Confusão teve início quando as vítimas saíam de um show no Casarão do FirminoReprodução/Google Maps
Publicado 22/01/2024 18:55 | Atualizado 24/01/2024 12:57
Rio -Diversos políticos lamentaram, nesta segunda-feira (22), as agressões sofridas por três mulheres, duas delas transsexuais, após um show de samba no Casarão do Firmino, na Lapa, entre a madrugada de quinta-feira (18) e a manhã de sexta (19). Em publicações nas redes sociais, os parlamentares afirmam que acompanharão o caso e destacaram a busca por justiça.
A vereadora Luciana Boiteaux (Psol) se solidarizou com as vítimas, que preferiram não se identificar, e afirmou que está à disposição para cobrar apuração do caso por parte das autoridades.
"Em pleno Janeiro, em que celebramos o dia da visibilidade e orgulho trans (29), uma violência como essa não pode ficar impune ou não receber a devida resposta e revolta da população. Nossa mandata se solidariza com as vítimas e se coloca a inteira disposição tanto para cobrar das autoridades a apuração do caso, quanto para atendê-las na nossa central A.Colher ou quaisquer outras ações que elas ou o movimento venham a construir. Transfóbicos, não passarão", postou Boiteaux.
Primeira deputada estadual transsexual do Rio, Danieli Balbi (PCdoB) informou que está acompanhando as investigações e se colocou à disposição para acolher as moças.
"A violência física perpetrada incluiu chutes, socos e empurrões, sendo agravada por comentários transfóbicos que visavam 'justificar' a aplicação da força bruta contra duas das vítimas. Frases como 'pode bater que é tudo homem' e 'nela eu não bato, mas em vocês DOIS e meto a porrada' foram proferidas durante esse ato de extrema violência. Ignorar esse tipo de violência é, em última instância, consentir com ela. Nossa mandata está desde que foi notificada por testemunhas, acompanhando a investigação. E, além disso, se coloca à disposição para acolher e continuar ouvindo as vítimas nesse momento tão difícil. Buscaremos até o fim justiça", publicou Balbi.
A deputada Renata Souza (Psol) colocou a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativo do Rio (Alerj) à disposição das jovens.
"As jovens relatam ter sofrido violências tanto dos seguranças da casa de festas quanto de mais de 15 homens que estavam na rua, e que, ao perceberem que L. e A. eram mulheres trans. Ao chegar na delegacia, relatam que ainda tiveram que enfrentar mais uma violência para prestar depoimento. Apesar de ambas trabalharem no campo da produção de moda, como designers e modelos, na delegacia disseram que houve a tentativa de colocá-las como profissionais do sexo e culpá-las pela violência que sofreram. É preciso que os espaços de cultura tenham compromisso com a segurança do público e construam protocolos que previnam situações de quaisquer tipos de violência e agressão", escreveu a parlamentar.
Neste domingo (21), umas das moças publicou um desabafo nas redes sociais. Ela conta que está com o nariz quebrado e diversos hematomas, aguardando por uma cirurgia. 
"Eu e L. estamos com nossos corpos cheios de hematomas e eu, com meu nariz ainda quebrado aguardando uma cirurgia e o estabelecimento sequer publicou uma nota sobre o ocorrido, tudo continua acontecendo normalmente como se eu e minhas irmãs não tivéssemos quase morrido na frente desse lugar. Fui espancada por um grupo de homens, dentre eles seguranças, ambulantes e motorista do aplicativo. Que após me retirar agressivamente do samba, iniciaram uma agressão verbal com falas transfóbicas como: 'pode bater que é tudo homem', 'nela (minha irmã sis) eu não bato mas em vocês dois eu meto a porrada', 'eu pensava que era mulher, senão já tinha batido antes', nos jogaram no chão e nos chutaram por todo o corpo, cabeça e rosto.", contou.
"Os seguranças do casarão fizeram uma barreira humana na rua e impediram de o táxi sair, falaram que a gente não iria sair dali, eu peço do taxista que fechasse pelo menos a janela do carro para que pudéssemos ficar um tempo sem apanhar, mas um deles vem ao carro e tira a chave da ignição antes mesmo que ele possa subir os vidros, nesse momento eles tiram o taxista de dentro do carro a força e voltam a nos agredir dentro do carro, falam para gente descer e sair andando de lá (em matéria uma testemunha diz que a ideia era nos bater mais em uma rua sem câmeras, que eles queriam nos matar) começo a dizer que parem, que estamos muito machucadas e um deles abre a porta de onde estou e da um pisão em meu rosto que estourou meu supercílio e quebrou meu nariz e me jogou no chão", continua Z.
Na manhã de sábado, uma das mulheres agredidas conversou com o DIA e relatou as agressões físicas e verbais sofridas por elas e suas irmãs por mais de 15 homens. A modelo contou que as três foram tiradas a força do Casarão do Firmino por seguranças após uma confusão no interior do estabelecimento. "Arrastaram a gente como se a gente fosse sacos de lixo, a gente tinha acabado de ter uma noite extremamente divertida, a gente não entendeu o porquê de toda aquela injustiça", disse.
Quando as irmãs tentaram embarcar no carro de aplicativo que haviam pedido para ir embora, o motorista teria se recusado a levá-las, por estarem envolvidas na briga e passado a filmar a confusão. Uma das mulheres, então, agrediu o homem que, junto com os seguranças e vendedores ambulantes, teriam passado a incitar a violência contra o trio e as chamaram de "vagabundas".
Em entrevista ao DIA, o motorista de aplicativo relatou que trabalhava no momento que uma garrafa de vidro danificou seu veículo, em frente ao estabelecimento. Ele saiu do automóvel para gravar a cena com objetivo de acionar o seguro. A filmagem mostra que uma mulher tenta tirar seu celular e, em seguida, ele aparece com um ferimento no rosto. O homem disse também que levou um soco e se sentiu acuado.
As três caminharam até a esquina do Casarão, ainda sendo alvo dos xingamentos. Um ambulante se aproximou delas e disse que só não bateria na mulher cisgênero. "Eu não bato em mulher, em homem eu bato", teria dito, mas acabou a agredindo com socos quando ela o chamou de covarde, momentos em que as irmãs tentaram contê-lo.
"Foi revoltante um homem daquele tamanho batendo nela, ele, obviamente, tinha muito mais força que ela. É tanta covardia e eles amam bater no peito e querer ser o 'machão', valentão, mas é muito fácil ser para cima de mulher, porque eles sabem que a gente não têm mais força que eles e eles podem fazer o que quiser", afirmou a modelo, que contou ainda que, nesse momento, outros homens, entre os seguranças do estabelecimento e ambulantes, apareceram e a briga se tornou generalizada. "Pode espancar que é tudo homem", um deles teria falado.
Durante a confusão, a modelo acabou caindo e continuou recebendo chutes de diversos homens. "Eu só pensava: 'Deus, faça com que eu e minhas irmãs saiamos daqui vivas'". Um pouco depois, algumas mulheres chegaram perto delas e conseguiram as colocar dentro de um táxi, mas o grupo as seguiu e impediu que o veículo saísse, tirando a chave da ignição. "Parecia uma cena de The Walking Dead (seriado de TV dos Estados Unidos), eu estava dentro de um carro tentando fugir de vários zumbis, eu só via os braços deles tentando agredir a gente de qualquer forma".
Depois de alguns minutos, elas desistiram de ir embora no táxi e foram levadas pelas mulheres até uma viatura da Polícia Militar próxima. Com uma das irmãs desacordadas, a modelo abriu a porta da viatura e a colocou no banco de trás, mas os policiais teriam gritado para ela sair e chegaram a apontar as armas. Somente após elas explicarem a situação, eles disseram que se elas estavam feridas deveriam ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e que só poderiam levá-las para a delegacia, o que foi aceito pelo trio.
Na delegacia, segundo a mulher, mais momentos de violência ocorreram. "Quando as pessoa veem duas travestis negras pedindo ajuda, elas entram em todos os estereótipos possíveis para poder deturpar a história e fazer com que (falem): 'Elas fizeram alguma coisa, elas causaram isso'. Toda hora a escrivã tentava deturpar, colocar que a gente estava em casa noturna, mas a gente estava no samba, colocar alguma conotação de que nós éramos prostitutas. Toda hora ela colocava em dúvida as coisas que a gente estava falando", desabafou.
Dois seguranças do Casarão e o motorista de aplicativo também foram ouvidos na distrital. A modelo disse que ainda sente dores no pescoço, costelas e na cabeça e ficou com escoriações, bem como as irmãs. Uma delas também teve o nariz quebrado. Para a mulher, o trio foi vítima do machismo e da violência de gênero.
"Não sei como eu consegui ficar de pé, porque eu fui atropelada pelo machismo, com certeza. O machismo é um caminhão sem escrúpulos. Um homem se fortaleceu ali no outro, ainda mais depois que invalidaram nossa 'mulheridade', eles criaram mais energia de ódio para poder despejar sobre a gente. Eram homens que não tinham nada a ver com a situação, foram homens que se fortaleceram entre eles para acabar com as nossas vidas. Três mulheres contra vários homens, uma cena muito covarde", lamentou.
O caso está sendo investigado pela 5ª DP (Mem de Sá). A Polícia Civil informou que "os envolvidos foram ouvidos e os agentes buscam testemunhas e imagens de câmeras de segurança da região".
Procurado, o Casarão do Firmino afirmou que está sendo alvo de fake news. "O samba havia terminado quando um grupo, já do lado de fora, começou a arremessar garrafas em direção à grade onde ficam os colaboradores. Dois seguranças foram atingidos e, mesmo feridos, prestaram depoimento em sede policial, sendo encaminhados em seguida para exame de corpo de delito".
O estabelecimento ressaltou também que é um "espaço de resistência, alegria e amor" e que "repudia com veemência todos os tipos de violência. Com a mesma força, combate qualquer mentira criada para ocultar os verdadeiros provocadores e culpados dessa confusão".
Publicidade
Leia mais