Niterói: Capa do livro de Alê Motta, que será lançado na Livraria da TravessaReprodução/Ascom
Publicado 01/08/2026 13:35
Niterói - Você caminha pela cidade e, observando ao redor, repara que um morador de rua chora diante de uma borracharia. Em meio a tantas outras, a luz de uma janela se acende, e, de repente, a cortina se fecha. Do outro lado da rua, um vulto passa pela fresta de um portão entreaberto. Mais à frente, apressado, um casal dobra à direita e some da vista. Situações assim atiçaram a imaginação da escritora e arquiteta Alê Motta, que lança seu sexto livro, Pequenos engasgos, pela editora Faria e Silva - e que será lançado em Niterói na Livraria da Travessa, em Icaraí.
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Quem são esses indivíduos? Por que estão ali? O que estão tramando? A autora mira suas micronarrativas em pessoas comuns, que lidam com a vida como ela é, trazendo à tona o que há de trivial e, ao mesmo tempo, perturbador. Em 38 breves pitadas narrativas, o livro disseca as subjetividades ocultas pelo concreto, ferragens, tijolos, telhas e camadas de tinta das casas e dos prédios. São contos concisos, ilustrados e inspirados pelas treze fotografias que a autora capturou de fachadas, portões e janelas, e nas observações que surgem em meio ao engarrafamento na hora do rush.
"Primeiro, pensei em dar o título de ‘Fachadas’, depois, ‘Recortes’. Mas cheguei a ‘Pequenos engasgos’ porque acho que é exatamente isso: recortes, pedaços das vidas atrás das fachadas, onde ninguém está vendo, e onde também acontecem coisas incríveis e detestáveis. São pequenos engasgos nas vidas ali expostas", explica Motta. Há, ainda, uma investigação, dividida em quatro trechos, que costura o livro.
Para o romancista gaúcho Carlos Henrique Schroeder, "Motta compõe personagens que buscam, na boca do engasgo, alguma iluminação". Como no caso do fim trágico do casal bonitão, do futuro improvável dos corredores da praia, do trabalho ingrato num dia de chuva, do ódio velado por quem perturba, ou do medo que ficou maior que a saudade.
Precisa concisão: a obra é composta por textos curtos, minimalistas e fragmentados que funcionam como um caleidoscópio de cenas.
Com um projeto literário que prima pela concisão, Alê alcança nessa nova seleta o impacto das grandes fabulações, inspiradas por aqueles microssegundos em que um pensamento se entala na boca, em que algo se esconde ou se revela, nos embaraça ou nos asfixia. “Faz isso num espaço muito curto, com histórias que parecem pinceladas ficcionais, mas onde se escondem universos inteiros”, como aponta Adriana Lisboa, também na contracapa.
Sem fazer concessões a nenhuma forma de excesso, Alê Motta diz muito com poucas palavras. Sintética, coloca o dedo nas feridas na medida certa, e dispara no leitor os gatilhos do incômodo e da curiosidade. Para a escritora Cíntia Moscovich, que assina a apresentação da obra, "Alê Motta faz com que portas e janelas cedam a seu olhar de ficcionista e revelem enredos que estouram de estranheza, lançando sua crueza miserável e banal em textos minimalistas e precisos".
Como a autora consegue?, questiona Adriana Lisboa para em seguida acrescentar: "Suas brevíssimas narrativas reservam uma reviravolta para o leitor: as coisas nunca são exatamente o que parecem. E costumam abalar nossas certezas de tal forma que, de repente, você se pega achando que até o cachorro do posto Shell talvez saiba mais sobre o mundo do que você."
Afinal, diante de tantas incertezas, será que você conhece, de fato, aquela pessoa com quem você falou, há cinco minutos atrás?
Sobre Alê Motta
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017), Velhos (Editora Reformatório, 2020), O menino que sabia fingir (Grupo Editorial Elo - Editora Perabook, 2024), Minha cabeça dói (Grupo Editorial AltaBooks, Editora Faria e Silva, 2024), Todo mundo, no mundo todo, faz alguma coisa muito bem (Grupo Editorial Elo, Editora Perabook, 2025). Seu livro Velhos tem sido leitura obrigatória em alguns vestibulares de universidades públicas. Alguns dos seus contos foram publicados em Daughters of Latin America: An International Anthology of Writing by Latine Women (HarperCollins, 2023). Em junho de 2026 lança Pequenos engasgos (Grupo Editorial AltaBooks, Editora Faria e Silva).
Agenda de lançamento:
Rio de Janeiro
Dia 07 de agosto, sexta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa em Niterói (Rua Dr. Tavares de Macedo, 240 - Icaraí, Niterói - RJ)
Dia 20 de agosto, quinta-feira, às 19h, na Livraria Janela Laranjeiras (Rua General Glicério, 324 - Laranjeiras - Rio de Janeiro - RJ)
São Paulo - a confirmar
Ficha técnica:
Título: Pequenos engasgos
Autora: Alê Motta
Editora: Faria e Silva
Gênero: contos
Número de páginas: 80
Ano: 2026
Lançamento: junho de 2026
Preço: R$ 45,90 / e-book: R$32,10
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