Publicado 19/06/2026 16:45 | Atualizado 19/06/2026 17:01
Rio - Quando a bola rolar para o confronto entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo, na noite desta sexta-feira (19), um torcedor terá motivos especiais para comemorar qualquer resultado. O haitiano Robert Montinard, 50 anos, vai assistir à partida com o coração dividido entre o país onde nasceu e o que o acolheu desde 2010.
Publicidade"Hoje eu decidi torcer pelo futebol, mas vou assistir o jogo com o coração dividido e apertado. Se o Brasil ou o Haiti ganhar vou ficar feliz e triste da mesma forma. No entanto, para ele, uma eventual vitória haitiana teria um significado que vai além do futebol. "A gente não acredita que pode ganhar do Brasil na bola. Mas, pensando na evolução da nossa história, seria mais uma grande conquista para o Haiti, um povo que já sofreu tanto".
Para acompanhar a partida, ele ajudou a organizar um evento na sede da Viva Rio, na Glória, região central do Rio. A programação inclui futebol, roda de conversa, apresentações culturais, música e gastronomia haitiana. "É um evento para receber refugiados e migrantes, mas todo mundo pode participar. Antes do jogo vamos fazer uma "pelada", depois teremos conversa, comida e música", comentou.
Tragédia em 2010 fez haitiano ressignificar a vida ao lado da família
Mediador de conflitos comunitários, produtor cultural e cofundador da ONG Mawon, que atua na integração socioeconômica de migrantes e refugiados, Robert chegou ao Brasil após sobreviver ao terremoto que devastou o Haiti em janeiro de 2010. O desastre, de magnitude 7, deixou centenas de milhares de mortos e destruiu grande parte da infraestrutura do país.
A tragédia atingiu diretamente a família dele. A casa em que morava, de dois andares, em Porto Príncipe, foi destruída e ele ficou soterrado sob os escombros. Ele conta que conseguiu sobreviver graças à mulher dele, que o retirou do local. O filho mais velho do casal também foi resgatado após três dias de buscas.
Além da destruição material, Robert perdeu amigos e viu o país enfrentar uma sequência de crises agravadas por furacões e instabilidade social. No fim de 2010, ele e a mulher, Mélanie, decidiram recomeçar a vida no Brasil, acompanhados dos três filhos.
Hoje, mais de 15 anos depois, ele se considera integrado à sociedade brasileira, mas mantém fortes laços com o Haiti. "Eu não penso em voltar a morar no Haiti agora porque toda a minha família está aqui e a situação lá continua muito difícil. Mas já faz mais de dez anos que não vejo meus parentes. Existe esse carinho e essa preocupação com quem ficou. Acho que a hora de voltar pode estar se aproximando", refletiu.
Atualmente, Robert dedica a vida ao trabalho com pessoas deslocadas por conflitos, crises humanitárias e eventos climáticos extremos. Recentemente, participou de atividades ligadas à educação climática durante eventos preparatórios para a COP30.
Atualmente, Robert dedica a vida ao trabalho com pessoas deslocadas por conflitos, crises humanitárias e eventos climáticos extremos. Recentemente, participou de atividades ligadas à educação climática durante eventos preparatórios para a COP30.
Apesar dos desafios enfrentados desde que deixou Porto Príncipe, ele vê sua trajetória como uma prova de resistência: "O Brasil e o Haiti têm muitas coisas em comum por causa da história e da colonização. Mas também existem muitas diferenças. Às vezes a gente se sente perdido, longe de casa. Ainda assim, consegui construir uma nova vida aqui".
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