Por Thuany Dossares e Lucas Cardoso
Publicado 02/04/2021 06:00
O objetivo era buscar uma rede de apoio para ter com quem dividir os momentos difíceis, mas o retorno acabou sendo cair em um golpe financeiro. Nas redes sociais, milhares de mulheres ao redor do Brasil e do mundo têm dividido a frustrante experiência de terem pago R$ 5 mil para entrar nos grupos Tear dos Sonhos e Mandala da Prosperidade. Acreditando que encontrariam acolhimento e o investimento multiplicado por oito, elas acabaram sendo vítimas de estelionatárias que se aproveitam da fragilidade de mulheres com discursos feministas, e não veem seu dinheiro de volta. 

O DIA teve acesso a gravação de uma das reuniões, feita através de uma live no Facebook, onde as guardiãs, como são chamadas as suspeitas, fazem o primeiro contato com uma faísca, que é a mulher que está interessada em integrar a mandala. Caso se sinta atraída e queira receber a prometida cura espiritual, a vítima precisa pagar R$ 5 mil, e automaticamente se torna o elemento fogo, de iniciação. O ciclo é dividido em quatro etapas: fogo, ar, terra e água. Em cada uma delas, é determinada uma função.

A expectativa é que no último elemento, o dinheiro retorno e comece a ser multiplicado. Entretanto, o relato de mulheres que moram em São Paulo, Minas Gerais, Bahia e, até na Nova Zelândia, mostram que a realidade não é essa.

"A gente acha que é esperta e que nunca vai cair no golpe, mas dependendo da roupagem, fica muito fácil. Tem todo um apelo nessa primeira reunião, elas te escutam para perceber onde é o seu ponto fraco e aí poderem dizer que vão conseguir te entregar o que você espera lá no grupo. Elas jogam um xaveco, e com o psicológico abalado, a gente acaba caindo", falou uma biomédica, de 32 anos.

Ela, que prefere não se identificar, mora em São Paulo e conta que caiu no golpe no início de 2019, logo após o marido enfrentar um câncer. Inicialmente, a biomédica procurava por grupos de mulheres que fazem um trabalho terapêutico chamado 'consagrado feminino', e que após encontrar, foi convidada para conhecer o Tear dos Sonhos.

"Meu caso era depressão, solidão, eu me sentia sozinha, não focava só no dinheiro. Eu estava exausta, passei um ano morando em hospital, engordei 10 quilos. Voltei para casa me sentindo sobrecarregada, tendo que cuidar de tudo, porque nossos familiares moram longe e meu marido, com a imunidade muito baixa, não podia receber visitas. Encontrei uma terapeuta que parecia ser maravilhosa, muito espiritualizada, e quando você participa do grupo da mulher, você é convidada a ir para o Tear. É aí que elas se juntam, as guardiãs, que são quem está no topo da pirâmide e é só quem ganha dinheiro com isso", narrou a vítima. 
Crime financeiro e contra os ideais feministas, segundo especialistas 

A advogada Juliana Siqueira, especialista em direito econômico e financeiro, explica que esquemas financeiros de pirâmide são proibidos no Brasil. "Além de ser pirâmide, é estelionato. A pessoa sem caráter, usa técnicas de persuasão para pegar informações pessoais suas e usá-las em forma de ganho próprio. Elas criam laços com fragilidades em comum e usam para cometer crimes", esclarece. 

Para Adriana Mota, ativista da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB Rio), além da prática de estelionato financeiro, conhecida no Código Penal, há também uma espécie de estelionato ideológico.

"Elas usurpam princípios muito caros ao feminismo, como a sororidade, o apoio entre as mulheres, a necessidade da gente apoiar financeiramente a vida de mulheres que estão passando por necessidade. Além da própria questão do empoderamento feminino de mulheres serem autônomas e cuidarem de suas próprias vidas, podendo ter autonomia financeira e se libertar de ciclos de relacionamentos abusivos", lamentou.

A ativista alerta que grupos sérios de apoio à mulheres não exigem nenhum tipo de cobrança. "As mulheres podem consultar grupos feministas, para ver que essas propostas são equivocadas, porque todas nós já estamos sabendo desse golpe. Também estamos organizando uma forma de protestar junto à justiça, para que os responsáveis sejam penalizados. Nenhum grupo feminista cobra para que as mulheres participem, não exigimos nenhum tipo de depósito. Se algum cobra, desconfie e se for o caso, faça a denúncia, porque isso é crime", finalizou.
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As mulheres no Rio de Janeiro que foram lesadas por esses grupos de esquema de pirâmide podem procurar o Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Rio, e denunciar o caso na Delegacia de Defraudações, na Cidade da Polícia, ou na distrital mais próxima.  
Esquemas de pirâmide não são novidade
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Relação abusiva
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