Publicado 13/08/2026 15:20
Vamos começar nosso artigo com um teste: leia, atentamente, as seguintes afirmações e reflita, francamente sobre o quanto você concorda ou não com elas: “Professor é missionário! É vocacionado e resistente! Professor supera dificuldades e improvisa soluções! O verdadeiro professor prende a atenção até mesmo dos alunos mais agitados e dos mais dispersos! Se os alunos não estão interessados na aula, é porque o professor não soube prender a atenção!”. Refletiu? Pois é... por trás dessa narrativa romantizada existe uma realidade dura, silenciosa e cada vez mais preocupante: os professores estão adoecendo.
PublicidadeAgora vamos à realidade, nada romântica: estudos recentes apontam que cerca de um em cada três professores sofre de burnout – síndrome de esgotamento físico e emocional causada pelo trabalho. Entre 30% e 70% apresentam sintomas severos de exaustão. Mais da metade convive com ansiedade frequente e quase metade relata cansaço extremo. Esses números revelam que o problema deixou de ser individual e tornou-se coletivo. Estamos diante de uma epidemia silenciosa dentro das escolas.
Atualmente, a pressão por múltiplas demandas pressiona os professores por todos os lados. Precisa ensinar, acolher emocionalmente os alunos, resolver conflitos, lidar com famílias ausentes ou agressivas, preencher relatórios, cumprir metas, enfrentar indisciplina, adaptar conteúdos, incluir os deficientes e ainda manter resultados satisfatórios. Esse repertório, muitas vezes, se desenrola em ambientes sem estrutura adequada e, tudo isso regado a baixos salários e desvalorização social. O resultado, é claro, aparece no corpo e na mente.
As escolas e redes de ensino já sentem as consequências de forma contundente nos afastamentos médicos, na desmotivação e, infelizmente, no abandono da profissão. E quando um professor adoece, toda a educação adoece. Um professor emocionalmente exausto dificilmente conseguirá formar emocionalmente alguém. Durante anos, a sociedade naturalizou frases como “professor trabalha por amor” ou “quem ensina precisa ter vocação”. O problema é que nenhuma vocação sobrevive indefinidamente sem cuidado e atenção.
O debate sobre saúde mental do professor não pode mais ser tratado como assunto secundário. Cuidar do professor não é luxo, nem favor. É política pública. É investimento social. É defesa da própria educação. Talvez o maior erro da sociedade tenha sido esperar que justamente aqueles que cuidam de todos continuassem, sozinhos, sem que ninguém cuidasse deles.
Júlio Furtado é orientador educacional e escritor
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