Publicado 06/09/2026 05:00
Rio- Tem gente que liga para a mãe quando a vida aperta. Tem gente que marca uma sessão com o terapeuta. E tem gente que abre o celular e desabafa com a inteligência artificial. Foi observando esse comportamento cada vez mais comum que Natália Régia criou TerapIA, comédia solo que aborda a relação entre a saúde mental, a tecnologia e a busca por respostas para questões que nem sempre têm soluções rápidas.
PublicidadeEm cartaz no Teatro Café Pequeno, no Leblon, o espetáculo acompanha uma atriz-personagem que recorre ao ChatGPT para falar sobre amor, sucesso profissional, propósito e outras questões pessoais. As conversas com a IA acabam revelando inseguranças, angústias e situações absurdas que dão o tom da comédia.
A ideia nasceu de uma experiência da própria atriz. Natália conta que começou a recorrer à inteligência artificial durante o processo criativo, até perceber que o uso havia ultrapassado esse limite. "Eu fui percebendo que no meu processo criativo eu pedia muito a opinião da IA e gostava do que ela me trazia. De repente o raio disso foi aumentando para questões pessoais, e à medida que ela ia falando eu percebi que estava começando a ficar dependente da validação dela", explica.
Ao conversar com amigos, ela descobriu que o comportamento não era tão particular quanto imaginava. A partir daí, passou a pesquisar a relação dos brasileiros com a tecnologia como ferramenta de suporte emocional. "Como eu gosto muito de falar sobre saúde mental, aquilo foi mexendo muito comigo e me dando necessidade de falar sobre", conta.
A própria relação de Natália com a terapia também virou matéria-prima para o monólogo. A atriz brinca que é uma "sommelier de terapia" por já ter experimentado diferentes abordagens ao longo da vida. Essa relação, segundo ela, vem da necessidade de se entender melhor. "Preciso sempre me conhecer muito pra saber agir com coerência sendo eu mesma. E isso é muito difícil!", afirma.
Para Natália, a dificuldade também está na pressão constante para se encaixar nas expectativas externas. "Tem gente e situações querendo que você se encaixe e vire outra coisa e isso gera muito sofrimento." Foi dessa inquietação que surgiu uma das questões de TerapIA: a busca quase desesperada por compreender a si mesmo e, agora, a possibilidade de procurar respostas conversando com uma inteligência artificial.
Ao conversar com amigos, ela descobriu que o comportamento não era tão particular quanto imaginava. A partir daí, passou a pesquisar a relação dos brasileiros com a tecnologia como ferramenta de suporte emocional. "Como eu gosto muito de falar sobre saúde mental, aquilo foi mexendo muito comigo e me dando necessidade de falar sobre", conta.
A própria relação de Natália com a terapia também virou matéria-prima para o monólogo. A atriz brinca que é uma "sommelier de terapia" por já ter experimentado diferentes abordagens ao longo da vida. Essa relação, segundo ela, vem da necessidade de se entender melhor. "Preciso sempre me conhecer muito pra saber agir com coerência sendo eu mesma. E isso é muito difícil!", afirma.
Para Natália, a dificuldade também está na pressão constante para se encaixar nas expectativas externas. "Tem gente e situações querendo que você se encaixe e vire outra coisa e isso gera muito sofrimento." Foi dessa inquietação que surgiu uma das questões de TerapIA: a busca quase desesperada por compreender a si mesmo e, agora, a possibilidade de procurar respostas conversando com uma inteligência artificial.
No espetáculo, experiências pessoais servem como ponto de partida para discutir questões mais amplas. "Quando a experiência pessoal vira dramaturgia, ela deixa de ser só sua. Ela ganha outras camadas e encontra a experiência e subjetividade de quem está assistindo", explica. "Em TerapIA, parto de algumas questões pessoais e de observações minhas, mas a intenção não é fazer uma terapia pública."
Humor para olhar para as próprias contradições
Para Natália, o humor é uma forma de olhar para questões que fazem parte da experiência humana. "Eu transformo em piada enquanto eu estou elaborando. Não existe o depois. Já é uma forma de agir. É meio automático", diz.
Nesse processo, ela também aprendeu a rir das próprias contradições. "Posso ser a mulher que fala de terapia e, ao mesmo tempo, continua cometendo os mesmos erros. Posso dar conselhos incríveis para os outros e ignorá-los completamente na minha própria vida. Isso é ser humano e não uma IA", brinca. "Transformar algo em piada não resolve tudo, infelizmente, seria muito mais rápido e barato que terapia."
Essa relação entre humor e reflexão também aparece na concepção de Flávia Ruiz. Em sua estreia na direção, ela parte do contraste entre a experiência presencial do teatro e o universo artificial abordado pela peça. A montagem traz escolhas de cena, figurino, luz e sonoplastia que remetem a outras épocas, incluindo os anos 1920 e 1930, período marcado por transformações tecnológicas e comportamentais.
Até a voz da inteligência artificial segue essa proposta. As falas do Chat foram gravadas pela própria Natália e transformadas pelo ator e músico Zéis em uma voz masculina. "No fim das contas, é isso que uma IA é: um espelho de quem usa. É você mesmo, reciclado e jogado de volta pra você", explica Flávia.
Além disso, TerapIA conta com uma dinâmica própria para cada apresentação. A cada sessão, um convidado especial participa da montagem e pode mudar o rumo da apresentação. Entre os nomes que já participaram estão Cissa Guimarães, Alexandra Richter e Fernando Caruso. As sessões ainda contarão com Paulo Franco, neste domingo (6), e João Campany (11), além de Dadá Coelho, Malu Falangola e Raissa Xavier (datas ainda a confirmar).
Do Ceará ao Rio, entre palco, tela e cinema
A trajetória de Natália também passa por diferentes linguagens. Cearense radicada no Rio, ela transita entre teatro, televisão, comédia, dramaturgia e criação de conteúdo. "Essas diferentes facetas se alimentam do caos!", brinca. "A atriz observa o mundo, a comediante encontra o absurdo, a dramaturga organiza aquilo em uma história e a criadora de conteúdo transforma tudo em algo mais imediato."
O palco, onde tudo começou para ela, continua sendo um território importante. Ao mesmo tempo, a internet permite experimentar e ter uma conversa imediata com o público. "No fim, meu território é contar histórias, seja num palco, numa câmera ou em uma tela de celular."
A experiência de sair do Ceará e construir carreira no Rio também faz parte dessa trajetória. Natália conta que chegou à cidade diante de uma cena artística competitiva, na qual parecia que todo mundo já se conhecia. Com o tempo, passou a perceber que não precisava se encaixar em um lugar específico.
"Eu poderia construir o meu próprio espaço", afirma. E, apesar de ter escolhido o Rio para viver, ela não abre mão das próprias raízes. "Eu sou essa mistura. Uma mulher nordestina que escolheu o Rio para viver, mas que continua carregando o Ceará e a minha cuscuzeira onde eu for."
Além de TerapIA, Natália também está no elenco de "Marido de Aluguel", filme protagonizado por Paulinho Gogó, que estreia em 24 de setembro. No longa, ela divide o elenco com nomes como Mariana Xavier e Alexandre Lino. "No teatro, existe essa construção contínua: você começa e vai até o fim da história diante do público. No cinema, tudo é fragmentado, e você precisa encontrar a emoção daquela personagem rapidamente, mesmo gravando as cenas fora da ordem."
Participar de "Marido de Aluguel" também reforçou o desejo de Natália de circular por diferentes linguagens. "Foi também a oportunidade de experimentar mais uma linguagem e reafirmar esse desejo que tenho de circular entre diferentes formatos: televisão, cinema, teatro e internet."
Serviço
Humor para olhar para as próprias contradições
Para Natália, o humor é uma forma de olhar para questões que fazem parte da experiência humana. "Eu transformo em piada enquanto eu estou elaborando. Não existe o depois. Já é uma forma de agir. É meio automático", diz.
Nesse processo, ela também aprendeu a rir das próprias contradições. "Posso ser a mulher que fala de terapia e, ao mesmo tempo, continua cometendo os mesmos erros. Posso dar conselhos incríveis para os outros e ignorá-los completamente na minha própria vida. Isso é ser humano e não uma IA", brinca. "Transformar algo em piada não resolve tudo, infelizmente, seria muito mais rápido e barato que terapia."
Essa relação entre humor e reflexão também aparece na concepção de Flávia Ruiz. Em sua estreia na direção, ela parte do contraste entre a experiência presencial do teatro e o universo artificial abordado pela peça. A montagem traz escolhas de cena, figurino, luz e sonoplastia que remetem a outras épocas, incluindo os anos 1920 e 1930, período marcado por transformações tecnológicas e comportamentais.
Até a voz da inteligência artificial segue essa proposta. As falas do Chat foram gravadas pela própria Natália e transformadas pelo ator e músico Zéis em uma voz masculina. "No fim das contas, é isso que uma IA é: um espelho de quem usa. É você mesmo, reciclado e jogado de volta pra você", explica Flávia.
Além disso, TerapIA conta com uma dinâmica própria para cada apresentação. A cada sessão, um convidado especial participa da montagem e pode mudar o rumo da apresentação. Entre os nomes que já participaram estão Cissa Guimarães, Alexandra Richter e Fernando Caruso. As sessões ainda contarão com Paulo Franco, neste domingo (6), e João Campany (11), além de Dadá Coelho, Malu Falangola e Raissa Xavier (datas ainda a confirmar).
Do Ceará ao Rio, entre palco, tela e cinema
A trajetória de Natália também passa por diferentes linguagens. Cearense radicada no Rio, ela transita entre teatro, televisão, comédia, dramaturgia e criação de conteúdo. "Essas diferentes facetas se alimentam do caos!", brinca. "A atriz observa o mundo, a comediante encontra o absurdo, a dramaturga organiza aquilo em uma história e a criadora de conteúdo transforma tudo em algo mais imediato."
O palco, onde tudo começou para ela, continua sendo um território importante. Ao mesmo tempo, a internet permite experimentar e ter uma conversa imediata com o público. "No fim, meu território é contar histórias, seja num palco, numa câmera ou em uma tela de celular."
A experiência de sair do Ceará e construir carreira no Rio também faz parte dessa trajetória. Natália conta que chegou à cidade diante de uma cena artística competitiva, na qual parecia que todo mundo já se conhecia. Com o tempo, passou a perceber que não precisava se encaixar em um lugar específico.
"Eu poderia construir o meu próprio espaço", afirma. E, apesar de ter escolhido o Rio para viver, ela não abre mão das próprias raízes. "Eu sou essa mistura. Uma mulher nordestina que escolheu o Rio para viver, mas que continua carregando o Ceará e a minha cuscuzeira onde eu for."
Além de TerapIA, Natália também está no elenco de "Marido de Aluguel", filme protagonizado por Paulinho Gogó, que estreia em 24 de setembro. No longa, ela divide o elenco com nomes como Mariana Xavier e Alexandre Lino. "No teatro, existe essa construção contínua: você começa e vai até o fim da história diante do público. No cinema, tudo é fragmentado, e você precisa encontrar a emoção daquela personagem rapidamente, mesmo gravando as cenas fora da ordem."
Participar de "Marido de Aluguel" também reforçou o desejo de Natália de circular por diferentes linguagens. "Foi também a oportunidade de experimentar mais uma linguagem e reafirmar esse desejo que tenho de circular entre diferentes formatos: televisão, cinema, teatro e internet."
Serviço
"TerapIA"
Até 13 de setembro
Sexta-feira e sábado, às 20h; e domingos, às 19h
Local: Teatro Municipal Café Pequeno
Temporada: de 28 de agosto a 13 de setembro,
Endereço: Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon
Ingresso: a partir de R$ 40
Até 13 de setembro
Sexta-feira e sábado, às 20h; e domingos, às 19h
Local: Teatro Municipal Café Pequeno
Temporada: de 28 de agosto a 13 de setembro,
Endereço: Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon
Ingresso: a partir de R$ 40
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