
O sorriso largo da foto ao lado e o carinhoso beijo do tenor francês Albert Lance retratavam a triunfante volta por cima de Maria D'Apparecida. A cantora lírica carioca nascera Maria de Aparecida Marques em 1935 e, até se firmar na difícil e excludente música erudita, enfrentou o racismo sem jamais desistir de seu sonho. D'Apparecida retornava ao Brasil em agosto de 1965 para a montagem da ópera 'Carmen', de Bizet. Eram tantas as expectativas e os elogios que o Theatro Municipal teve de programar uma apresentação extra. Os ingressos se evaporaram em questão de horas.
Maria foi criada na Tijuca, por uma família que a adotou. Professora formada no tradicional Instituto de Educação, chegou a lecionar em uma escola pública na Pavuna e ainda trabalhou como modelo e locutora de rádio, funções 'toleradas' para uma jovem negra na segunda metade do século 20. Mas o desejo de cantar era maior. Maria se formou no Conservatório Brasileiro de Música do Rio, apesar de ouvir de muitos que uma negra não poderia ser cantora de ópera do Municipal.
Foi aí que começou a metamorfose de Maria em D'Apparecida. A mezzo-soprano foi em 1961 para a França, onde adotou o nome artístico pomposo que, no entanto, não lhe tirou o amor pela cultura brasileira e ajudou a moldar seu repertório.
Lá fora, cantou eruditos brasileiros como Villa-Lobos e Ernani Braga. Com o disco 'Chants Brésiliens', com participação do músico Turíbio Santos, conquistou em 1967 o prêmio Orfeu de Ouro da Academia Nacional de Disco Lírico de Paris. Também foi condecorada com a Medalha da Legião de Honra, entregue pelo presidente François Mitterrand.
O jornalista Henrique Marques Porto tinha 15 anos naquele 1965 e estava na plateia com o pai, Marques Porto, então crítico de música do DIA. "Era um desafio, e ela fez uma Carmen absolutamente original, uma Carmen negra, com a sensualidade da mulher carioca", lembra.








