Livro traz o relato de mulheres que perderam seus filhos para violência policial

Da dor a luta: Mães criaram o movimento em busca de justiça

Por O Dia

Rio - Elas ressignificaram a dor e transformaram suas vidas em batalha diária para que outras mães e famílias não chorem a perda de seus filhos. Dessa trajetória nasceu o livro ‘Mães em Luta: 10 Anos dos Crimes de Maio de 2006’, organizado por André Caramante, da Ponte Jornalismo, com prefácio de Eliane Brum e lançamento previsto para novembro.

Débora Maria (primeira da fila) criou o Movimento Mães de MaioLuiza Sansão

O livro conta a história dos crimes de maio de 2006, em São Paulo, e traz 15 perfis de vítimas da violência policial: 13 mães, uma irmã e uma tia de jovens assassinados. “São as histórias dessas mulheres fortes, guerreiras, e com grande capacidade de transformar algo tão devastador em combustível para lutar. Unimos essa atitude delas com algo muito forte no jornalismo que praticamos na Ponte: fazer com que a voz de uma cidadã ou cidadão comum tenha a mesma importância do que a de um governo, qualquer governo”, conta André, um dos fundadores da Ponte, um canal de informações sobre segurança pública, justiça e direitos humanos, formada por um grupo de jornalistas.

Ele esclarece que o livro também é um alerta sobre os altos índices de letalidade da polícia brasileira, em especial sobre a Polícia Militar de São Paulo. “Entre julho de 1995 e julho de 2016, PMs mataram 12 mil pessoas no estado. Tudo isso de maneira selecionada, tendo como foco regiões menos favorecidas do estado”.

André acredita que elas conseguem lutar porque arrancaram delas o que uma mãe tem de mais importante: um filho. “As histórias dessas mulheres servem de combustível para que ninguém fique de joelhos diante da violência do estado e de seu braço armado”.

Capa do livro ‘Mães em Luta’ Divulgação

Débora Maria da Silva criou e coordena o Movimento Mães de Maio depois da morte do filho, Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos. “Luto pelo que sonho, sempre fui assim. Mas sou impotente pela perda do meu filho”, diz, emocionada, em depoimento ao documentário sobre o movimento. Ela conta que o filho foi abordado num posto de gasolina por duas viaturas da PM e espancado. “A ação da polícia foi uma das maiores covardias já cometidas contra jovens da periferia, e meu filho foi um deles”.

A iniciativa de Débora se transformou também num movimento social de combate aos crimes deste tipo. “Não quero que outras mães passem pelo que passei. Luto por vidas. Alcançamos muitos objetivos, mas este é o começo de um legado que levo para o túmulo”. 

No dia 12 de maio de 2006, véspera do fim de semana do Dia das Mães, presídios paulistas passaram a registrar dezenas de rebeliões. Foram assassinadas em 30 dias mais de 500 pessoas — 59 agentes do estado e 505 civis —, em decorrência das respostas dos agentes das forças de segurança aos ataques de uma facção criminosa.

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