Rio de Janeiro

A vida dos refugiados da Venezuela no Rio

Primeiro capítulo da série 'Depois da fronteira' mostra tensão de venezuelanos no Brasil em meio ao estremecimento da relação política entre os dois países

Por Bernardo Costa e Maria Luisa de Melo

Rio - Assim que cruzou a fronteira com o Brasil, o venezuelano Christian Martinez, de 26 anos, recebeu um telefonema da mãe. Ela estava aflita. Membros da inteligência militar haviam sequestrado um parente para ter informações sobre o paradeiro do militar. Martinez, que era sargento no estado de Nueva Esparta, diz ter desertado das Forças Armadas para não ser obrigado a lutar contra o seu próprio povo. Ele foi um dos 97 mil venezuelanos que deram entrada no Brasil com pedido de refúgio ou residência temporária em 2018. Em média, foram 265 pedidos de ajuda por dia no ano passado. Os venezuelanos que chegam aqui convivem com medos e incertezas, sentimentos agravados pela tensão entre Brasil e Venezuela. É o primeiro capítulo da série 'Depois da fronteira'.

Os venezuelanos em busca de um recomeço pensam nos parentes que ficaram. O maior medo é não poder mais cruzar a fronteira para reencontrar a família, caso haja um conflito armado entre Brasil e Venezuela, hoje inimigos. O então militar Martinez fez a travessia com Roraima com a consciência de que poderia ser um caminho sem volta. Hoje, mora em uma quitinete em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Os recentes apagões na Venezuela, que chegou a ficar três dias sem luz, dificultam o contato e aumentam a preocupação. O termo 'traidor', atribuído pelo governo de Nicolás Maduro aos cidadãos que saíram do país, aumenta a apreensão. "Eu amo a Venezuela e sonho em voltar. Não fugi por covardia. Discordo de um governo que massacra seu povo e espero ser anistiado quando tudo isso passar".

Estefan Radovicz / Agência O Dia
O sargento Christian Martinez diz ter desertado das Forças Armadas venezuelandas para não ser obrigado a lutar contra o próprio povo - Estefan Radovicz / Agência O Dia

FOME E SOBREVIVÊNCIA

Por ser militar, ele conta que tinha certos privilégios e não chegou a passar fome quando ainda estava na Venezuela. Mas a professora de Biologia Yelitza Lafont, de 44 anos, que hoje trabalha numa loja de conveniências no Itanhangá, também na Zona Oeste, não teve a mesma sorte. Sem emprego e alimento no seu país, ela chegou ao Brasil em julho de 2018 com um de seus cinco filhos. Os outros ficaram com o pai. "Senti muito medo de acontecer algo com eles e eu não encontrá-los nunca mais".

Ao chegar em Roraima, morou cinco meses na rua, se alimentando dos restos deixados na lixeira de um supermercado. Tudo que recebia com 'bicos', mandava para a família. Na semana passada, se reencontrou com os filhos e com o marido que não via há oito meses. "Meus irmãos estão passando fome. Agora, a fronteira está fechada", conta.

Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
A professora de Biologia Yelitza Lafont hoje trabalha numa loja de conveniências no Itanhangá - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia

TENSÃO ENTRE OS PAÍSES

Yelitza acredita que a tensão com o Brasil pode prejudicar a situação dos venezuelanos por aqui. "Quando pedi informações sobre uma vaga de emprego na Barra, disseram que o presidente Bolsonaro não quer nada com os venezuelanos. Fiquei revoltada e triste". Georddy Xavier, de 26 anos, que trabalhava como cinegrafista em uma TV estatal, demonstra preocupação. No Rio, ele aprendeu o ofício de pizzaiolo para sustentar a mulher e as duas filhas. "Enquanto Maduro estiver no poder, não podemos voltar. Ele nos chama de traidores. Se regressarmos, podemos ser presos ou até mesmo mortos", diz.

O aumento dos pedidos de refúgio e residência temporária de venezuelanos no Brasil explodiu em 2018 - Arte: Francisco Silva
AUMENTO DE 2.700%

Desde fevereiro, após pressão para que Maduro aceitasse ajuda humanitária de outros países, a fronteira entre Brasil e Venezuela foi fechada, dificultando a chegada dos 'hermanos' em solo brasileiro. Neste ano, a média é de 250 solicitações por dia. O Brasil é o segundo maior destino dos venezuelanos após a crise humanitária. O Peru lidera a lista. Desde 2016, os registros no país cresceram 2.700%, segundo a Polícia Federal.