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Publicado 09/08/2026 00:00 | Atualizado 09/08/2026 00:06
Entre as críticas cada vez mais ácidas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Brasil têm recebido do presidente da Argentina, Javier Milei, um ponto deve ser levado a sério. Muito a sério. Não porque envolve troca de ofensas entre os governantes, mas porque toca numa questão sensível demais para ser ignorada. Como disse o comunicado de Buenos Aires sobre o rebaixamento das relações entre os dois países, decidida por Brasília, “o Brasil está se isolando do restante da região por razões puramente ideológicas”.
Ninguém precisa gostar de Milei para concordar com o que ele diz. Basta observar os acontecimentos recentes no campo das relações internacionais para constatar as consequências da postura brasileira. O que mais chama atenção nesses episódios é a capacidade que o Itamaraty tem demonstrado de amplificar problemas menores e escolher caminhos errados na hora de lidar com as questões mais sérias.

CORPO MOLE — Na semana passada, como reação às declarações de Milei sobre Lula, o Itamaraty retirou o embaixador do Brasil, Júlio Bitelli., de Buenos Aires e rebaixou a embaixada na Argentina para uma representação de negócios. Como consequência, forçou a saída de Brasília do embaixador argentino, Guillermo Daniel Raimondi.
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Pela importância das relações entre os dois países tanto do ponto de vista econômico quanto geopolítico, isso já seria suficiente para acender o sinal de alerta. Só que a crise não parou por aí. Como reação ao corpo mole que o Brasil vem fazendo para aprovar o nome de Daniel Perez, escolhido pelo presidente Donald Trump para ser embaixador dos Estados Unidos no Brasil, o secretário de Estado Marco Rubio cancelou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiz Viotti.
Pela importância desses dois países, que ocupam a segunda e a terceira posição no ranking das relações comerciais brasileiras, os desentendimentos com os Estados Unidos e a Argentina já teriam força suficiente para render horas de discussão. A postura do Itamaraty na condução dessas questões expõe os erros infantis cometidos por Brasília na condução da política externa. E, como consequência, deixam o país cada vez mais isolado na região. Desde que o governo subordinou todos os seus movimentos à missão de dar mais um mandato a Lula, o Brasil vem sofrendo uma derrota atrás da outra num campo em que costumava a dar lições de eficiência: o da diplomacia.
O pior não está aí. O pior é que, enquanto o Brasil vira as costas para aliados históricos e desafia os Estados Unidos para a briga, armado com argumentos populistas fantasiados de “defesa da soberania” (num discurso cada vez mais parecido com o que levou a Venezuela à ruína), os vizinhos seguem na direção oposta. Eles se unem, firmam alianças e ampliam seu espaço no cenário regional. Quer um exemplo concreto? Vamos a ele!

ACORDO NUCLEAR — Na sexta-feira retrasada, em Washington, o Paraguai assinou com os Estados Unidos um tratado que permitirá a implantação de usinas nucleares no país vizinho. O acordo prevê a transferência de tecnologia para uso científico, agrícola, medicinal e, especialmente, energético. Quem assinou o documento pelos Estados Unidos foi Marco Rubio. Pelo Paraguai, assinou o chanceler Rubem Ramirez Lezcano. No ato da assinatura, também estava presente o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana.
O acordo ampliará a autonomia energética do Paraguai justo no momento em que ele negocia com o Brasil as condições de fornecimento da eletricidade excedente da usina de Itaipu. A energia, como foi dito aqui na semana passada, pertence ao Paraguai, mas é vendida ao Brasil e, incorporada ao Sistema Interligado Nacional, é vital para a segurança energética. O acordo esse que garante o fornecimento vence no dia 31 de dezembro e o Paraguai já deixou claro que cobrará caro pela renovação.
O ponto interessante a ser observado é que horas antes de embarcar para a cerimônia de assinatura do acordo nuclear em Washington, Alliana e Ramirez receberam o embaixador do Brasil em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho. Foram eles que ouviram as explicações de Brasília sobre as declarações de Lula sobre a guerra no Século 19, que praticamente dizimou o Paraguai.
Alliana não se mostrou convencido pela explicação do embaixador, para quem as declarações de Lula foram “tiradas de contexto”. De qualquer forma, não quis alimentar polêmica e deu o assunto por encerrado. Talvez porque soubesse que, nesta altura dos acontecimentos, é mais importante consolidar uma aliança com um parceiro estratégico como os Estados Unidos do que perder tempo transformado em crise institucional as declarações de um presidente que falou mais do que o necessário.
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