Publicado 17/05/2026 00:00
O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL/RJ) vive um momento especialmente incômodo para alguém que, até dias atrás, estava numa trajetória ascendente que parecia destinada a conduzi-lo ao cargo mais importante da República. Agora, ao invés de cobrar respostas, ele precisa dar explicações. Pior ainda: está exposto ao julgamento severo de pessoas dispostas a condená-lo sem se darem ao trabalho de ouvir o que ele tem a dizer em sua defesa.
PublicidadeA caminhada do senador se deparou, na quarta-feira passada, com o maior obstáculo que enfrentou até agora. Trata-se da publicação pelo site Intercept Brasil de uma gravação que vem dando o que falar. Em mensagem de áudio, o senador cobra a liberação de parte do dinheiro que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro havia prometido para ajudar a bancar um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Batizado de Dark Horse (expressão em inglês que significa azarão), o filme tem estreia prevista para o mês de setembro, bem na reta final da campanha eleitoral, e será estrelado pelo ator americano Jim Caviesel.
O episódio ainda não chegou à Justiça. No entanto, ninguém deve estranhar se, amanhã ou depois, a Procuradoria Geral da República ver na gravação algum motivo para processar Flávio e o Supremo Tribunal Federal, como tem feito com todas as denúncias que se referem à família Bolsonaro, levar o processo a julgamento. Os desdobramentos jurídicos, porém, talvez nem sejam o aspecto mais sensível desse episódio.
Independentemente de qualquer consequência jurídica que um processo como esse possa vir a gerar, as implicações políticas são imediatas. Flávio pode até conseguir provar, mais adiante, que não houve qualquer ilegalidade nos acertos com Daniel Vorcaro que foram jogados no ventilador pelo Intercept. Mas o estrago já está feito. E, dependendo da dinâmica de uma campanha eleitoral que ainda não começou oficialmente, mas já está nas ruas desde o ano passado, as consequências podem ser devastadoras para ele.
Independentemente de qualquer consequência jurídica que um processo como esse possa vir a gerar, as implicações políticas são imediatas. Flávio pode até conseguir provar, mais adiante, que não houve qualquer ilegalidade nos acertos com Daniel Vorcaro que foram jogados no ventilador pelo Intercept. Mas o estrago já está feito. E, dependendo da dinâmica de uma campanha eleitoral que ainda não começou oficialmente, mas já está nas ruas desde o ano passado, as consequências podem ser devastadoras para ele.
No limite das possibilidades, a repercussão negativa do episódio pode até mesmo cortar pela raiz as chances de vitória de uma candidatura presidencial que, até a semana passada, vinha assumindo até mesmo um ar de favoritismo discreto na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As mensagens estavam em um dos celulares de Vorcaro apreendidos pela Polícia Federal e chegaram às mãos do Intercept sabe-se lá por qual caminho.
Nelas, o senador expressa solidariedade pela situação que o banqueiro estava atravessando, mas cobra o pagamento dos recursos prometidos. Flávio não menciona o valor que Vorcaro havia se comprometido a pagar — mas o site insiste em dizer que o total acertado teria sido de US$ 24 milhões. É, sem dúvida, uma senhora bolada!
Pela cotação do dólar comercial na quarta-feira passada, dia 14 de maio, quando a notícia foi publicada, isso alcançaria o valor de R$ 117 milhões. O Intercept, porém, preferiu fazer a conversão pela cotação na data da gravação da mensagem. Ou seja, 16 de novembro do ano passado, domingo, véspera da primeira prisão de Vorcaro. Na época, US$ 24 milhões valiam R$ 136 milhões — ou seja, mais ou menos R$ 20 milhões a mais do que a cotação na quarta-feira.
A escolha, certamente, não foi casual. Num caso rumoroso como esse, quanto mais alta a quantia envolvida no malfeito, maior será o potencial explosivo. Em outras palavras, R$ 117 milhões já seriam suficientes para deixar Flávio em situação para lá de embaraçosa. Mas, convenhamos, o efeito de R$ 136 milhões é mais embaraçoso ainda. Simples assim.
DICK VIGARISTA — A questão é que, até o momento, não se sabe exatamente quanto Vorcaro se comprometeu a investir para ajudar a financiar o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro — e que, certamente, seria uma peça de destaque da campanha de Flávio à presidência. Mas, diante da proporção que o escândalo adquiriu desde o primeiro momento, a falta de certeza sobre a quantia prometida chega a ser um detalhe de menor relevância.
DICK VIGARISTA — A questão é que, até o momento, não se sabe exatamente quanto Vorcaro se comprometeu a investir para ajudar a financiar o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro — e que, certamente, seria uma peça de destaque da campanha de Flávio à presidência. Mas, diante da proporção que o escândalo adquiriu desde o primeiro momento, a falta de certeza sobre a quantia prometida chega a ser um detalhe de menor relevância.
Pelo lado da esquerda, a primeira reação, para surpresa de absolutamente ninguém, partiu do deputado Lindbergh Farias (PT/RJ) — que mantém a família Bolsonaro sob vigilância raivosa, numa obsessão parecida com a do personagem trapalhão Dick Vigarista em seu esforço pela captura do pombo Doodle, no velho desenho animado de Hanna-Barbera. Minutos depois da gravação vir à tona, Lindbergh anunciou que protocolaria junto à Polícia Federal um pedido de prisão imediata de Flávio.
Reações como essa, claro, são do jogo. Pela ótica do PT e de toda a esquerda, Flávio e qualquer bolsonarista é e sempre será culpado e deve ser levado ao pelourinho até por deslizes menos constrangedores do que esse. É claro (e isso também é do jogo) que os partidos da esquerda tentarão explorar o áudio no limite de suas possibilidades. E irão além do que estiver a seu alcance para aniquilar a imagem daquele que, pelo menos até a semana passada, vinha sendo apontado como o adversário com mais chances de bater o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de outubro deste ano.
OMBRO A OMBRO — É improvável que qualquer eleitor que estivesse inclinado a votar em Flávio considere a mensagem publicada pelo Intercept como razão suficiente para dar seu voto a Lula ou a qualquer candidato de esquerda. O mais provável é que os eleitores que desembarcarem da candidatura de Flávio troquem o senador por outro candidato de direita. A pergunta é: quem poderia, na campanha deste ano, cumprir o papel que o filho mais velho de Jair Bolsonaro está cumprindo?
OMBRO A OMBRO — É improvável que qualquer eleitor que estivesse inclinado a votar em Flávio considere a mensagem publicada pelo Intercept como razão suficiente para dar seu voto a Lula ou a qualquer candidato de esquerda. O mais provável é que os eleitores que desembarcarem da candidatura de Flávio troquem o senador por outro candidato de direita. A pergunta é: quem poderia, na campanha deste ano, cumprir o papel que o filho mais velho de Jair Bolsonaro está cumprindo?
O que o episódio testará, no fundo, será a fidelidade dos eleitores de Flávio e o tamanho real da bolha bolsonarista. Pelo que se percebe até agora, os eleitores que demonstram uma fé cega no candidato e que votariam em Flávio em quaisquer circunstâncias não devem chegar a 15% do eleitorado — percentual insuficiente para que, sozinhos, eles levem o senador ao segundo turno da disputa. As chances do senador, portanto, dependem da capacidade que ele terá de atrair eleitores identificados com a direita (ou agastados com os governos de esquerda) que, mesmo não sendo bolsonaristas de carteirinha, se mostrem dispostos a votar em Flávio apenas para derrotar Lula.
Como esses eleitores reagirão aos áudios que já foram divulgados e aos que ainda virão à tona com mais conteúdos comprometedores? Será que a repercussão negativa das gravações será suficiente para excluir o senador da disputa? Será que, ao contrário disso, ele conseguirá convencer os apoiadores que o colocavam ombro a ombro com Lula na corrida eleitoral a manter seu apoio e seguir com ele até a linha de chegada?
DESCARTE ELEITORAL — A proximidade com Daniel Vorcaro, assim como o filme sobre a trajetória de Bolsonaro, deu aos adversários argumentos para utilizar na tentativa de “desconstruir” a imagem de Flávio. E meio ao escândalo, surgiu a acusação de que parte dos recursos pagos pelo banqueiro não seriam destinados ao filme. Eles ajudariam a bancar o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2024. O caso está sob investigação da Polícia Federal.
DESCARTE ELEITORAL — A proximidade com Daniel Vorcaro, assim como o filme sobre a trajetória de Bolsonaro, deu aos adversários argumentos para utilizar na tentativa de “desconstruir” a imagem de Flávio. E meio ao escândalo, surgiu a acusação de que parte dos recursos pagos pelo banqueiro não seriam destinados ao filme. Eles ajudariam a bancar o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2024. O caso está sob investigação da Polícia Federal.
A família Bolsonaro, claro, nega a acusação — mas, a essa altura, qualquer palavra que Flávio ou seus irmãos disserem a respeito do episódio será utilizada contra eles. O que interessa aos adversários não são os fatos, mas as versões. O importante, para eles, é explorar ao máximo a possibilidade de usar escândalos como esse para manter Flávio na defensiva e impedir que ele volte a cortejar o eleitor com a desenvoltura que vinha demonstrando antes do escândalo estourar.
O senador, por sua vez, não parece disposto a recuar de sua pretensão presidencial. A pergunta é: será que a candidatura que até o início da semana passada parecia ter uma avenida aberta pela frente recuperará o fôlego? Esse é o ponto que interessa.
O que mais chamou a atenção no calor do escândalo nem foi a tentativa dos políticos de esquerda de tirar proveito da situação. O que se destacou, isso sim, foi a pressa com que políticos de direita que também pleiteiam a presidência se lançaram sobre o butim — tentando conquistar para si os votos que Flávio perderia com o episódio.
O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que até outro dia cobria Flávio de elogios, foi o que mais elevou o tom. “Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável”, disse em vídeo divulgado pela internet. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, tomou outro caminho. “O pré-candidato Flávio Bolsonaro precisa, sim, se explicar diante de todas as gravações que foram publicadas”, afirmou Caiado antes de lembrar que, em 40 anos de vida pública, nunca foi alvo de acusações de corrupção. Foi como se dissesse: se ele é corrupto, eu não sou!
MACALLAN 21 ANOS — A questão é muito mais complexa do que parece e os efeitos desse escândalo ultrapassam, e muito, a figura de Flávio. Se o critério de aferição das reputações dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano se basear em ligações com o Master ou com a família Vorcaro, poucos permanecerão na disputa. As teias de influência do banqueiro chegam aos três poderes da República e alcançam políticos de todas as inclinações ideológicas.
MACALLAN 21 ANOS — A questão é muito mais complexa do que parece e os efeitos desse escândalo ultrapassam, e muito, a figura de Flávio. Se o critério de aferição das reputações dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano se basear em ligações com o Master ou com a família Vorcaro, poucos permanecerão na disputa. As teias de influência do banqueiro chegam aos três poderes da República e alcançam políticos de todas as inclinações ideológicas.
A começar pelos dignitários do PT da Bahia, muita gente no campo da esquerda tem explicações a dar sobre as ligações com o ex-dono do Master. Os petistas baianos, até onde se sabe, foram os primeiros a mergulhar no esquema de tráfico de influência, em que o banqueiro oferecia mimos caríssimos em troca de acesso privilegiado ao poder. Logo, a prática se alastrou alcançou algumas das mais altas autoridades da República.
O certo é que o banqueiro não media esforços para agradar as autoridades que, se cumprissem suas funções ao pé da letra, poderiam criar obstáculos para que ele seguisse aumentando o patrimônio com base em operações financeiras fajutas. As festanças que ele oferecia em sua propriedade em Trancoso, no Sul da Bahia, eram rumorosas. Os eventos que ele patrocinava em Nova York ou em Londres, com direito a regabofes à base de uísque Macallan 21 anos, atraiam autoridades graúdas e o mantinha em contato direto com o poder — com destaque para figuras próximas ao atual governo.
Os cargos e as posições políticas das autoridades envolvidas com o Master antes que seu nome passasse a figurar na lista, ao invés de servir de álibi, tornam a situação de Flávio ainda mais delicada. Mais do que os danos que o escândalo já provocou e ainda pode provocar à sua reputação, a presença do senador na lista de Vorcaro arranca das mãos da direita uma das bandeiras mais vistosas que ela tinha para mostrar ao eleitor. Até a semana passada, Flávio tinha autoridade para apontar o dedo para os adversários e acusá-los de cometer as mais tenebrosas transações da República. Depois que os áudios vieram a público, os adversários é que estão chamando Flávio de corrupto.
O melhor que Flávio poderia ter feito teria sido não se envolver com o banqueiro. Já que se envolveu, não precisava ter mandado uma mensagem de viva voz e, em alto e bom som, cobrar a ajuda prometida para financiar o filme sobre seu pai. Mas, já que, mais uma vez, fez o que não deveria ter feito, tudo o que resta a ele é procurar sair dessa encrenca o mais depressa e ao menor custo possível. Diante das cobranças inevitáveis e das explicações que será obrigado a dar daqui por diante, o senador acertou em não fugir do assunto. Isso é tudo o que resta a ele — além, é claro, de esperar por pesquisas confiáveis, que meçam o impacto dessas denúncias sobre o ânimo do eleitor.
MODELO DE VIRTUDE — Flávio sempre poderá dizer — e vem fazendo isso desde que o escândalo explodiu — que as gravações divulgadas são anteriores ao lançamento de sua pré-candidatura. Isso é a mais absoluta verdade. A mensagem divulgada é do dia 16 de novembro do ano passado. Vorcaro não o atendeu, nem poderia. No dia seguinte, 17 de novembro, o banqueiro estava ocupado demais, em reuniões com diretores do Banco Central, na tentativa derradeira de salvar seu banco da liquidação extrajudicial. Horas depois, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no momento em que tentava embarcar para Dubai em um dos jatos de sua frota — no que foi visto como uma tentativa de se mandar do país e deixar para trás a confusão que causou.
MODELO DE VIRTUDE — Flávio sempre poderá dizer — e vem fazendo isso desde que o escândalo explodiu — que as gravações divulgadas são anteriores ao lançamento de sua pré-candidatura. Isso é a mais absoluta verdade. A mensagem divulgada é do dia 16 de novembro do ano passado. Vorcaro não o atendeu, nem poderia. No dia seguinte, 17 de novembro, o banqueiro estava ocupado demais, em reuniões com diretores do Banco Central, na tentativa derradeira de salvar seu banco da liquidação extrajudicial. Horas depois, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no momento em que tentava embarcar para Dubai em um dos jatos de sua frota — no que foi visto como uma tentativa de se mandar do país e deixar para trás a confusão que causou.
O senador só viria a se apresentar como candidato, ungido pelo pai, no dia 5 de dezembro de 2025 — ou seja, 18 dias depois da gravação. Poderia, ao anunciar a decisão, ter se tomado a iniciativa de revelar, antes que alguém perguntasse, as ligações perigosas que mantinha com Vorcaro. Preferiu, no entanto, agir como se não tivesse feito o que fez. O que resta, agora, é saber se o senador terá tempo e argumentos para limpar a própria ficha e reduzir os danos do escândalo em sua imagem.
Seja como for, a lama espalhada pelo Master respingou por toda parte, mas a sujeira, neste momento, parece concentrada exclusivamente na imagem de Flávio. Depois das críticas de Zema a Flávio, por exemplo, alguém lembrou que o pai de Daniel, Henrique Vorcaro (que, por sinal, foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira passada) havia doado R$ 1 milhão ao Partido Novo — ao qual o ex-governador é filiado.
Ora, se o dinheiro da família Vorcaro é bom para o Novo (que sempre se apresentou como um modelo de virtude no meio da podridão política brasileira) por que seria tão ruim para o filme sobre Bolsonaro? O senador, por sinal, deixou clara sua insatisfação com Zema ao dizer que merecia, pelo menos “o benefício da dúvida”.
O fato, porém, é que Zema agiu como é comum em duelos dessa natureza: atirou primeiro e perguntou depois. Não foi o único dos que andaram se beneficiando do dinheiro de Vorcaro a voltar as baterias contra Flávio. O próprio senador lembrou, em entrevista à GloboNews, que o Master foi um patrocinador generoso do programa do apresentador Luciano Huck na TV Globo.
A emissora, como se sabe, é crítica a tudo que se refira a Bolsonaro, qualquer Bolsonaro. Na entrevista, Flávio mencionou que o Master havia aportado R$ 160 milhões na TV Globo — embora ninguém tenha tornado público o valor do patrocínio. Como se vê, o senador não foi o único a pôr as mãos em dinheiro de Vorcaro. Mas, pelo que se viu até agora, corre o risco de pagar o preço mais caro pelas ligações com o banqueiro.
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