R$ 8,6 trilhões. Isso aponta um cenário preocupante. A economia não decola devido ao problema fiscal crônico que se torna cada vez mais grave na medida em que os governos insistem em políticas populistas ou em medidas que atacam os sintomas sem jamais mexer nas causas do descontrole.
É justamente por ter abusado desse tipo de recurso ao longo dos últimos anos que o Brasil não consegue imprimir à sua economia a tração que ela necessita para crescer a taxas expressivas e constantes. O país cresce, mas cresce pouco e devagar. Em mais: um crescimento de 0,5% do PIB brasileiro exige um esforço maior e tem um custo mais elevado do que o mesmo 0,5% em um país que tenha contas ajustadas. Esse é o problema.

TRANSAÇÕES CORRENTES — A persistência desses hábitos aponta para um cenário preocupante. O país neste momento vive uma situação melhor do que viveu na década passada, quando as decisões populistas persistentes o empurraram para uma recessão prolongada. Mas alguns indicadores para os quais poucos analistas dedicam a atenção necessária já começam a mostrar que a situação pode piorar se não forem tomadas providências para cortar o mal pela raiz.
Um desses indicadores é o saldo das Transações Correntes — que aponta a diferença entre a entrada e a saída de dólares do país. No ano passado, o resultado foi negativo e o déficit alcançou US$ 68,8 bilhões, o que representa 3,02% do PIB — indicando que saiu muito mais dinheiro do que entrou no país em 2025. O aumento foi de US$ 2,6 bilhões em relação aos números de 2024 e o resultado foi consequência, principalmente, da redução de US$ 5,9 bilhões no superávit da balança comercial de bens — que fechou o ano em US$ 60,0 bilhões (queda de 8,9% ante 2024). Houve, também, o aumento das remessas para o exterior de dinheiro que, se ficasse no Brasil, ajudaria a dinamizar a economia.
Os US$ 68,8 bilhões de Déficit das Transações Correntes não chegam a preocupar como número isolado — mesmo porque, o país dispõe de reservas cambiais de US$ 371 bilhões, conforme os dados de fevereiro. Mas a saída persistente de dinheiro em volume superior ao da entrada de capitais é suficiente para acionar o sinal de alerta caso sejam a expressão de uma tendência. E mais: pode-se dizer que muitos investidores internacionais que continuam mandando seu dinheiro para o Brasil só tomam essa decisão devido as taxas de juros para lá de generosas definidas pelo Banco Central. A rigor, a capacidade de atrair recursos para ajudar a financiar a dívida pública é, talvez, o único efeito positivo de uma taxa de juros indecente como é a brasileira.
Aí é que está o problema que realmente importa: a taxa que atrai o capital especulativo para o Brasil e que permite a rolagem da dívida pública crescente é a mesma que desestimula a expansão da economia. E, se esse desestímulo ajuda a segurar a taxa de inflação, ele também torna proibitivos os investimentos de longo prazo. Sem investimentos de longo prazo contínuos e crescentes o país jamais dará o salto que o tirará da pobreza. A pergunta é: será que a decisão de manter os juros elevados a pretexto de impedir a alta da inflação já não produziu os efeitos que poderia produzir? Será que ela, ao invés de curar, está submetendo o paciente ao risco de morte? O que aconteceria, na prática, se o BC baixasse os juros para níveis civilizados?
Este é o ponto. Um dos fatores silenciosos apontados como determinantes para os índices modestos de crescimento que a economia brasileira apresenta é o custo do capital. A taxa Selic, que é a base dos juros no Brasil, foi reduzida de 15% para 14,75% na última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Havia a expectativa de um corte maior, que reduzisse a taxa para 14,5%. Diante da alegação de riscos inflacionários provocado, entre os fatores, pela instabilidade do mercado internacional do petróleo, o Copom acabou optando por uma redução mais conservadora.
Os efeitos nocivos desses juros indecentes já foram discutidos neste espaço mais de uma vez. Pior: a Selic nesse nível justifica que os bancos públicos e privados submetam as empresas que pretendam crescer ou financiar sua recuperação a juros reais escorchantes, indecentes e inibidores de qualquer investimento.
É bom insistir: as taxas de juros cobradas dos tomadores de crédito no Brasil tornam o custo dos empréstimos incompatíveis com a realidade de empresas que precisam investir para expandir ou simplesmente manter suas operações. O desestímulo ao crédito reduz os investimentos e isso, obviamente, tem reflexos sobre os números gerais da economia.
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que é a rubrica do PIB que mede a taxa de investimento em bens de capital, foi de 16,8% em 2025. O indicador é composto pelos investimentos em máquinas e equipamentos, além de galpões e outras instalações físicas e é fundamental para a estimativa de crescimento.
Nesse quesito, o desempenho do Brasil é baixíssimo. Para se ter uma ideia disso, basta dizer que a média mundial da rubrica é de 26%. Na Índia (sempre a Índia!), a FBCF tem se mantido acima dos 30% nos últimos anos. Atenção: mais importante do que apresentar os números que apontem o problema é observar o impacto desses indicadores sobre o mundo real da economia: o juro alto está matando a economia e, apesar dos indicadores positivos atuais, logo conterão o crescimento e farão o PIB engatar a marcha à ré.
Nos últimos meses, houve um aumento consistente dos pedidos de recuperação judicial no país, inclusive envolvendo empresas de grande porte. Esse movimento não pode ser tratado apenas como falhas de gestão de empresas como a Raízen (joint venture entre a Cosan e a Shell) e os Supermercados Pão de Açúcar — para citar apenas dois exemplos recentes de grandes empresas em Recuperação Judicial. Ele também é reflexo do ambiente hostil alimentado pelos juros indecentes, que penaliza a produção e inibe o crescimento. As dificuldades, é claro, não atingem apenas as grandes organizações.
O ano de 2025 terminou com um total de 5680 empresas em Recuperação Judicial — um aumento de 24% em relação a 2024. E mais: entre as empresas que deixaram o regime de Recuperação, 40% faliram no ano passado. No ano anterior, esse índice foi de 11%. Outro reflexo dos juros: segundo divulgou a Confederação Nacional do Comércio na semana passada, pouco mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas — a maioria no cartão de crédito. Em 30% dos casos, as dívidas estão em atraso e em 12, a situação é de inadimplência. O grande culpado, os juros! A pergunta é: de que adianta ter emprego se o salário não é destinado ao bem-estar da família, mas ao pagamento dos jutos?
Em tempo de eleição, é bom avisar: quem perdeu o emprego, quem não consegue pagar as contas ou quem viu a empresa que criou ser reduzida a pó não quer saber se a culpa por seu nocaute é da direita ou da esquerda. O que essa pessoa quer é trabalhar e crescer. O primeiro passo para isso é a adoção de taxas de juros civilizados, sem as quais o Brasil jamais decolará. Será que essa discussão fará parte da campanha?
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