Publicado 12/07/2026 00:00 | Atualizado 12/07/2026 00:02
A frustração que se espalhou pelo país na semana passada, depois que a derrota para o time da Noruega tirou a Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 2026, trouxe uma discussão que não pode ser adiada. Uma discussão que, além do futebol, se estende a outras situações da vida nacional. O ponto de partida do debate, que além de urgente é necessário, é o seguinte: não é mais possível continuar tentando tapar o sol com a peneira e seguir ignorando que os problemas do país são consequência de uma mania que precisa ser abandonada.
PublicidadeEssa mania é a de se queixar das consequências sem atacar as causas dos problemas. No caso da Copa, a desclassificação não começou aos 34 minutos do segundo tempo da partida, quando Erling Haaland marcou o primeiro gol da Noruega. Ela foi consequência de erros que começaram a ser cometidos anos atrás e que, enquanto não forem corrigidos, seguirão produzindo uma decepção atrás da outra. A verdade é que o futebol do país já não é o mesmo do passado. Ele vem sendo dilapidado pelas trapalhadas e omissões dos cartolas, pelo despreparo dos treinadores, pelo endeusamento prematuro de atletas e por uma série de outros males.
Não é o caso de entrar em detalhes nem de tentar explicar, aqui, o processo que levou à perda de força e de prestígio internacional de uma Seleção que, embora não consiga se impor sobre os adversários, ainda mobiliza a paixão dos brasileiros. Queiram ou não queiram os que criticam o interesse que o futebol sempre despertou em um país que tem problemas muito mais sérios para resolver, a Seleção sempre ajudou a projetar uma imagem positiva do Brasil no mundo.
Nesta Copa, sob comando do italiano Carlo Ancelotti — que tem contrato com a Confederação Brasileira de Futebol até a Copa de 2030 —, o time chegou a dar ao torcedor a esperança de que poderia ter ido mais longe. O que se viu, no final das contas, foi a repetição dos erros de outros Mundiais. E a certeza de que o futebol brasileiro terá de mudar. O primeiro passo na direção de uma nova era depende de reconhecer que as glórias do passado são incapazes de garantir as vitórias do presente.
Uma das lições deixadas por essa Copa é a de que não se entrar sem o preparo adequado numa disputa com adversários bem treinados. Isso significa abrir as portas para a derrota. A verdade incômoda, porém, é que as apostas em soluções improvisadas, baseadas na crença de que, no final das contas, o talento individual é suficiente para remover as dificuldades, são atitudes que não se vê apenas em relação ao futebol. O erro que se comete em relação à Seleção se repete em outros aspectos da vida nacional. Quer um exemplo? Basta olhar para o comportamento da diplomacia brasileira nos últimos tempos.
PROVA DE DESPREPARO — Assim como os jogadores da Seleção, os diplomatas do Itamaraty já estiveram entre os mais respeitados do mundo. Por seu preparo e competência, ajudaram a construir uma imagem positiva do Brasil. E ganharam a fama de se guiar pelos interesses do país — e não pela ideologia do governo no poder.
PROVA DE DESPREPARO — Assim como os jogadores da Seleção, os diplomatas do Itamaraty já estiveram entre os mais respeitados do mundo. Por seu preparo e competência, ajudaram a construir uma imagem positiva do Brasil. E ganharam a fama de se guiar pelos interesses do país — e não pela ideologia do governo no poder.
Assim como acontece com o futebol, a recordação do que a diplomacia já fez pelo país no passado já não é suficiente para garantir bons resultados no presente. A impressão que se tem hoje é a de que os diplomatas brasileiros vivem à margem da realidade e desenvolveram o hábito de se apoiar em realidades fantasiosas para lidar com o ambiente cada vez mais disputado e tenso que hoje cerca a geopolítica e o mercado mundial.
A cada dia fica mais claro que o Brasil não parece à altura dos desafios que enfrenta. Na semana retrasada, por exemplo, num momento em que as atenções do país ainda estavam tomadas pela Copa do Mundo, o Itamaraty deu mais uma demonstração de despreparo. O problema é que a culpa, desta vez, não pode ser atribuída a algum “estagiário”. A pixotada veio de cima. Ela leva a assinatura do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira.
O problema foi a carta do chanceler Mauro Vieira, em resposta a uma consulta oficial feita pelo deputado Evair Vieira de Melo (Rep./ES). O parlamentar formulou questões sobre a posição do Brasil diante da decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A resposta do chanceler foi considerada “precária e frágil” por Vieira de Melo, que já convocou o diplomata para explicar sua posição na Câmara. Sem apresentar um único dado convincente e sem aprofundar um milímetro na análise dos fatos complexos que envolvem a questão, a carta se limita a reproduzir os chavões utilizados pelo governo desde que esse assunto veio à tona.
“A designação pode servir para que autoridades estadunidenses apliquem medidas administrativas e judiciais de caráter unilateral e extraterritorial contra pessoas, empresas ou organizações brasileiras, inclusive contra aquelas sem vínculos diretos com os EUA”, escreveu e assinou o chanceler. “Adicionalmente, tal aplicação pode ocorrer com amplo grau de discricionariedade (...) com sérias possibilidades de implicações para cidadãos brasileiros nos planos financeiro, migratório e penal” prosseguiu. “Finalmente, há a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”.
De acordo com o portal Poder 360, nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gostou do que leu. Na quarta-feira, teria telefonado para o chanceler para expor seu desagrado não só pelo conteúdo da carta, mas, também, pelo fato de o próprio ministro ter assinado um documento que poderia ter sido confiado a um assessor graduado. Vieira não se deu ao trabalho de explicar em que evidências se baseou para atribuir tais intenções aos Estados Unidos. Nem apresentou um único indício dos elementos que reuniu para chegar a tais conclusões.
O chanceler deixou claro, também, que depois da decisão do governo de Washington de classificar as facções como organizações terroristas, o Itamaraty não tomou qualquer providência em relação a isso. Ressalvou, porém, que, por se tratar de um movimento unilateral, o ato “não requer manifestação formal do governo brasileiro”. Mas que, ainda assim, o governo “tem externado sua oposição a essa medida”.
“Esse comentário é absurdo”, disse o Departamento de Estado americano em sua manifestação sobre a carta. “Os Estados Unidos estão tomando medidas decisivas, no âmbito de suas próprias competências soberanas, para combater os narcoterroristas. Essas gangues brasileiras agora atuam nos Estados Unidos, e vamos defender nosso povo contra elas", afirma o órgão.
A decisão de Washington foi, como disse a carta, um ato unilateral — mas quem não quis conversa foi Brasília. O governo brasileiro simplesmente se recusou a tratar do assunto quando ele foi proposto pelos Estados Unidos. No dia 5 de maio de 2025 — pouco mais de um ano antes de o governo americano classificar as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas transnacionais —, uma delegação dos Estados Unidos, chefiada por um diplomata chamado David Gamble, esteve no Brasil para tratar desse assunto.
FALANDO SOZINHO — Ex-militar, Gamble passou a trabalhar no Departamento de Estado depois de se transferir para a reserva. O diplomata é, atualmente, encarregado de Negócios na Embaixada dos Estados Unidos na Malásia — ou seja, o segundo posto mais importante da representação diplomática em um país estratégico para os interesses americanos no Sudeste Asiático. Nessa posição, foi um dos articuladores do encontro entre os presidentes Lula, do Brasil, e dos Estados Unidos, Donald Trump, realizado em Kuala Lumpur no dia 26 de outubro do ano passado — e que marcou a retomada das conversas entre os dois países depois de um longo afastamento.
FALANDO SOZINHO — Ex-militar, Gamble passou a trabalhar no Departamento de Estado depois de se transferir para a reserva. O diplomata é, atualmente, encarregado de Negócios na Embaixada dos Estados Unidos na Malásia — ou seja, o segundo posto mais importante da representação diplomática em um país estratégico para os interesses americanos no Sudeste Asiático. Nessa posição, foi um dos articuladores do encontro entre os presidentes Lula, do Brasil, e dos Estados Unidos, Donald Trump, realizado em Kuala Lumpur no dia 26 de outubro do ano passado — e que marcou a retomada das conversas entre os dois países depois de um longo afastamento.
Quando esteve em Brasília, Gamble respondia interinamente pela Coordenação de Sanções Internacionais do Departamento de Estado. Talvez em razão do posto que ele ocupava naquele momento, a missão foi cercada de especulações. Muita gente suspeitou de que a pauta que ele trazia incluía possíveis sanções contra autoridades brasileiras — num momento em que as tensões entre os dois governos estavam elevadas.
Nada disso. Gamble manteve reuniões com funcionários do Itamaraty e do ministério da Justiça e tentou convencer o Brasil a aceitar o reconhecimento das facções criminosas como Organizações Terroristas transnacionais. Em todos os encontros que teve, ele ficou praticamente falando sozinho. Nenhum de seus interlocutores deu a menor importância ao assunto.
Gamble deixou a porta aberta para prosseguir as tratativas, mas o governo brasileiro não quis saber de conversa. O diplomata ainda nem tinha tomado o avião de volta a Washington quando a ideia foi descartada por Mário Sarrubbo, que na ocasião ocupava a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, durante a claudicante passagem de Ricardo Lewandowski pela pasta.
BANDEIRA ELEITORAL — A resistência brasileira ao diálogo prosseguiu mesmo depois que os Estados Unidos terem dado demonstrações práticas de que pretendiam endurecer o tratamento aos cartéis de drogas, onde quer que eles estivessem. Em setembro de 2025, os Estados Unidos despacharam para o mar do Caribe uma frota de guerra poderosa capitaneada pelo imponente porta-aviões USS Gerald Ford. Em outubro tiveram início os ataques americanos às lanchas velozes, que singravam o Atlântico e o Pacífico carregadas de drogas destinadas ao mercado americano.
BANDEIRA ELEITORAL — A resistência brasileira ao diálogo prosseguiu mesmo depois que os Estados Unidos terem dado demonstrações práticas de que pretendiam endurecer o tratamento aos cartéis de drogas, onde quer que eles estivessem. Em setembro de 2025, os Estados Unidos despacharam para o mar do Caribe uma frota de guerra poderosa capitaneada pelo imponente porta-aviões USS Gerald Ford. Em outubro tiveram início os ataques americanos às lanchas velozes, que singravam o Atlântico e o Pacífico carregadas de drogas destinadas ao mercado americano.
A verdade é que o Brasil, sob governos de esquerda — que venceram cinco das seis eleições presidenciais que houve no país no Século 21 — nada tem de positivo a apresentar em matéria de segurança pública e de combate ao narcotráfico. Pelo contrário. O que se viu foi a expansão e o fortalecimento de facções criminosas. Elas se alastraram, assumiram o controle de grandes extensões de território e impuseram a milhões de brasileiros sua própria autoridade — substituindo o Estado nas áreas sob seu controle.
A questão, no entanto, é que a postura leniente diante da alta bandidagem, que demonstrou ao longo dos três primeiros anos de seu atual mandato, está cobrando um preço elevado à popularidade do presidente Lula. Ainda mais quando se percebe a facilidade com que as facções criminosas mais fortes do país se entranharam nos estados que estão há anos sob administração petista. Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a Bahia e o Ceará, governados pelo PT, ocupam o segundo e o terceiro lugar em matéria de índices de criminalidade, atrás apenas do Amapá — que também é administrado por partidos de esquerda desde o início do século.
Movido, pelo que tudo indica, mais por interesses eleitorais do que por uma preocupação legítima com o combate ao crime, o governo tem demonstrado por esse tema um interesse que não demonstrou nos anos anteriores. Na quarta-feira passada, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, participou na sede das Nações Unidas, em Nova York, de uma conferência que reuniu chefes de polícia do mundo inteiro. Como todo integrante do governo, Rodrigues é crítico da classificação das facções brasileiras como organizações terroristas (até porque, seu cargo estaria em risco se pensasse de forma diferente). Mas, no discurso em portunhol feito na reunião da ONU, ele defendeu a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Na semana passada, ele havia criticado uma decisão do governo americano — que adotou a primeira medida contra brasileiros com base na classificação do PCC como organização terrorista.
Na semana passada, o governo americano divulgou as primeiras sanções contra brasileiros com base na nova classificação dos grupos criminosos. Pela decisão, Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foram acusados de movimentar US$ 30 milhões em recursos do PCC nos Estados Unidos. Sem se importar com o fato de a decisão ter sido tomada com base na legislação americana e estar, portanto, embasada na soberania daquele país, o diretor-geral da PF disse que a sanção aplicada contra a dupla foi “tecnicamente um erro grosseiro” — e insistiu na ideia de que eles não são terroristas. Alguns dias depois, a PF deflagrou uma operação contra os mesmíssimos alvos. Stella Stefanie chegou a ser presa — mas já está na rua, livre, leve e solta, por decisão da Justiça Eleitoral.
A questão é definir o ponto exato em que termina a cooperação defendida pelo diretor-geral da PF e começa a afronta à soberania nacional temida pelo Itamaraty e criticada pelo próprio Palácio do Planalto. Esse assunto poderia ter sido debatido ao longo dos treze longos meses que separam a visita de Gamble e o carimbo de organização terrorista que o Departamento de Estado dos Estados Unidos aplicou nos prontuários do PCC e do CV. A verdade, porém, é que, a despeito de o diálogo entre os dois países ter sido retomado nos últimos meses, as provocações de lado a lado persistiram e alcançaram um ponto que parece agradar ao presidente Lula.
Transformada em bandeira eleitoral pelo presidente Lula, no episódio das tarifas de 40% impostas aos produtos brasileiros importados e retiradas pelo governo dos Estados Unidos no ano passado, e repetidas agora, sob o risco de um novo tarifaço, desta vez de 25% contra o Brasil, a questão da interferência americana tornou-se um assunto recorrente no discurso de Lula. A reação às medidas de Trump parece ter sido a mola que impulsionou a retomada da popularidade do presidente — que estava em queda livre até o momento em que ele passou a reagir de forma enérgica às medidas da Casa Branca.
Na semana passada, o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) participou nos Estados Unidos de uma audiência que tratou da nova fornada de tarifas de 25%, que podem entrar em vigor a partir do próximo dia 15 — ou seja, quarta-feira que vem. Ao contrário de Lula, a quem deverá enfrentar nas eleições presidenciais, o senador defende o alinhamento integral com os Estados Unidos. Esse, provavelmente, será o debate mais incandescente da campanha que escolherá o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos.
Não deixa de ser interessante. Por mais que tenha procurado se manter distante dos Estados Unidos ao longo de seu atual governo e de ter ensaiado a abertura de um diálogo que ficou só na tentativa, Lula se deu conta de que, de certa forma, depende da ajuda de Trump para se reeleger. Isso mesmo. A reeleição do presidente para o quarto mandato, neste momento, depende da capacidade de Lula continuar provocando a Casa Branca à espera de que uma reação mais enfática de Trump justifique a elevação do tom antiamericano do discurso de Lula.
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