Zico no documentário sobre sua carreira no futebolDivulgação / Peter Wrede
Publicado 30/04/2026 07:30
O documentário 'Zico, o Samurai de Quintino' estreia nesta quinta-feira (30) nos cinemas como uma ode ao ídolo rubro-negro, à família e também ao Flamengo. Afinal, é impossível não contar a história do Galinho de Quintino sem os gols e os muito títulos pelo clube. Mas o filme não é só isso e conta toda a trajetória do ex-jogador através do lado humano.
Publicidade
A obra dirigida por João Wainer traz uma mescla de depoimentos atuais com entrevistas e imagens dos anos 70, 80 e 90. Alguns dos vídeos, inclusive, são inéditos e do acervo da família, com dezenas de fitas VHS cedidas à produção, e mostram um outro lado de Zico além do campo.
"Era uma coisa que me divertia (gravar com câmera), gostava muito. Isso aconteceu na Disney, na lua de mel, momentos que se tornaram inesquecíveis para nós e voltei a ver. Quando comecei a jogar no Sumitomo, contratei uma produtora para filmar e tenho os gols que marquei como se fosse do Canal 100 (risos). E isso enriquece o que encontrei lá, campos de terra, sem a menor condição, sem arquibancada; e eu estava lá me divertindo. Tem gols que o pessoal nunca viu", disse Zico.

A escolha de como contar a história

A ideia da narrativa foi apresentar a relação familiar - muitas vezes contada pelos pais e irmãos, principalmente pela mulher Sandra, e pelos três filhos -  junto à a história vitoriosa no Flamengo até a aventura no Japão, onde ajudou a desenvolver o futebol. Para isso, Zico é retratado também com algumas características que o encaixam na cultura japonesa, como por exemplo a pontualidade, a dedicação e a organização.
"A gente trouxe essa camada humana, que no princípio não era a principal. Mas começamos a entender que uma coisa estava relacionada à outra. Mais disciplinado e que treina mais e o japonês entendeu isso e chama de 'Spirit of Zico (Espírito do Zico)'. E aí a gente tenta explicar um pouco todos os sucessos baseados nessa postura que deveria servir de exemplo para as novas gerações, hoje tem muito individualismo", explica o diretor João Wainer.
"Ficou claro para a gente que o filme deveria ser sobre esse cara. Porque a história esportiva é conhecida. Por mais que tenhamos organizado com qualidade legal de imagem e som, esse cara que é a novidade. E a chave foi a Sandra", completa.
Mas o futebol está quase sempre presente e os torcedores do Flamengo podem relembrar histórias já conhecidas e outras pouco faladas. Como por exemplo, a chegada ao Japão, para jogar num clube da segunda divisão amadora e com pouquíssima estrutura: o Sumitomo, que viria a se tornar o Kashima Antlers pouco tempo depois. Naquele início dos anos 90, ele jogou em um campo sem arquibancada e vestiário sem chuveiro, além de lavar por conta própria o uniforme.
"Sandra me dá muita dura até hoje, não dá mole, dizia que é meio louco (ir para o Japão). Então, eu acho que ficou uma verdade da minha vida e isso é gratificante. Valeu a pena todo suor que deixei pelo caminho", recorda.
Há também passagens como a amizade com Pelé, companheiros de clube e também Roberto Dinamite, maior ídolo do Vasco e grande rival em campo. Essas relações não são tão aprofundadas no documentário, assim como outros momentos da trajetória, mas passam uma real ideia de como é Zico.

A relação de Zico com o Flamengo

O ídolo rubro-negro também revive seu passado no futebol: como começou e como chegou ao Flamengo, seu início nos profissionais ou quando ganhou a vaga de titular e virou camisa 10. Assim como a origem do apelido 'Galinho'.
Para os rubro-negros e torcedores de outros clubes - porque não? - , é a oportunidade de recordar ou conhecer (para os mais novos) como foram as principais conquistas daquela geração histórica da década de 80, com cinco brasileiros, a Libertadores e o Mundial de 1981. Os ex-companheiros Júnior e Paulo César Carpegiani participam destes momentos no documentário, em um bate-papo recordando algumas histórias (assim como Ronaldo Fenômeno e Carlos Alberto Parreira).

Momentos difíceis na carreira

São muitos gols conhecidos e outros nem tanto que ajudam a contar essa história de Zico. Mas nem tudo é alegria e há momentos ruins e difíceis, como a morte de Geraldo, companheiro de Flamengo, e as perdas da Copa do Mundo de 1982 e 1986. Nesta última, o Galinho se defende do pênalti perdido no tempo regulamentar contra a França, e admite que não deveria ter ido para o México.
"Cada etapa tem o seu aspecto, o que eu vivi. Já começando pela dificuldade no Flamengo, das pessoas não acreditarem muito de eu vir a ser jogador de futebol. Tem situações de que eu era desdentado, raquítico, magrinho... Ouvir aquilo tudo não era fácil. Então tive que ali já pensar: 'É isso que eu quero? Então vamos superar, vamos em frente e não se deixar abater por isso'", recorda. 
Outra passagem difícil para ele refere-se a um momento chave no início da carreira. Foi a não convocação para a Olimpíada de Munique-1972, quando Zico tinha a certeza de que seria chamado. Por pouco ele não abandonou o futebol por causa dessa decepção. Junto aos irmãos Edu e Fernando Coimbra, o Galinho cita como a ditadura pode ter influenciado nessa decisão de tirá-lo da lista. 
o período na Itália, por outro lado, recebe pouco espaço na narrativa, assim como o processo que culminou na saída do Flamengo, em 1983. Afinal, nem tudo foi possível colocar e cerca de meia hora de material precisou ser cortado.

As memórias do ídolo

Para quem gosta de história e é fã do futebol, as relíquias da carreira do ex-jogador apresentadas num cenário montado pela produção (que poderia ser um santuário para os rubro-negros) são uma atração à parte. Entre eles, o caderno de anotações de cada jogo (tem resultados, os gols que ele marcou ou pênaltis perdidos), a camisa 7 do primeiro gol pelo Flamengo e a bola ouro de 1979, uma premiação que vem junto a uma história bem-humorada.
Zico conversa com Ronaldo Fenômeno e Carlos Alberto Parreira em seu museu particularDivulgação / Peter Wrede
Há também momentos mais pessoais no filme sobre Zico, como o seu lado organizador. Já para o fim, os filhos falam das dificuldades de como era para eles a vida do pai e há o contraponto com a relação atual com os netos.
"Tenho certeza que deu valorizada grande para o pessoal me conhecer no dia a dia, saber de onde eu vim, quem eu era, o que aprendi e todo esforço que fiz para chegar e ter uma família construída. Ter um filme sobre a sua história é uma gratidão imensa", completa o Galinho de Quintino.
Leia mais