Ingrid Guimarães vive dona de salão de beleza em São Gonçalo, em ‘Chapa Quente’

Atriz comemora personagem popular na telinha. 'Estava louca para fazer uma pobre', brinca

Por O Dia

'O nosso país é machista. Uma mulher que tem filho não pode falar loucuras%2C mas o público vai à loucura com o Hassum falando loucuras'Divulgação

Rio - ‘Estava louca para fazer uma pobre.” Depois de representar a cara da riqueza no cinema em ‘De Pernas Pro Ar’ 1 e 2 (2010 e 2012) e ‘Loucas Pra Casar’ (2015), Ingrid Guimarães, 42 anos, sentiu necessidade de virar a página e mostrar um outro lado. A oportunidade veio na TV, em ‘Chapa Quente’, que estreia quinta-feira com a missão de substituir ‘A Grande Família’. No seriado, a atriz é Marlene, dona de um salão de beleza em São Gonçalo.

“Ela é uma heroína politicamente incorreta, diferente de tudo o que já fiz. Bebe, fuma, toma remedinho tarja preta de vez em quando, enfim, não consegue segurar a onda numa boa como a Dona Nenê (Marieta Severo) fazia. Ela é uma mulher contemporânea. Quando não aguenta, toma um gim e depila as clientes meio bêbada (risos)”, diverte-se. Mas a heroína moderna tem lá o seu lado tradicional. “A Marlene ama como uma mocinha. É completamente apaixonada pelo marido, o Genésio (Leandro Hassum), um desempregado profissional”, conta.

Para mergulhar de cabeça no universo da personagem, Ingrid foi conhecer de perto as cabeleireiras de São Gonçalo. “A mulher de lá tem toda uma feminilidade. No salão, as cabeleireiras trabalham de salto alto, com relojão no pulso. Elas também usam bolsas imitando Chanel e Louis Vuitton. Fiquei impressionada com o mercado de São Gonçalo, que é na rua. Lá não tem nada básico. É tudo com muito brilho, muita cor. Até comprei umas capinhas de celular”, revela. Mudar o visual também se tornou uma necessidade para a atriz, que estava com o cabelo louro escuro. “Eu pintei pra caramba, mas não ficou igual ao das moças de São Gonçalo. O louro que elas usam é amarelo-ovo. Aí não dá para viver. Como encontrar o marido à noite com um louro-ovo na cabeça? Também botei aplique, porque a coisa do cabelo comprido lá é muito significativa, como a chapinha e a unha grande”, observa.

‘Chapa Quente’ tem a função de fazer rir, mas sem deixar de ir além da graça. “O seriado é um retrato de uma parte do Brasil, do subúrbio, onde as pessoas vivem no calor, na chapa quente. E isso faz com que as emoções sejam à flor da pele. É um Brasil de gente batalhadora, raladora, da mulher que é dona do próprio negócio, que manda nos homens. É um programa que fala de amor, tráfico, polícia, da mulher pegadora, do gay, da dona do bar que quer roubar o marido da outra. ‘Chapa Quente’ é o espelho de uma parcela significativa da sociedade”, diz, complementando:

“As pessoas querem se sentir representadas. Quando eu fui em São Gonçalo, percebi que os moradores de lá se sentem à margem do Rio de Janeiro. Mas quem trabalha para a gente, que está do lado da gente todo dia, são pessoas que moram lá, que demoram duas horas para chegar na casa delas. Não é um programa só para rir. O ‘Chapa Quente’ fala de tudo um pouco. É um humor de situação, de identificação”, afirma. 

MACHISMO NO HUMOR

Campeã de bilheteria no cinema, Ingrid conhece bem o terreno onde está pisando na TV, embora, desta vez, dê vida a uma mulher do povo. “Eu me sinto muito responsável por representar a mulher de hoje. Acho que o grande sucesso do ‘De Pernas Pro Ar’ e do ‘Loucas Pra Casar’ é mostrar a mulher contemporânea, que ama trabalhar, mas tem dificuldade em conciliar filho e marido. E a mulher, por mais bem-sucedida que seja, ainda carrega o sonho do casamento. Sinto que as mulheres se identificam comigo e acredito que não vai ser diferente com a Helena, do ‘Chapa Quente’”, aposta.

O fato de ter uma carreira bem-sucedida não impede que Ingrid reconheça o preconceito que ronda as comediantes. “O nosso país é machista. Eu, que já fiz várias protagonistas de filme, muitas vezes pedi para colocarem uma cena do que as mulheres falam com as amigas na mesa. Só que não rola, porque a família brasileira pode se assustar com o que a gente fala entre amigas. Uma mulher que tem filho não pode falar loucuras, mas o público vai à loucura com o Hassum falando loucuras. É difícil ser a mocinha engraçada e, ao mesmo tempo, a heroína. A mulher contemporânea tem que poder dizer: ‘Eu também gozo, tá?’ Quanto mais o humor for libertador, melhor.”

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