Mulheres relatam abuso de fotógrafo: 'Roupas iam saindo e ele ia passando a mão'

Mais de 90 relatos foram compartilhados no Instagram e revelam casos de assédio e constrangimento antes, durante e após ao ensaio fotográfico

Por Claudia Ratti, do IG

Anny Alves criou o perfil no Instagram que reúne relatos de assédio e abuso cometidos pelo fotógrafo Cesar Acosta
Anny Alves criou o perfil no Instagram que reúne relatos de assédio e abuso cometidos pelo fotógrafo Cesar Acosta -
São Paulo - No início de junho, a designer de moda Anny Alves, 24 anos, usou seu perfil no Instagram para relatar o abuso que sofreu durante um ensaio em Florianópolis, Santa Catarina. Segundo a jovem, Cesar Oliveira Acosta pediu imagens dela de biquíni antes de fazer as fotos, tocou em seu corpo de forma invasiva durante a sessão e, depois, fez convites para que tivessem encontros íntimos.

pós o desabafo, dezenas de mulheres procuraram Anny e também relataram que foram assediadas e abusadas pelo fotógrafo. No dia seguinte, a designer criou uma conta na rede social (@cesaroliveiraa_denuncia) com o intuito de tornar os relatos de abuso público e alertar sobre a postura do fotógrafo.

O perfil é descrito como um espaço para “expor relatos de garotas que foram assediadas e constrangidas pelo fotógrafo Cesar Oliveira Acosta”. Até o momento, mais de 90 relatos foram publicados e mais de 17,3 mil pessoas seguem a conta.

Além do que já foi publicado, Isadora Tavares, advogada de Anny, fala ao Delas que mais de 200 mensagens foram enviadas ao perfil do Instagram com denúncias e acusações à postura do fotógrafo antes, durante e após o ensaio fotográfico.

"Roupas iam saindo e ele ia passando a mão"
Apesar dos inúmeros relatos, as situações descritas na rede social pelas mulheres são semelhantes. Quase todos os casos mostram assédio , humilhação e constrangimento. São clientes que relatam sentimentos de humilhação, vergonha e nojo do que viveram durante a sessão de fotos.

Algumas contam que foram tocadas e expostas a situações sem o consentimento. “Me senti violentada pelo Cesar também. Me senti mal de ter fotografado com ele, ele ficava querendo me tocar na hora das fotos”, escreve uma mulher. “Eu me senti mega mal. Ele tentou botar a mão na minha parte íntima”, completa.

Duas amigas foram fazer o ensaio fotográfico com o mesmo profissional e passaram por situações parecidas. “As roupas iam saindo e ele ia passando a mão, enfiando o dedo, pedindo poses para eu e a minha amiga fazermos. E bateu foto de tudo. Nunca me senti tão humilhada”, relatou uma delas, também no perfil do Instagram.

Outras ainda falam sobre a insistência do fotógrafo para que elas tirassem a roupa, mostrassem partes íntimas e até que beijassem outras mulheres – coisas que não haviam sido combinadas previamente. Além disso, algumas mulheres acusaram Cesar de publicar fotos sem o consentimento e de insinuar que gostaria de ter relações com elas.
Um ponto em comum é que muitas mulheres demoraram a reconhecer e admitir que sofreram abuso. Anny, por exemplo, levou algumas semanas para conseguir falar sobre o assunto e torná-lo público.

“Ela levou um tempo para processar que o que tinha acontecido foi assédio e não um carinho dele. A gente sempre tenta amenizar a conduta do agressor e justificar o comportamento dele nos culpando”, fala a advogada da designer ao Delas.

Na segunda-feira, Anny fez um boletim de ocorrência e formalizou a denúncia contra Cesar. “Estamos no aguardo dos oficiais de justiça citarem as outras testemunhas, outras vítimas e o próprio agressor. Para aí então ser encaminhado para o delegado e ele determinar a tipificação penal que vai ser enquadrada a conduta do agressor”, explica Isadora Tavares.

Isadora encoraja as outras mulheres a fazerem a denúncia, já que apenas o boletim de ocorrência feito pela designer não é capaz de abarcar todas as acusações.

Para fazer a denúncia é importante reunir provas contra o fotógrafo, como printscreen de conversas. Então, levar até uma delegacia – se possível, Delegacia de Defesa da Mulher – e fazer o boletim de ocorrência. Dessa forma, o processo legal terá continuidade.

Fotógrafo admite que fez "coisas extremamente horríveis"
No dia 13 de junho, Cesar Acosta publicou um vídeo em seu perfil no Instagram pedindo desculpas e admitindo algumas acusações. "Queria começar esse vídeo pedindo desculpas para todos vocês que de alguma maneira eu machuquei com as minhas palavras ou atitudes”, diz o fotógrafo no vídeo intitulado “Minhas desculpas”.

“Tive atitudes que não deveria ter tido, inclusive cheguei a pedir nudes de meninas antes do ensaio, eu fiz isso sim. [...] Falei coisas extremamente horríveis e como eu recebia uma resposta positiva, entre aspas, eu achava que estava tudo bem”, continua.

Cesar diz que a intenção do vídeo não é justificar suas atitudes ou desmerecer a dor das mulheres. No entanto, comenta que está sendo muito pesado lidar com a situação. No dia seguinte da publicação, o fotógrafo apagou o vídeo e bloqueou os três perfis que tinha na rede social e somavam mais de 221 mil seguidores.

No dia 13 de junho, Cesar Acosta publicou um vídeo em seu perfil no Instagram pedindo desculpas e admitindo algumas acusações. "Queria começar esse vídeo pedindo desculpas para todos vocês que de alguma maneira eu machuquei com as minhas palavras ou atitudes”, diz o fotógrafo no vídeo intitulado “Minhas desculpas”.

“Tive atitudes que não deveria ter tido, inclusive cheguei a pedir nudes de meninas antes do ensaio, eu fiz isso sim. [...] Falei coisas extremamente horríveis e como eu recebia uma resposta positiva, entre aspas, eu achava que estava tudo bem”, continua.

Cesar diz que a intenção do vídeo não é justificar suas atitudes ou desmerecer a dor das mulheres. No entanto, comenta que está sendo muito pesado lidar com a situação. No dia seguinte da publicação, o fotógrafo apagou o vídeo e bloqueou os três perfis que tinha na rede social e somavam mais de 221 mil seguidores.

Como realmente funciona um ensaio?
De tempos em tempos relatos contra fotógrafos são compartilhados nas redes sociais. No entanto, comportamentos como esses não devem ser associados à sessão de foto. Ao Delas , a fotógrafa da Naked Fotografia Michelle Moll explica que o trabalho deve ser ético e respeitoso como qualquer outro. “Em nenhum outro trabalho, em nenhuma outra área, você pega na pessoa sem a permissão, sem o mínimo de cuidado”, fala.

A profissional explica que quando é preciso arrumar o sutiã ou a calcinha, por exemplo, ela pede para a própria cliente fazer isso. Mesmo para ajudar a modelo posar de uma forma que fique mais interessante para a foto, o contato acontece somente após o consentimento.

Em relação às fotos pedidas por Cesar antes do ensaio. Michelle, que é fotógrafa há 20 anos e está na área do ensaio boudoir há oito, diz que é “surreal”. “Isso não interfere em nada no ensaio. A fotografia é técnica. É um trabalho como qualquer outro”, explica. Segundo ela, no máximo pede as medidas da modelo para fazer a produção de moda.

Ela ainda reforça sobre a importância de a modelo fazer apenas fotos que se sente confortável. “Ela só pode e deve fazer o que se sentir à vontade, porque isso é o que torna a foto mais bonita. Não é comum em um ensaio que o fotógrafo dirija e fale que você deve fazer tudo o que ele está falando. Não, você deve fazer o que te deixa à vontade”, afirma.

A fotógrafa também explica que conversas íntimas não são necessárias para a mulher “se soltar”. “Como disse antes, a fotografia é técnica. Não tem nada a ver com criar clima e precisar falar sobre certos assuntos para fazer a foto”, diz.

O abuso sofrido por Anny e outras mulheres durante o ensaio não foi o primeiro e nem será o último. No entanto, é possível tomar alguns cuidados na hora de escolher o profissional. Uma dica da Michelle é conhecer o profissional antes de fechar a sessão de fotos, além de conversar com outras mulheres que já fotografaram com ele. Também é fundamental ter consciência de que você só deve posar como se sentir confortável.

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