Publicado 24/08/2026 05:00
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) reduziu em 50,7% o número de requerimentos de concessão de aposentadoria e demais benefícios em análise no Rio de Janeiro entre fevereiro e julho de 2026. A fila caiu de 178.385 para 87.942 pedidos, diminuição de mais de 90 mil processos em seis meses. O tempo médio entre o pedido e a decisão passou de 54 para 30 dias, teve queda de 44%.
Publicidade No entanto, no mesmo período, o número de segurados que receberam resposta negativa cresceu. No primeiro semestre de 2026, o INSS indeferiu 266.919 pedidos no Estado, 74,2% a mais que no mesmo intervalo de 2025.
Os números da fila
Entre fevereiro e julho, o INSS concluiu cerca de 607,6 mil análises no Rio. Em fevereiro, foram 78.878 conclusões; em julho, 110.444, aumento de cerca de 40%.
| Mês (2026) | Concluídos | Concedidos | Indeferidos |
| Fevereiro | 78.878 | 33.278 | 32.305 |
| Março | 107.152 | 53.615 | 47.031 |
| Abril | 91.597 | 44.234 | 45.094 |
| Maio | 106.621 | 44.115 | 57.125 |
| Junho | 112.909 | 48.967 | 60.506 |
| Julho | 110.444 | 50.931 | 58.391 |
| Total | 607.601 | 275,140 | 300.452 |
As concessões também aumentaram no período. De 33.278 em fevereiro, passaram para 50.931 em julho, alta de 53%. Ao todo, foram cerca de 275 mil benefícios concedidos nos seis meses. O ponto de virada ocorreu em maio, quando o número de indeferimentos passou a superar o de concessões todos os meses. A proporção de solicitações negadas sobre o total de pedidos analisados no Estado passou de 49% para 53%.
Segundo o INSS, essa variação está relacionada, entre outros fatores, à análise de processos mais antigos que estavam no estoque e que, ao serem avaliados, podem não preencher os requisitos para a concessão.
O instituto atribui a redução da fila a um conjunto de medidas: reforço da força de trabalho, mutirões, incentivo à produtividade e à modernização dos processos. O órgão afirma que ferramentas automatizadas são usadas para triagem e em tarefas repetitivas. O instituto alega que a decisão sobre o direito ao benefício segue as regras aplicáveis, com análise individual quando necessária.
Dados não são reflexos da realidade
Apesar da estimativa do tempo de espera ser menor, há casos em que a demora persiste. Jeilson Gusmão, dentista de 59 anos e servidor municipal em Miguel Pereira, aguarda há dois meses a análise de seu pedido de aposentadoria, período superior ao tempo médio atual do INSS no Estado.
Já Lilian Almeida, médica de 57 anos com 30 anos de contribuição ao INSS, protocolou o pedido em 16 de julho e, até o fechamento desta reportagem, não havia recebido resposta. Outro caso é o da professora Rita Maria Nicolau. Com 25 anos de contribuição, ela deu entrada na solicitação de aposentadoria em setembro de 2025 e só obteve resposta de indeferimento em abril de 2026.
Ana Costa, estatística de 59 anos, teve o primeiro pedido aberto em 6 de fevereiro e foi indeferido em 27 de março. Após o resultado, ela entrou com um recurso administrativo e registrou um novo requerimento em 28 de abril ainda sem resposta.
Brasil segue a mesma tendência
Dados do Boletim Estatístico da Previdência Social mostram que o quadro verifivcado no Rio de Janeiro se repete no país como um todo. No acumulado de janeiro a junho de 2026, o Brasil concedeu 4.239.522 benefícios, alta de 13,4% sobre o mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, os indeferimentos somaram 4.319.336, aumento de 69,8%.
Os números nacionais também indicam que a maior parte dos indeferimentos se refere a benefícios por incapacidade. Em junho de 2026, das 938.180 negativas registradas no país, 664.909 se enquadram nessa categoria — equivalente a 71% do total. O grupo também representa o maior peso na fila nacional. Do estoque de 2,191 milhões de solicitações represadas em maio de 2026, 928 mil eram de benefício por incapacidade.
A fila da perícia médica federal, dedicada para pedidos de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez, seguiu uma tendência parecida com o estoque geral do INSS. O número de pedidos em análise passou de 1,23 milhão de pessoas em novembro de 2025 para 494.667 em maio de 2026. O tempo médio nacional de concessão de benefícios também caiu, de um pico de 76 dias em fevereiro de 2026 para 48 dias em junho.
O que explica o aumento das negativas
O advogado especialista em Direito Previdenciário Eduardo Gomes Teixeira aponta para os dados escolhidos pelo sistema do INSS para tomar as decisões. Segundo ele, os motivos mais recorrentes de indeferimento incluem o sistema não reconhecer que o requerente estava filiado ao Regime Geral de Previdência Social na data do fato gerador, falhas no registro de vínculos ou contribuições não identificadas no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) e a alegação de falta de documentos.
"A premissa do sistema é que, se a informação não está no CNIS, ela não existe. Este é o ponto de partida para a maioria dos indeferimentos automáticos", afirma o advogado. Segundo ele, um benefício por incapacidade temporária pode ser negado porque um empregador não recolheu com regularidade as contribuições do segurado.
Problemas da automatização nos casos de saúde
Segundo Teixeira, nos benefícios por incapacidade, as decisões automatizadas funcionam bem em casos com CNIS regular e documentos padronizados, mas falham em situações que exigem análise de contexto, como reconhecimento de vínculo rural, contagem de tempo especial baseada em laudos antigos ou avaliação de incapacidade decorrente de mais de uma condição de saúde. O advogado afirma que laudos de médicos que acompanham o paciente por anos costumam ter menos peso do que avaliações padronizadas.
Sobre o Atestmed, sistema do INSS que avalia pedidos de benefício por incapacidade a partir de documentos médicos, ele considera que a análise se tornou superficial. Nas perícias presenciais, apesar da competência dos profissionais, o tempo reduzido de avaliação e a eventual falta de especialização do perito na doença específica do segurado são fatores que podem levar a conclusões equivocadas.
O advogado especiaiista em Direito Previdenciário Washington Barbosa entende que a automatização dos processos pode facilitar o processo de concessão dos benefícios. Entretanto, ele destaca que, em casos de indeferimento, os pedidos deveriam passar por uma análise profissional antes de negativa.
"Em vez de a automação simplesmente indeferir os casos não autorizados, eles deveriam seguir para uma análise humana, inicialmente documental e, quando necessário, até presencial", sugere.
Para o advogado, a concessão automática é adequada quando os requisitos já estão comprovados. O problema, segundo ele, está no uso do mesmo critério para negar: "A decisão de negar um benefício deve passar por um analista do INSS, um profissional técnico e preparado para avaliar as particularidades de cada caso, e não ficar exclusivamente a cargo de um sistema automatizado", diz.
Casos em que o problema não é do segurado
Segundo os advogados, parte dos indeferimentos ocorre por falhas que não dependem do trabalhador. Se uma empresa deixou de registrar corretamente um vínculo ou uma contribuição, o problema pode aparecer anos depois sem que o sistema identifique sozinho a inconsistência.
O mesmo acontece com contribuintes individuais que pagaram contribuições atrasadas ou tiveram remuneração abaixo do salário mínimo em algum período. Estas situações exigem regularização antes de entrarem no cálculo do benefício.
Os dois advogados defendem um modelo híbrido, em que a tecnologia identifique os casos simples e encaminhe automaticamente os mais complexos para análise de um servidor. Teixeira propõe a criação de mecanismos simplificados para a correção de dados do CNIS antes do pedido do benefício, e critérios que garantam análise mais detalhada de laudos e documentos apresentados pelo segurado.
Reversão dos casos de indeferimento
Segundo os especialistas, quando um pedido é negado, ele deixa de compor o estoque do INSS, mas a demanda do segurado continua. Quem recebe uma negativa pode recorrer administrativamente, fazer um novo requerimento ou buscar a Justiça.
Teixeira afirma que parte dos segurados faz requerimentos repetidos após negativas, e considera que a redução da fila pode não representar necessariamente uma melhora na qualidade da análise, mas sim uma busca por recursos administrativos ou processos jurídicos.
O advogado afirma, com base na experiência profissional, que a taxa de reversão de decisões do INSS na Justiça é elevada, sobretudo em casos envolvendo perícia médica. Isso revela que o processo de análise do INSS se demonstra ineficaz, visto que uma avaliação mais detalhada tem uma tendência de alterar a decisão anterior.
Barbosa avalia que os peritos da Perícia Médica Federal são qualificados, mas o volume de processos por profissional dificulta a análise mais detalhada de cada caso.
A vulnerabilidade de quem espera
Segundo Barbosa, o atraso na análise afeta principalmente segurados em situação de vulnerabilidade, que podem precisar da família e amigos para lidar com o período de espera, enfrentar problemas emocionais e, em casos mais graves, dificuldades até para comprar alimentos. Já Teixeira relata casos em que os segurados sofrem com ansiedade, preocupação financeira e vulnerabilidade alimentar no núcleo familiar.
Os dois advogados apontam os benefícios por incapacidade temporária, para pessoas com deficiência e aposentadoria por incapacidade permanente representam os casos mais afetados por falhas de análise, dado o impacto direto na renda do segurado. "Estamos falando de coisa muito séria, de pessoas com alto nível de necessidade", afirma Barbosa.
* Matéria do estagiário Felipe Scofield, sob supervisão de Marlucio Luna
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