
O avanço da pandemia de coronavírus, com quase 300 mil no mundo, e a dificuldade do Congresso americano para aprovar um pacote de medidas fiscais provocou novo dia de turbulência nas bolsas. Em movimento de fuga de ativos de risco, o dólar subiu mais de 3% no México e 2% Índia.
O estrategista de moedas para América Latina em Toronto do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Luis Hurtado, ressalta que, apesar do arsenal de medidas e recursos disponível pelo BC brasileiro, o dólar pode voltar a testar níveis acima de R$ 5,20 pela frente, a depender de como evolui a pandemia de coronavírus no país.
Nesse ambiente, Hurtado acredita que o BC vai seguir cortando juros. "O caso brasileiro é particularmente frágil, na medida em que uma rápida desaceleração do crescimento tem agora ainda mais chance de pressionar as contas fiscais."
No mercado, cresce o coro para que o BC reduza a Selic a zero. Um dos que defende tal movimento é o ASA Bank, que tem como diretor o ex-secretário do Tesouro, Carlos Kawall. Ele também defende programa mais amplo do governo de intervenção no câmbio, usando as reservas. Nesta segunda, o BC fez três leilões de dólar à vista, somando US$ 739 milhões, mas nesta segunda sem maior impacto nas cotações.
"Considerando que o ambiente para crescimento econômico está se deteriorando rapidamente, se espera mais da política monetária", ressalta o economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. Para ele, é a alta a probabilidade mais cortes na taxa básica, pois além da atividade fraca, houve aperto forte das condições financeiras e as expectativas de inflação seguem ancoradas. Ramos prevê contração de 1,6% no Produto Interno Bruto (PIB) este ano.
Juros
A forte inclinação, que já definia o formato da curva de juros pela manhã, persistiu durante a segunda etapa dos negócios, com a ponta longa fechando a sessão regular desta segunda-feira com alta em torno de 50 pontos sobre o ajuste de sexta-feira, e os curtos em baixa de cerca de 20 pontos. O aumento das apostas de corte da Selic após a leitura da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e com cenário de recessão à frente acabou por puxar os juros curtos para baixo e os longos, para cima, com alguns analistas não descartando a possibilidade de reunião extraordinária do Comitê.
Os vencimentos longos tiveram ainda influência negativa da pressão do câmbio e do estresse nos mercados internacionais, que cresceu com o Senado americano rejeitando o pacote de estímulo do governo Trump.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou com 3,77%, de 3,962% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2022 passou de 5,614% para 5,590%. Nos longos, as taxas se aproximam novamente dos dois dígitos. A taxa do DI para janeiro de 2027 subiu para 9,48%, de 8,903%.
No comunicado, os membros do Copom haviam dito que naquele momento viam como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. Porém, desde então o cenário econômico mudou para pior. O avanço do coronavírus ampliou restrições de mobilidade e o isolamento social, afetando a produção e os serviços. Aos que questionam se cortes de juros serão eficazes para amenizar os impactos sobre a demanda, na ata o colegiado afirma que discutiu o tema e concluiu que, embora neste momento seus efeitos sejam limitados, os mesmos serão relevantes para acelerar a recuperação, quando as restrições impostas pela pandemia começarem a arrefecer.
"Agora eu acho que virá mais um corte de pelo menos mais 0,50 ponto porcentual e não dá para descartar que esse corte ocorra em uma reunião extraordinária caso o quadro econômico piore", disse o economista do ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal.
A precificação para a Selic em maio na curva, que chegou a ser de 100% de estabilidade logo após o Copom, hoje é de 100% para corte. São -35 pontos-base, o que indica 60% de possibilidade de redução de 0,25 ponto porcentual e 40% de probabilidade de queda de 0,5 ponto, segundo números do banco Haitong.
"A curva empinou com o BC abrindo a porta para cortes adicionais por causa do cenário do coronavírus. Além disso, a volatilidade do dólar ajudou também a puxar a ponta longa", disse o gerente da Mesa de Reais da CM Capital, Jefferson Lima. A moeda fechou a segunda-feira na casa dos R$ 5,13.
Na visão dos analistas do Citi, os diretores não fecharam as portas a futuros cortes na Selic na ata apesar das incertezas. A previsão do banco é de mais dois cortes de 0,5 ponto porcentual, o que levaria a Selic para 2,75%. "Atualmente a curva precifica queda da taxa para a reunião de maio e depois uma quantidade de prêmio justa para o resto do ano. Se os mercados acreditarem que o BC vai cortar mais, como nós esperamos, muito desse prêmio vai desaparecer, favorecendo a ponta curta", afirma relatório da instituição, que tem posição aplicada em DI janeiro de 2021, a 3,75%. "Os riscos para esta estratégia são uma postura mais conservadora do BC, maior desvalorização do real, queda aguda nos preços das commodities e aversão global ao risco", diz o Citi.
Bovespa
A anomalia econômica persiste, sem prazo de definição, de forma que os mercados de ativos de risco seguem colhendo os prejuízos do coronavírus. Os BCs e governos continuam atuando, na ponta sanitária e na econômica, o que, por mais intensos e coordenados que sejam os esforços, aqui e no exterior, não têm sido o suficiente para conter o derretimento dos preços. Nos EUA, causou apreensão a segunda rejeição no Congresso do pacote enviado pelo governo Trump, de US$ 1,6 trilhão, contra os impactos do coronavírus - as negociações prosseguem.
O presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, defendeu nesta segunda-feira que os Estados Unidos precisam reduzir a produção à metade para conter a disseminação da coronavírus no país. Em comunicado, Bullard estimou que a iniciativa resultaria em queda de 50% no PIB americano no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior.
Por aqui, após ter acumulado nas duas últimas semanas suas maiores perdas desde outubro de 2008, o Ibovespa fechou nesta segunda-feira em baixa de 5,22%, aos 63.569,62 pontos, com Nova York registrando perdas de até 3% (Dow Jones) no encerramento da sessão. O giro financeiro totalizou R$ 24,9 bilhões, um dos mais fracos do período posterior ao carnaval, no qual os volumes e a volatilidade têm se mostrado mais acentuados.
No fechamento desta segunda-feira, o Ibovespa mostrava o menor nível desde 10 de julho de 2017, quando encerrou aos 63.025,46 pontos Na mínima da sessão, o Ibovespa foi hoje a 62.161,38 pontos e, na máxima, a 67.603,83.
Na ponta negativa, Hering (-17,19%) e Natura (-15,57%), duas ações do setor de bens de consumo. Entre as blue chips, Petrobras PN caiu 4,17% e a ON, 4,91%, com Vale ON em baixa de 3,10% no encerramento. Entre as campeãs do dia, Weg subiu 8,83%, Suzano, 5,15%, e Marfrig, 4,50%, três ações com exposição a receitas geradas no exterior, em particular na China, que vem normalizando a atividade após superar o pior momento do coronavírus. Destaque também para Pão de Açúcar, em alta de 6,92%, com o setor de supermercados parecendo ampliar as vendas com a formação de estoques domésticos pelos consumidores.
Desde o fim de semana, o governo brasileiro anunciou novas iniciativas para dar fôlego aos agentes econômicos e financeiros: abriu caminho para suspensão temporária de contratos de trabalho, uma redução de encargos e custos fixos que contribuiria para mitigar a suspensão de atividades e encolhimento de receitas - mas acabou recuando com relação aos salários, ante reação negativa do Congresso. De sua parte, o Banco Central decidiu reduzir a alíquota do compulsório para recursos a prazo, de 25% para 17%, medida que deve resultar na liberação de R$ 68 bilhões a partir da próxima segunda-feira, dia 30.
Apesar das iniciativas legais e macroeconômicas, a incerteza mesmo quanto à capacidade de sobrevivência das empresas durante o período de isolamento social continua a pressionar para baixo o preço das ações. "É possível que haja dificuldades agudas para as empresas muito antes de a curva da doença se acentuar. A incerteza é se a atuação do governo e do BC ajudará as empresas até que o coronavírus se dissipe", aponta o analista Matheus Soares, da Rico Investimentos. "A grande dúvida é saber se essas empresas vão sobreviver até lá", acrescenta o analista, observando que a incerteza também diz respeito a um cenário de recessão ou depressão, que pode inclusive levar as autoridades a reconsiderar a extensão do isolamento social determinado à população.
"A paralisia da economia também causa fatalidades. Talvez faça sentido, a partir de certo momento, manter isolados os grupos mais vulneráveis e permitir que a população ativa volte ao trabalho", ainda que gradualmente, aponta o analista da Rico.
Com a B3 acumulando agora perdas de 38,98% no mês e de 45,03% no ano, e com os saques de investidores estrangeiros se aproximando em 2020 de R$ 60 bilhões, conforme dados referentes até a última quinta-feira, 19, há quem defenda suspensão do mercado até que um grau de normalidade retorne à economia. A iniciativa, contudo, é polêmica. "Fechamento da B3 se justificaria apenas por determinação do governo, no sentido de preservar os que são imprescindíveis à sua operação. Mercado não é só venda, não é só compra - seria injusto uma interrupção com base em preços", observa Soares, da Rico.
Contudo, caso Wall Street assuma a liderança e suspenda os negócios, a situação seria diferente, apontam analistas. E há precedente histórico, inclusive por determinação do governo americano. Em 1914, no começo da 1ª Guerra Mundial, o então secretário do Tesouro americano, William Gibbs McAdoo (1863-1941), conseguiu fechar a Bolsa de Valores de Nova York por mais de quatro meses, quando se temia que os EUA abandonariam o padrão ouro, receio que resultou em depreciação acentuada do dólar nos mercados de moeda da época.
O evento é contado no livro "When Washington shut down Wall Street" (Quando Washington fechou Wall Street), de William Silber, editado pela Princeton University Press em 2007, portanto às vésperas da crise global de 2008-2009.
No livro, o autor observa que na última semana de julho de 1914, investidores europeus começaram a liquidar suas posições em Wall Street e transferir ouro para o velho continente, para financiar o esforço de guerra, que eclodiria no mês seguinte, agosto. A saída em massa de ouro dos EUA colocava em risco o pagamento de compromissos financeiros do país no exterior - na época, os EUA eram uma nação endividada, com um histórico de crises financeiras, entre as quais o pânico bancário de 1907 - e a incapacidade de pagar a dívida externa colocaria em risco o sonho, já então em gestação pelos EUA, de transformar o dólar em referência monetária global, observa Silber.
Assim, por determinação do Tesouro, os negócios foram suspensos em 31 de julho de 1914 - pouco antes dos "canhões de agosto". As negociações de bônus só seriam retomadas em 28 de novembro de 1914, e as de ações locais, "sem caráter internacional", apenas em 12 de dezembro - a totalidade dos negócios com ações recomeçou três dias depois, no dia 15 de dezembro, conforme o relato de Silber.






