Em 2026, até setembro, foram registrados 10.834 fechamentos e 17.214 aberturas de empresa Reginaldo Pimenta/Agência O Dia
Publicado 18/10/2026 05:00 | Atualizado 18/10/2026 08:15
O número de empresas do comércio que fecharam as portas no Rio de Janeiro chegou a 13.025 em 2025, o maior volume registrado na série histórica apresentada, que reúne dados de 2019 a 2026. O levantamento foi disponibilizado pela Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja) ao jornal O DIA. A reportagem ouviu especialistas e comerciantes para entender os fatores que contribuem para o encerramento das atividades dos estabelecimentos e os impactos desse cenário para o setor e o mercado imobiliário.
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Em 2026, até setembro, foram registrados 10.834 fechamentos e 17.214 aberturas de empresas do comércio no Estado. Em 2025, o número de estabelecimentos que encerraram as atividades chegou a 13.025, alta de 18,6% em relação a 2024, quando foram contabilizados 10.979 fechamentos. Já em 2019, primeiro ano da série histórica, foram 10.798 baixas.
Na contramão dos fechamentos, o número de aberturas também cresceu entre 2024 e 2025. Foram 20.136 novos estabelecimentos comerciais em 2025, contra 18.488 no ano anterior, um aumento de 8,9%.
Joyce Araújo, especialista em Direito Imobiliário do escritório Durão, Almeida & Pontes, afirma que, hoje, o principal desafio é equilibrar as despesas com o faturamento.
Joyce Araújo, especialista em direito imobiliárioArquivo pessoal
"Além do aluguel, os comerciantes precisam arcar com condomínio, IPTU, funcionários, estoque e outras despesas. Para os proprietários, manter valores incompatíveis com a realidade do mercado pode dificultar a locação. Imóveis que precisam de reformas ou estão em regiões com pouco movimento também podem enfrentar mais dificuldades para atrair interessados", explica.
Por outro lado, Joyce Araújo aponta outros fatores que influenciam o esvaziamento das lojas físicas:
"A redução da circulação de trabalhadores em algumas regiões, a segurança pública, os custos de ocupação e as condições econômicas dos consumidores também influenciam o movimento comercial."
Mauricio Gonçalves, especialista em Direito Cível, Patrimonial e Familiar, aponta que o problema é generalizado, apesar de alguns setores terem conseguido se adaptar melhor.
Mauricio Gonçalves, especialista em direito cível, patrimonial e familiarArquivo pessoal
"Acredito que todos os segmentos foram afetados: moda, calçados, presentes e eletroportáteis, todos muito dependentes do fluxo de rua. Farmácias, serviços de bairro, pet, estética e alimentação com forte delivery se adaptaram melhor", avalia.
O problema, no entanto, se estende para além da área do comércio, diz Joyce Araújo, e afeta o setor imobiliário.
"Os imóveis vazios representam perda de renda para os proprietários, que continuam tendo despesas de manutenção e conservação. Quando a desocupação se prolonga, pode haver necessidade de renegociar aluguéis, realizar reformas ou adaptar o espaço para outras atividades. Em algumas regiões, muitos imóveis fechados também prejudicam a atratividade do entorno", explica.
Apesar da influência da pandemia e do e-commerce, o presidente do CDLRio e do SindilojasRio, Aldo Gonçalves, ressalta que a situação do varejo vem se agravando há anos.
"Você sabe que, a partir de 2013, houve uma recessão muito forte na economia, no final do governo Dilma. O comércio já estava sofrendo muito. Quando chegou a pandemia, foi a pá de cal. Muitas empresas fecharam, não tinham como sobreviver. Empresas pequenas, médias e até as grandes começaram a sentir os efeitos nessa época", lembra.
"Então, a pandemia veio num momento em que o comércio já estava enfraquecido. Depois, o e-commerce também afetou um pouco o comércio com lojas físicas, mas isso não é tão grave assim, porque o comércio tem que evoluir e se modificar. Foi importante perceber que o varejo precisa vender por múltiplos canais, ou seja, ter a loja física, vender pelo próprio e-commerce e também pelas plataformas", conta.
Aldo também pontua que a insegurança afeta muito o comércio de rua, porque não prejudica apenas o funcionamento das lojas, mas também a circulação dos clientes.
"Hoje em dia, principalmente, quem mais compra no comércio é a mulher. Ela compra para si, para os filhos e para o marido e é muito mais vulnerável à questão dos assaltos", diz.

'Acredito na força do comércio de bairro'

Mauro Gonçalves Ribeiro, de 63 anos, comerciante há mais de 45 anos no Rio, conta que notou uma mudança significativa no comportamento do consumidor ao longo dos anos.
Mauro Gonçalves Ribeiro, comerciante com mais de 45 anos de atuaçãoArquivo pessoal
"Já acompanhei muita mudança nesses mais de 45 anos. Hoje, o cliente pesquisa mais, compara preços e está mais cuidadoso com o dinheiro. Mas acredito muito na força do comércio de bairro. Sempre fiz questão de estar nas minhas lojas, atender de perto, ouvir e ajudar. Esse atendimento faz toda a diferença. O cliente quer um bom preço, mas também quer alguém em quem possa confiar", ressalta.
À frente da Loja do PVC, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio, no mesmo endereço há mais de 25 anos, o comerciante diz que mudar de endereço não está nos planos.
"Sempre procurei acompanhar de perto e fazer os ajustes necessários. Tenho uma vida inteira dedicada ao comércio e gosto de atender, conversar e encontrar clientes. A loja faz parte da minha história e da história do bairro", diz.
Andrea Moraes, proprietária da papelaria Estrela Azul MP, localizada no Cachambi, Zona Norte, destaca que "está muito difícil manter uma loja aberta".
Andrea Moraes, proprietária da papelaria Estrela Azul MPArquivo pessoal
"Vejo muitas lojas fechadas e outras vazias, sem movimento; parece que o comércio de rua só se movimenta em épocas de festejos, quando há um aumento no fluxo de pessoas. Por exemplo, no Dia das Crianças deste ano, a loja teve um movimento muito bom, tivemos uma receita legal", afirma.
"Fora isso, não tem tido uma procura legal no dia a dia. Até mesmo na Copa do Mundo, a demanda foi muito aquém da registrada em 2022", ressalta a proprietária da papelaria, que abriu as portas em 1969. 
Para Andrea, o e-commerce impactou as vendas nas lojas físicas.
"Acredito que um dos fatores que mais contribuíram para essa queda foi o crescimento das lojas on-line, pois elas conseguem atender às demandas dos clientes sem que eles precisem sair de casa, oferecendo conforto e melhores opções de pagamento", conta.
"Um outro ponto é o poder de compra. Tenho a sensação de que as pessoas estão segurando o dinheiro, só consumindo o que é pontual, ainda mais nessa época de política, que acaba gerando uma apreensão e incerteza do que está por vir", analisa.
No bairro do Jacaré, Zona Norte, Luciano Soares, sócio da loja Simone Festas, também menciona a desaceleração do mercado, mas defende que o comércio de rua "tem uma grande importância na economia e na vida das comunidades".
Comerciante Luciano Soares, sócio da loja Simone Festas1Arquivo pessoal
"Acredito que hoje não basta ter experiência de chão de loja. É preciso buscar conhecimento, investir em gestão, marketing, tecnologia e atendimento. Empreendo há mais de 30 anos e aprendi que a experiência é fundamental, mas precisamos continuar evoluindo. O empresário que entende que precisa se reinventar encontra novas oportunidades mesmo em cenários difíceis", compartilha.
O empreendedor também manifesta preocupação com os custos para manter o negócio, que estão cada vez mais altos.
"Isso é uma preocupação constante para quem administra uma empresa. A folha de pagamento, os encargos, o aluguel, a energia, as mercadorias e as demais despesas operacionais representam um peso significativo. Hoje, temos aproximadamente 16 a 18 colaboradores, e manter uma equipe exige responsabilidade, planejamento e investimento."
"O empreendedor enfrenta um desafio por dia. Às vezes, pensa em parar, mas, logo depois, se reorganiza, busca soluções e volta para a luta. O grande desafio é equilibrar essas despesas com a necessidade de manter preços competitivos e uma operação saudável. As margens estão mais apertadas, e isso exige atenção diária aos números e às decisões do negócio", pontua.
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