Rio de Janeiro

Venezuelanos lutam por emprego no Rio

Longe da terra natal, migrantes buscam trabalho para ajudar parentes

Por BERNARDO COSTA E MARIA LUISA DE MELO

Rio - A saga para chegar ao Brasil mesmo sem recursos para pagar uma passagem de ônibus não tem sido o maior desafio enfrentado pelos venezuelanos. O problema é o que acontece depois da fronteira. No segundo capítulo da série Depois da Fronteira, O DIA fala sobre a luta pela sobrevivência dos migrantes. Na cidade de Paracaima, no estado de Roraima, divisa entre os dois países, eles sofrem na pele com o preconceito e com a violência. O local, aliás, foi bloqueado há dois meses por determinação do presidente venezuelano Nicolás Maduro, dificultando a vida de quem busca uma rota de fuga da crise. Para minimizar problemas, o governo federal já transferiu 4.882 venezuelanos para outros 17 estados. É o chamado 'programa de interiorização', como foi batizada a ação, que começou em fevereiro de 2018.

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Os bebês da Venezuela no Brasil

No estado de origem, começa a busca por trabalho. Glendy Josefina, de 48 anos, foi uma das atendidas em um mutirão de emprego organizado no mês passado no Rio. O evento foi voltado exclusivamente para venezuelanos. Com o papel de agendamento da entrevista de emprego em mãos, Glendy teve suas esperanças renovadas. Com um salário, ela acredita que poderá trazer os cinco netos, o filho e a nora para a cidade. Eles também cruzaram a fronteira. Mas não conseguiram sair de Boa Vista, capital de Roraima. "Só assim vou ter condições de reunir a minha família de novo. Sonho com isso todos os dias", sorri Glendy, que chegou ao país em julho de 2018.

Veja em que estados os venezuelanos que entram no Brasil por Roraima buscam refúgio - Arte: Francisco Silva

À espera de dias melhores

A cabeleireira transexual Albert Josué Maita-Maita, de 23 anos, também sonha com dias melhores. Albertiane, como é mais conhecida, trabalhava em um salão de beleza na cidade de Cumaná, na costa Norte da Venezuela. Ela está há sete meses no Brasil. "Não aguento mais não ter uma fonte de renda. Minha mãe está passando fome na Venezuela e não tenho como ajudá-la. Eu tinha a expectativa de arranjar emprego e enviar dinheiro para a minha família quando cheguei ao Rio", lamenta.

Albertiane acredita que o preconceito por causa da sua orientação sexual possa estar relacionado com a dificuldade para conseguir um emprego. Por isso, não usa mais brincos, batom ou vestidos. "Eu continuo batendo de porta em porta".

Acolhimento e dificuldades

Ela foi uma das 128 pessoas recebidas pela ONG SOS Aldeias Infantis desde junho do ano passado. A organização é a única parceira do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) autorizada a abrigar venezuelanos no Rio. Na sede da ONG, no Itanhangá, Zona Oeste, os acolhidos passam até três meses em um conjunto de casas amplas próximo à Floresta da Tijuca. É o período para arranjarem emprego e uma nova moradia. Mas nem todos conseguem. Albertiane, por exemplo, se mudou dali e paga o aluguel de um quarto na comunidade do Morro do Banco, também no Itanhangá. Ela sobrevive de doações de amigos e alimentos fornecidos pela ONU, que também repassa uma ajuda mensal de R$ 91 para itens de higiene pessoal.

Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Albertiane está desde setembro de 2018 no Brasil - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia

ONU recolhe doações em dinheiro

Porta-voz da Agência da ONU para Refugiados, Luiz Fernando Godinho defende que a empregabilidade dos venezuelanos é apenas um dos desafios dos acolhidos. “Nossa prioridade é ajudá-los de diferentes formas. O programa do governo federal é fundamental, porque retira a pressão da Região Norte do país e permite que os venezuelanos passem três meses abrigados até se inserirem no mercado de trabalho”, explica.

Principal apoiadora da estratégia de interiorização, a Acnur é a responsável por reformas de infraestrutura, melhoria dos abrigos parceiros e pela colaboração com custos administrativos. O órgão aceita doações em dinheiro pelo site https://doar.acnur.org/acnur/venezuela.html.