Rio - A falta de socorro ao fotógrafo Luiz Marigo, 63 anos, que teve uma parada cardíaca em frente ao Instituto Nacional de Cardiologia (INC), em Laranjeiras, não é, necessariamente, resultado da carência de profissionais da Saúde. Todo mês, o INC paga a 42 médicos o chamado Adicional por Plantão Hospitalar (APH) — um bônus, além dos salários, para que médicos e enfermeiros deem expediente extra nesses hospitais.
Em média, o Ministério da Saúde desembolsa R$ 500 mil por mês só com os funcionários do INC. Mas o remédio tem efeitos colaterais. Um dos médicos beneficiado com o adicional no INC não tem sequer tempo disponível na agenda. O cirurgião Denoel Marcelino de Oliveira trabalha em seis hospitais, segundo o cadastro do Ministério da Saúde, com um total de 84 horas por semana — uma média de 12 horas por dia nos sete dias da semana. E conseguiu tempo para fazer dois plantões de 12 horas semanais em março e mais dois, em abril.
Cerca de 200 parentes e amigos se despediram%2C ontem%2C de Luiz Marigo no cemitério de São João Batista%2C em Botafogo%3A clima de revoltaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Pelas regras do Ministério da Saúde, Oliveira não deveria ser escalado. Ele, que tem vários vínculos de trabalho, ultrapassa — e muito — o teto de 60 horas semanais, o máximo permitido para o profissional da Saúde. O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) e a Polícia Civil vão investigar a morte do fotógrafo. Segundo o delegado Roberto Nunes, da 9ª DP, se ficar constatado que houve negligência, os médicos do hospital poderão ser indiciados por homicídio. O titular da delegacia disse que vai aguardar o resultado da perícia. Plantonistas da unidade vão depor.

A direção do Instituto de Cardiologia garante que os médicos e profissionais da Saúde não estão em greve. Já o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência Social (Sindsprev-RJ) assegura que os nove hospitais da rede federal no Rio funcionam com a capacidade reduzida e atendem somente os casos de emergência ou de tratamento contínuo.
Em nota, o INC informou que “não foi realizada a remoção imediata da vítima, pois, de acordo com o protocolo de reanimação cardíaca, não é recomendável a mobilização do paciente”. Acrescentou que, apesar de ter emergência, deixou a postos uma equipe de médicos e um leito. Técnicos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) tentaram reanimá-lo, em vão. O advogado João Tancredo explicou que cabe ao médico defender a integridade do paciente. “Trata-se de omissão de socorro. A família tem o direito de mover ação cível contra o chefe de equipe do hospital, a União e a empresa de vigilância”, afirmou.
Gosto por capturar imagens de espécie animada
Em seu site profissional, Luiz Cláudio Marigo escreve sobre o gosto de capturar a imagem de espécies difíceis ou ameaçadas. “Gosto da dificuldade e do desafio e também porque sinto-me, como membro da raça humana, responsável por sua sobrevivência”. Foi com essa preferência que, em mais de 30 anos, angariou prestígio com fotos sobre a natureza e que lhe valeram dois prêmios Jabuti, o mais importante da literatura brasileira: com “Jardins e Riachinhos”, com texto de Guimarães Rosa (1983); e com “Fotografias da Natureza” (2010).
Entre seus grandes orgulhos estava o álbum sobre animais silvestres brasileiros do Chocolate Surpresa da Nestlé, com que ele disse ter influenciado os jovens. Também assinou trabalhos para a “National Geographic” e mais 17 edições internacionais de renome, como a “Birds International” (Austrália), a “BBC Wildlife” (Inglaterra) e a “Sinra” (Japão).
Luiz Cláudio Marigo%2C de 63 anos%2C era fotógrafo especializado em natureza. Ele morreu na segunda-feira após sofrer um infarto e não ser socorrido no INC%2C em LaranjeirasReprodução Facebook

Autor de 11 livros, participou ainda da elaboração de 14 outras edições no exterior, além de expor em redutos culturais importantes, entre eles o Museu de Arte de São Paulo e o Köpenhagen Town Hall, na Dinamarca. Expôs ainda em Nova York, Londres e Bonn. E foi premiado em vários concursos internacionais. Em 1990, participou da criação da Reserva Mamirauá, no Amazonas, a primeira de desenvolvimento sustentável no país.

Agradecimento do filho da vítima emociona motorista
Ontem, o motorista da linha 422 Amarildo Gomes recebeu uma ligação emocionante. Era Vitor Marigo, filho do fotógrafo. Vitor agradeceu ao motorista por socorrer seu pai. “Ele (o Vitor) falou que eu tive atitude heroica”, contou Amarildo, que recebeu apoio de colegas da empresa. “Não imaginei tanta repercussão. Fiz o que deveria fazer.” Na manhã de segunda-feira, ele fazia a primeira viagem quando o fotógrafo passou mal no ônibus. “Gritei para ele ir para o hospital e ele foi correndo”, contou o cobrador Reginaldo Gomes, 59 anos.
Motorista Amarildo já socorreu outros passageiros em seu ônibusAlessandro Costa / Agência O Dia

“Fomos avisados que a unidade não atendia emergência e para chamarem o Samu. Uma ambulância chegou e paramédicos fizeram primeiros socorros. Quando o Samu chegou, fizeram massagem e a respiração voltou. Depois ele não respondeu mais”, disse o motorista. Segundo o cobrador, quando o hospital mandou entrar, o bombeiro disse que estava morto.

Nos 31 anos de profissão, Amarildo já ajudou outros passageiros. Quando trabalhava na linha 650 (Marechal Hermes-Engenho Novo), há oito anos, o motorista mudou o itinerário para levar ao hospital um idoso que vomitava sangue. Amarildo mora em Cascadura, é casado e tem três filhos. A família depende de hospital público. “Minha esposa tenta há meses uma ressonância magnética. Tive que pagar para fazer lavagem no ouvido. Infelizmente a realidade da Saúde Pública é essa.”

Família e amigos se revoltam
Em clima de comoção, cerca de 200 pessoas, entre amigos e familiares, se reuniram ontem no Cemitério São João Batista, em Botafogo, para se despedir de Marigo. A viúva, Cecília Banhara Marigo, 69, disse que a família pretende mover ação contra o INC pela suposta recusa no atendimento.“O hospital foi negligente. Não sei se teria sido salvo, mas nenhum médico do instituto olhou para ele”, desabafou ela, que passou pela unidade na hora do acidente sem saber que se tratava do marido.
Cobrador Reinaldo%3A ‘Gritei para ele ir para o hospital e ele foi correndo’Alessandro Costa / Agência O Dia

“Ele fez muito pela sociedade, defendendo a preservação da natureza, e quando precisou foi ignorado”, disse o filho Vitor Marigo, 30. O humorista Hélio de La Peña lembrou que o amigo era engajado em causas sociais. “Essa morte absurda é a sua última batalha: o descaso com a vida em um hospital de referência”. Ex-procurador de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o jurista Antônio Carlos Biscaia afirmou que foi inadmissível e absurda a falta de atendimento médico ao fotógrafo Luiz Cláudio Marigo. “É preciso que haja rigor na apuração, até para saber se houve dolo eventual na recusa do atendimento”, analisou.