
Brasília - O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu, nesta quinta-feira, a necessidade de mudanças na estrutura diplomática brasileira. Segundo ele, é necessário reestruturar o órgão para que continue a ser “um sustentáculo” do país. A afirmação ocorreu durante a cerimônia em que o novo secretário-geral do Itamaraty, o diplomata Otávio Brandelli, foi empossado no cargo.
"Assim como eu, Otávio [Brandelli] é alguém que ama esta instituição e que, por isso mesmo, sente que devemos mudar algumas coisas para que o Itamaraty continue sendo um sustentáculo deste edifício que estamos construindo no Brasil", disse o chanceler, que viaja ainda hoje para Lima, no Peru.
Araújo disse estar convencido de participar da "construção de algo novo" no país. "[Diante da] política externa que queremos implementar, temos que ter esta mentalidade de que estamos construindo algo e não simplesmente administrando. E de que este edifício que estamos construindo faz parte de algo maior, coeso", acrescentou Araújo.
Sobre Brandelli, com quem serviu em Bruxelas, o ministro disse ser um "dos diplomatas mais competentes de qualquer geração. Um gestor brilhante".
Mudanças
Ao discursar, Brandelli também comentou a necessidade de mudanças. Atribuindo ao posto de secretário-geral a atribuição de "manter a tradição" da pasta, ele assegurou que não vai se apegar à defesa da tradição como forma de dificultar as inovações de que a pasta precisa.
"Jamais interpretarei a defesa da tradição como um apelo cego ao passado. Tampouco como uma justificativa vã para o imobilismo diante dos nossos desafios", disse Brandelli. "O povo brasileiro falou nas urnas que quer mudanças, e dedicarei todo esforço para promover e implementar estas mudanças conforme as orientações.”
Como secretário-geral, Brandelli será o principal assessor do chanceler e também será responsável por parte das questões administrativas.
Responsável pela administração da máquina do Itamaraty, Brandelli afirmou que dará "atenção prioritária" a um problema que aflige o corpo diplomático: o fluxo de carreira. Brandelli admitiu que esse problema "aflige" seus colegas e prometeu mudanças para "preservar a capacidade do ministério de recrutar e manter os melhores quadros do Brasil."
Hoje, o Itamaraty convive com um inchaço nos níveis hierárquicos mais baixos, gerado pelo grande número de contratações feitas durante a gestão de Celso Amorim no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Em alguns anos, foram contratados por meio de concurso até 200 diplomatas em um único ano. Atualmente, o fluxo é de 30 pessoas por ano. Os funcionários que ingressaram no período de Amorim convivem com a falta de perspectiva de ascensão na carreira. A hierarquia da pasta tem um formato de "funil", e não há espaço para promover todos.
Numa referência ao discurso de Araújo feito na véspera, ele disse que a busca do conhecimento e da verdade passa pelo reconhecimento das dificuldades no serviço exterior. Ele prometeu valorizar não só os diplomatas, mas também os demais funcionários que atuam no Itamaraty. Citou como exemplo os funcionários terceirizados da lanchonete, que ele viu almoçando sentados no chão. "Acho indigno."
Com Estadão Conteúdo e Agência Brasil






