Publicado 28/06/2026 00:00 | Atualizado 28/06/2026 00:11
Agora é para valer. A partir de amanhã, contra a equipe do Japão, a seleção brasileira decidirá, partida por partida, seu destino na Copa do Mundo. Se perder uma, estará fora. Tomara que a má impressão das duas primeiras rodadas tenha ficado definitivamente no passado e que o time treinado por Carlo Ancelotti confirme daqui por diante a evolução demonstrada no jogo contra a seleção da Escócia. E que pratique um futebol capaz de devolver ao torcedor o direito de sonhar com o título. Um sonho que, com toda sinceridade, tem sido impossível nos últimos mundiais.
PublicidadeIsso mesmo. O torcedor brasileiro, nas Copas mais recentes, às vezes até se deixa iludir pelo esforço marqueteiro em torno de jogadores que parecem mais preocupados com o corte de cabelo do que com a aplicação em campo. A verdade, porém, é que o respeito que alguns adversários ainda demonstram pela seleção brasileira se deve mais ao que o time já foi do que naquilo que ele ainda é. As possibilidades de vitória se sustentam apenas na tradição e nas glórias do passado — sem qualquer conexão com a realidade de um time que se mostra realmente preparado para vencer.
Isso mesmo. Os jogadores da seleção até demonstram vontade de triunfar. Eles até parecem desejar, com sinceridade, levantar o troféu e serem novamente aclamados como os melhores do mundo. Infelizmente, essa não tem sido a realidade. Nas Copas passadas, o time brasileiro não fez por merecer qualquer conquista. Na verdade, nem a CBF nem as forças que influenciam a convocação e a escolha dos 11 jogadores que entram em campo de camisas amarelas para representar o Brasil têm se mostrado capazes de trazer dos mundiais algo que vá além das colocações secundárias, alcançadas após a conquista do pentacampeonato, em 2002.
Tomara que, sob comando de Ancelotti, a história tenha um desfecho diferente do que teve sob o comando de Carlos Alberto Parreira, em 2006, de Dunga, em 2010, de Felipão, em 2014, e de Tite, em 2018 e 2022 — treinadores que se mostraram incapazes de compreender o que se passava sob seus narizes. Em que pese a insistência do italiano em pôr em campo jogadores que dividem a opinião da torcida, o fato é que o time já demonstrou, na última partida da fase de classificação, contra o time da Escócia, uma aplicação tática que reduz a dependência crônica que o time brasileiro parece ter do talento individual dos principais craques.
É bom deixar claro o seguinte: contar com craques capazes de desequilibrar uma partida é um trunfo — e a equipe brasileira nunca deixou de ter atletas excepcionalmente talentosos entre os convocados. Mas os talentos individuais têm se mostrado insuficientes para assegurar conquistas contra adversários que, além de talentosos, se preparam para o jogo coletivo com afinco e determinação.
De amanhã em diante, não haverá mais desculpas. Uma derrota significará deixar escapar entre os dedos a possibilidade do título que marcaria o fim a uma espera que já está se prolongando além do necessário. Seja como for, esse período de jejum prolongado já deixou pelo menos uma lição: nenhum trabalho jamais dará certo se for executado com base apenas no desejo de sucesso. Querer ganhar é importante, mas não é suficiente para garantir a vitória.
Como vem sendo neste espaço nas últimas semanas, a primeira condição da vitória é conhecer em profundidade o terreno em que se pisa e saber exatamente quais são os pontos fortes e os pontos fracos de cada adversário. Nas circunstâncias que têm cercado o time do Brasil, algumas soluções, ainda que sejam vendidas como ideais, jamais produzirão resultados satisfatórios.
Algumas delas, ao contrário, trazem o risco de, ao invés de solucionar uma pendência, gerar uma confusão maior do que as que se propunham a resolver. Isso simplesmente porque se baseiam em situações que dependem mais do improviso e do voluntarismo do que das condições efetivas para se chegar a um bom resultado.
Isso vale para o futebol e para situações muito mais sensíveis. Nas últimas semanas, esta coluna tem explorado as razões profundas que explicam o fracasso crônico das políticas ocidentais no Oriente Médio. A insistência em exportar o modelo europeu de Estado-nação para uma região de sociologia estritamente tribal gerou o caos em países artificiais como a Síria e o Iraque. Também foi dito que a única solução pragmática e viável para a região passa por respeitar essa mesma sociologia. E pela adoção do modelo de sucesso das monarquias do Golfo: a criação de emirados-cidades independentes, onde a fronteira política coincide com a autoridade orgânica dos clãs locais.
GOLPE SANGRENTO — Hoje, é preciso dar um passo adiante e enfrentar o elefante na sala, aquele dogma intocável que domina as resoluções da ONU, os discursos diplomáticos e as redações de quase toda a imprensa ocidental: a chamada "solução de dois Estados". A premissa central desta ideia é que Gaza e a Cisjordânia podem, e devem, unir-se para formar um Estado palestino soberano, viável e pacífico. A realidade nua e crua, no entanto, sustentada pela análise implacável do doutor Mordechai Kedar e pela própria história recente, é muito mais dura: Gaza e a Cisjordânia jamais poderão constituir um país.
A "nação palestina", nos moldes em que o Ocidente a imagina, é uma ficção política, sociológica e geográfica. Para compreender esta impossibilidade estrutural, precisamos primeiro olhar para o mapa. Não com os olhos de um burocrata em Genebra, mas com o pragmatismo de quem entende de logística e soberania. Gaza e a Cisjordânia são dois territórios separados por dezenas de quilômetros de território soberano israelense. Não há contiguidade territorial.
Tentar unir essas duas massas de terra num único Estado funcional exigiria a criação de corredores extraterritoriais, pontes ou túneis gigantescos cortando Israel ao meio — uma vulnerabilidade de segurança que nenhum país do mundo, muito menos um que vive sob ameaça existencial constante, jamais aceitaria. Mas a geografia é apenas o menor dos problemas. A verdadeira fratura é sociológica e política.
Gaza e a Cisjordânia são, na prática, dois universos distintos, habitados por populações com dinâmicas tribais diferentes e governados por entidades que se odeiam mortalmente. Em 2007, o mundo assistiu a uma demonstração brutal dessa incompatibilidade. Após a retirada unilateral de Israel de Gaza em 2005 — um teste prático da fórmula "terra por paz" que resultou num fracasso espetacular —, o grupo terrorista Hamas tomou o poder na Faixa de Gaza através de um golpe sangrento.
Militantes do Fatah, o partido que domina a Autoridade Palestina na Cisjordânia, foram atirados dos telhados dos edifícios mais altos de Gaza. Desde então, a divisão é absoluta. O Hamas governa Gaza com mão de ferro, sob uma ideologia islâmica radical, enquanto a Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, governa partes da Cisjordânia de forma corrupta, ineficiente e sustentada apenas pelas baionetas israelenses que impedem o Hamas de fazer em Ramallah o que fez em Gaza.
MÁFIAS CONCORRENTES — Negar essa realidade, mais do que negar a história, é acreditar numa possibilidade sem a menor chance de sucesso. Quem acompanha a situação no Oriente Médio e tenta compará-la à realidade brasileira — onde parece não haver conciliação possível entre a esquerda petista e a direita bolsonarista — não tem noção do que é uma cisão profunda entre grupos que não têm a mínima condição de coexistir no mesmo espaço.
MÁFIAS CONCORRENTES — Negar essa realidade, mais do que negar a história, é acreditar numa possibilidade sem a menor chance de sucesso. Quem acompanha a situação no Oriente Médio e tenta compará-la à realidade brasileira — onde parece não haver conciliação possível entre a esquerda petista e a direita bolsonarista — não tem noção do que é uma cisão profunda entre grupos que não têm a mínima condição de coexistir no mesmo espaço.
Tentar fundir o Hamas e o Fatah num único governo nacional é uma ilusão que beira o delírio. São duas máfias políticas concorrentes, com patrocinadores internacionais diferentes (o Irã financia o Hamas; o Ocidente financia a Autoridade Palestina) e visões de mundo incompatíveis. A única coisa que os une é a retórica anti-Israel, mas, na prática, a guerra civil latente entre eles é muito mais real do que qualquer projeto de construção nacional. Aprofundando a análise sociológica, como nos ensina o doutor Kedar, esbarramos na própria gênese da identidade palestina.
A narrativa de um povo palestino ancestral, com raízes milenares e uma identidade nacional coesa, não resiste ao escrutínio histórico e demográfico. A sociedade árabe na região é, fundamentalmente, uma sociedade tribal. A lealdade primária de um indivíduo em Hebron é ao clã Jabari ou Qawasmeh; em Nablus, ao clã Masri. A identidade "palestina" foi, em grande medida, uma construção política reativa, forjada no século XX como ferramenta de oposição ao sionismo, e não como um projeto nacional orgânico.
A prova mais evidente desta construção artificial está nos próprios sobrenomes de muitas famílias palestinas, que revelam as suas origens recentes em outros países árabes. Nomes como Al-Masri (o egípcio), Al-Horani (da Síria), Al-Hijazi (da Arábia Saudita) ou Al-Mughrabi (do Magrebe/Marrocos) contam a história de uma imigração maciça. No final do século XIX e início do século XX, o formidável desenvolvimento econômico, agrícola e infraestrutural gerado pelos pioneiros judeus atraiu dezenas de milhares de trabalhadores árabes de toda a região. Eles vieram em busca de emprego e prosperidade, não para fundar um Estado.
Quando a Autoridade Palestina foi criada nos anos 90, o Ocidente cometeu o erro crasso de importar lideranças estrangeiras para governar essa população tribal. Yasser Arafat, nascido no Cairo, e a sua cúpula da OLP, que vivia exilada em Túnis, foram parachutados na Cisjordânia e em Gaza. Para os clãs locais, eles eram, e continuam a ser, forasteiros corruptos. Mahmoud Abbas, o atual presidente, cujo mandato expirou há mais de uma década, não tem qualquer legitimidade orgânica fora do seu complexo fortificado em Ramallah.
ABOMINAÇÃO INACEITÁVEL — Um Estado construído sobre alicerces tão frágeis, sem coesão tribal e liderado por elites rejeitadas pela própria população, é um Estado falido antes mesmo de nascer. Seria apenas mais um Iraque ou uma Síria, condenado à guerra civil permanente. Há ainda o vetor teológico, que torna a equação da "solução de dois Estados" insolúvel. Para o Ocidente secular, um Estado palestino ao lado de Israel seria o fim do conflito. Para a teologia islâmica radical que domina grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, e que permeia profundamente a sociedade palestina, a própria existência de um Estado judeu soberano em terras consideradas islâmicas (Dar al-Islam) é uma abominação inaceitável.
ABOMINAÇÃO INACEITÁVEL — Um Estado construído sobre alicerces tão frágeis, sem coesão tribal e liderado por elites rejeitadas pela própria população, é um Estado falido antes mesmo de nascer. Seria apenas mais um Iraque ou uma Síria, condenado à guerra civil permanente. Há ainda o vetor teológico, que torna a equação da "solução de dois Estados" insolúvel. Para o Ocidente secular, um Estado palestino ao lado de Israel seria o fim do conflito. Para a teologia islâmica radical que domina grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, e que permeia profundamente a sociedade palestina, a própria existência de um Estado judeu soberano em terras consideradas islâmicas (Dar al-Islam) é uma abominação inaceitável.
Nesta visão de mundo, o judaísmo é uma religião invalidada (Din Batil), e os judeus não têm direito à autodeterminação nacional. Qualquer acordo de paz, qualquer concessão territorial, é visto apenas através da lente da "Paz de Hudaybiyyah" — uma trégua tática e temporária, a ser rompida assim que houver força suficiente para aniquilar o inimigo. Portanto, a criação de um Estado palestino soberano, com controle de fronteiras, espaço aéreo e capacidade de importar armamento pesado, não seria o fim do conflito, mas sim a criação de uma plataforma de lançamento formidável para a próxima guerra de aniquilação contra Israel.
O dia 7 de outubro de 2023, quando o Hamas transformou Gaza numa base militar terrorista para massacrar civis israelenses, foi a prova definitiva e sangrenta de que a soberania, nas mãos erradas, é apenas o prelúdio para o genocídio. A comunidade internacional, presa às suas próprias ilusões e à necessidade de manter viva a indústria bilionária do "processo de paz", recusa-se a aceitar esta realidade. Continua a financiar a Autoridade Palestina, continua a perpetuar a farsa dos refugiados hereditários através da UNRWA — a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos —, e continua a exigir que Israel faça concessões suicidas em nome de um Estado palestino que, sociológica, geográfica e teologicamente, é uma impossibilidade absoluta.
O dia 7 de outubro de 2023, quando o Hamas transformou Gaza numa base militar terrorista para massacrar civis israelenses, foi a prova definitiva e sangrenta de que a soberania, nas mãos erradas, é apenas o prelúdio para o genocídio. A comunidade internacional, presa às suas próprias ilusões e à necessidade de manter viva a indústria bilionária do "processo de paz", recusa-se a aceitar esta realidade. Continua a financiar a Autoridade Palestina, continua a perpetuar a farsa dos refugiados hereditários através da UNRWA — a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos —, e continua a exigir que Israel faça concessões suicidas em nome de um Estado palestino que, sociológica, geográfica e teologicamente, é uma impossibilidade absoluta.
Há um aspecto econômico nesta equação que não pode ser ignorado, especialmente por quem está habituado a analisar a viabilidade de grandes projetos. A Autoridade Palestina e o Hamas operam, na prática, como modelos de negócio baseados na vitimização e na extração de rendas internacionais. Se um Estado palestino soberano fosse efetivamente criado e a paz fosse alcançada, a razão de ser dessas organizações desapareceria da noite para o dia. Os bilhões de dólares em ajuda humanitária, fundos de desenvolvimento europeus e doações de países árabes secariam.
MAPA DAS UTOPIAS — O "processo de paz" tornou-se um fim em si mesmo, uma indústria altamente lucrativa que sustenta burocratas, ONGs e lideranças corruptas que desviam fundos para contas na Suíça ou para a construção de túneis de terror. Para a elite política palestina, a resolução do conflito seria um desastre financeiro. O incentivo estrutural não é para construir um país viável, mas para manter o status quo de conflito latente e dependência crônica. Além disso, a viabilidade econômica de um Estado palestino unindo Gaza e Cisjordânia é nula. Sem a infraestrutura, a tecnologia e o mercado de trabalho israelense, a economia palestina colapsaria em semanas.
MAPA DAS UTOPIAS — O "processo de paz" tornou-se um fim em si mesmo, uma indústria altamente lucrativa que sustenta burocratas, ONGs e lideranças corruptas que desviam fundos para contas na Suíça ou para a construção de túneis de terror. Para a elite política palestina, a resolução do conflito seria um desastre financeiro. O incentivo estrutural não é para construir um país viável, mas para manter o status quo de conflito latente e dependência crônica. Além disso, a viabilidade econômica de um Estado palestino unindo Gaza e Cisjordânia é nula. Sem a infraestrutura, a tecnologia e o mercado de trabalho israelense, a economia palestina colapsaria em semanas.
A dependência de Israel para o fornecimento de água, eletricidade, combustível e arrecadação de impostos alfandegários é total. Um Estado soberano exige autonomia econômica, algo que nem Gaza nem a Cisjordânia possuem ou têm capacidade de desenvolver a curto ou médio prazo, especialmente sob lideranças focadas na guerra e não no desenvolvimento. A ideia de que a simples declaração de independência na ONU transformaria magicamente esses territórios numa economia funcional é de uma ingenuidade atroz. No mundo dos negócios, quando um projeto se revela estruturalmente inviável, com premissas falsas, incentivos perversos e um histórico de fracassos sucessivos, a única decisão racional é cancelar o projeto, assumir as perdas e procurar uma alternativa pragmática.
Na geopolítica do Oriente Médio, a "solução de dois Estados" é esse projeto falido. Tentar unir Gaza e a Cisjordânia num país funcional é como tentar fundir água e azeite por resolução da ONU. A verdadeira paz e estabilidade para as populações árabes da região não virá da criação de mais um Estado artificial e disfuncional, governado por cleptocratas ou terroristas. Virá, como argumentamos no artigo anterior, da descentralização radical. Virá da "Solução dos Emirados", devolvendo o poder aos clãs locais nas cidades-estados da Cisjordânia, respeitando a sociologia orgânica e aceitando a realpolitik da dissuasão.
Enquanto o Ocidente continuar a ler o Oriente Médio com o mapa das suas próprias utopias, o sangue continuará a manchar a areia. É hora de arquivar a ilusão do Estado palestino e começar a lidar com a realidade como ela é: tribal, implacável e imune a resoluções de papel.
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