Zico com algumas peças de seu acervo pessoal em sala montada pela produção do filmeDivulgação / Peter Wrede

Zico tem uma verdadeira coleção de museu em casa. O número de peças guardadas ao longo de sua carreira no futebol pode chegar a quase duas mil, entre camisas históricas, premiações, fotos e muito mais. A estimativa é de uma equipe de museólogos contratada pela produção do documentário "Zico: o Samurai de Quintino" para registrar parte do acervo pessoal do ídolo do Flamengo.
Esse trabalho durou 16 dias, contou com a participação de oito pessoas, com a coordenação do ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, Beto Junior, e da museóloga responsável, Angélica Pimenta, também do MAC. Ao todo, 266 relíquias passaram pelo processo de arrolamento, uma forma de registro mais simples, com imagem, dimensões e breve descrição de cada item.
O objetivo foi fazer o levantamento para o transporte e o manuseio desse material, utilizado para a montagem do cenário para entrevistas durante as filmagens do documentário. 
"Havia uma preocupação muito grande do Zico com essas peças. Ele aceitou porque entendeu que seria feito por especialistas. Nos dois primeiros dias ele estava notoriamente tenso. Afinal, na sala, xodó da vida dele, entra uma equipe de produção, eu e Angélica, museóloga chefe do MAC. Isso deu um peso para ele, quando viu a nossa seriedade", relembra Beto Júnior.
E o tratamento foi de verdadeiras obras de arte: contrato de confidencialidade, uso de luvas para o manuseio das peças, embalagem individual e atribuição de valor para definir o seguro. Inclusive, seguranças foram contratados, assim como uma equipe de batedores junto à transportadora.
"Foi o mesmo cuidado que a gente tinha ao trabalhar com grandes artistas no Museu de Arte Contemporânea. Nosso entendimento é que são obras de arte também", explica Beto Jr.
"Algumas peças não recomendamos o transporte por já estarem bastante danificadas. Poderia causar algum outro dano".

Camisa do Flamengo de 81 requer cuidado especial

Camisa do Flamengo no Mundial de Clubes de 1981 é a única de jogo com o nome de Zico nas costas - Divulgação
Camisa do Flamengo no Mundial de Clubes de 1981 é a única de jogo com o nome de Zico nas costasDivulgação
Ainda assim, apesar de todo o cuidado da equipe, Zico não liberou todas as peças para o transporte. Cinco delas ele fez questão de levar por conta própria, diante do valor sentimental inestimável. Entre elas, a camisa do Flamengo utilizada no título do Mundial de Clubes de 1981, a única com o seu nome nas costas em um jogo pelo clube.
Em vídeo promocional do filme, o ídolo rubro-negro chega a brincar sobre a importância dela e de como evita tirá-la de casa. "Falamos que não tinha como atribuir um valor àquelas camisas. Ele levou no carro e foi um alívio para a gente. Essa camisa de 81 é incrível, ninguém encosta nela", diz Beto Jr.

As relíquias de Zico

A camisa de 81, entretanto, não é a única especial para o Galinho. Há também a do primeiro gol pelo Flamengo - em agosto de 1971, quando utilizava o número 7 -, a da estreia pela seleção brasileira. Entre outras dezenas que utilizou por Rubro-Negro, Brasil e Kashima Antlers.
Entre as muitas peças da coleção, também se destacam troféus de títulos e premiações, medalhas, bolas, esculturas, presentes recebidos de Neymar, Gabigol e outros. Até mesmo espada e armadura de samurai, assim como um caderno com anotações do próprio Zico com todos os jogos que disputou e gols que marcou.
Cenário da sala de entrevistas para o documentário sobre Zico tem várias fotos, camisas e troféus - Divulgação / Peter Wrede
Cenário da sala de entrevistas para o documentário sobre Zico tem várias fotos, camisas e troféusDivulgação / Peter Wrede
E muitas fotos em quadros, além de 19 álbuns de momentos com a família, comemorações de gols, lances ao longo da carreira e recortes de matérias de jornais da época (organizados por Sandra, mulher de Zico). Além de dezenas de fitas de gravações de momentos em família e de jogos no Japão, muitas delas utilizadas no documentário.
"Os álbuns de fotografia foram impressionantes para a gente", afirma Beto Jr.

Peça danificada do acervo ganha destaque

Bola de ouro de 1979 é prêmio de melhor jogador brasileiro recebido por Zico e entregue por empresa - Divulgação
Bola de ouro de 1979 é prêmio de melhor jogador brasileiro recebido por Zico e entregue por empresaDivulgação
Dentre tantas relíquias, Zico guarda uma com carinho, mesmo que danificada pelos filhos. E é justamente a história por trás dessa "bola de ouro", recebida como prêmio de melhor jogador de 1979, que faz com que tenha um caráter especial.
"Tem muita coisa, das camisas aos troféus. Mas a mais engraçada é da bola de ouro, que os meus filhos pegaram e foram jogar futebol no playground. Era uma bola original, cheguei em casa, deixei num canto e, no dia seguinte, cadê o troféu? Perguntei à moça que trabalhava lá em casa e ela: 'Que troféu? Era uma bola meio amarela? Vai lá embaixo porque seus filhos estão jogando (risos)", recorda o Galinho.
"Essa bola de 1979, com ele contando essa história, é especial. Fica todo mundo com pena de ver uma obra de arte danificada, mas tem a percepção de que isso não tirou o valor para ele, que guarda com carinho. Incrível como não é o valor material, para Zico é a conquista, o prêmio que ele recebeu, o presente. Não importa se está danificada", comenta Beto Jr.

Experiência especial na carreira

Equipe de museólogos que trabalhou com parte do acervo de Zico teve coordenação de Beto Junior (com a mochila) - Arquivo pessoal
Equipe de museólogos que trabalhou com parte do acervo de Zico teve coordenação de Beto Junior (com a mochila)Arquivo pessoal
Diante de toda a história por trás dessa coleção de Zico, o coordenador do trabalho dos museólogos não esconde a emoção pela experiência única em 25 anos nessa área. Apesar de flamenguista, Beto Jr admite que "não tinha a paixão por Zico como tenho agora".
Por não ser um profundo conhecedor de futebol, precisou de ajuda de dois profissionais torcedores do Flamengo, Rodrigo Reis e Sávio Costa, coordenador e supervisor do MAC respectivamente, para identificar algumas peças do acervo. Mas, agora, o conhecimento sobre o ídolo é completamente outro.
"Esse trabalho mudou totalmente a minha percepção. A figura dele, a pessoa, a história que vimos. E ele é super acessível, brincava com a gente, oferecia autógrafos, levava camisa e boné", relembra.
"Durante os quatro anos que estive na produção do MAC, foram várias exposições e um cenário muito interessante. Mas lidar com um colecionador vivo e emocionado na sua frente, nunca tinha feito. Fiz exposições incríveis, mas a paixão do Zico pelo acervo dele contagiou toda a equipe. Ficamos absurdamente impactados e muito emocionados. Foram dias memoráveis, não esqueceremos", completa Beto Jr.