Mulher trans denuncia ter sido agredida em uma casa de show na Lapa, no Centro do RioReprodução/Redes sociais
Publicado 25/01/2024 19:04
Rio - Movimentos sociais que lutam contra a LGBTfobia organizam um ato, nesta sexta-feira (26), em repúdio às agressões transfóbicas e racistas sofridas por duas mulheres trans e negras na saída de um evento no Casarão do Firmino, na Lapa. Os manifestantes vão se concentrar às 19h, na Cinelândia, no Centro do Rio. De lá, o grupo vai fazer passeata até o local onde aconteceram as agressões, na madrugada da última sexta-feira (19).
Diante do ocorrido, que teve ampla repercussão e provocou uma onda de indignação entre as entidades em defesa da diversidade, ativistas da Frente LGBTIA+ do Rio de Janeiro, que organizam o ato, definiram seis demandas urgentes direcionadas ao poder público, e que serão pauta durante a manifestação. São elas:
- Fim da violência contra a população LGBTIA+ na Lapa
- Rigorosa punição de todos os envolvidos no crime
- Responsabilização cível do estabelecimento, com base na Lei Estadual Antidiscriminação em Estabelecimentos Comerciais
- Exigência de um sistema de monitoramento por câmeras e implementação de protocolos de segurança nos estabelecimentos da Lapa
- Canais seguros para denúncia e acolhimento de violências LGBTfóbicas e machistas
- Mudança no comando da 5ª DP (Mem de Sá) devido ao que afirmaram ser 'comprovada incapacidade de investigar e processar absolutamente todos os crimes conhecidos entre ativistas LGBTIA+ na região'.
"Um lugar de fomento de cultura, no qual se pretende celebrar a vida e a alegria, deveria acolher e respeitar todas as pessoas e não agir com truculência e promover o preconceito. A região da Lapa costumava ser um reduto cultural para a diversidade, mas nas últimas semanas houve dezenas de casos de violência contra pessoas LGBTIA+, sem responsabilização dos culpados. O Brasil é o país que mais mata a população trans e travesti no mundo. Não podemos admitir atitudes bárbaras em um Estado Democrático de Direito. A impunidade não pode prevalecer. É por nossas vidas!", disse em comunicado a Frente LGBTIA+.
Seguranças envolvidos na agressão foram afastados
Nesta quinta-feira (25), o Casarão do Firmino afirmou que providenciou o afastamento preventivo dos seguranças envolvidos nos acontecimentos até o fim das investigações. Ainda segundo a casa de eventos, para garantir que episódios assim não aconteçam mais, os responsáveis do local se comprometeram em promover treinamento especializado para a equipe, além de outras medidas.
O Casarão do Firmino ficará fechado para eventos neste fim de semana. "Priorizando o momento de ouvir, aprender e mudar, decidimos manter o Casarão do Firmino fechado neste fim de semana para que, em sua reabertura, seja um ambiente acolhedor, inclusivo e seguro", disse a Casa.
O caso
A Polícia Civil investiga as agressões contra duas mulheres trans após um show de samba no Casarão do Firmino, na Lapa, na madrugada desta sexta-feira (19). Testemunhas afirmam que as vítimas foram espancadas por seguranças do estabelecimento após uma confusão na saída.
Segundo uma das vítimas, que trabalha como modelo, a confusão teve início na saída do show, quando uma delas foi empurrada por um homem em uma fila e a modelo o empurrou de volta. Nesse momento, as três, que estavam com outra amiga, foram levadas para fora à força por seguranças. Do lado de fora, uma discussão teve início. Quando as irmãs tentaram embarcar no carro de aplicativo que haviam pedido para ir embora, o motorista teria se recusado a levá-las, por estarem envolvidas na briga. Conforme o relato, o motorista, posteriormente, passou a filmar a confusão. Uma das mulheres, então, agrediu o homem, que, junto com os seguranças e vendedores ambulantes, teriam passado a incitar a violência contra o trio e as chamaram de "vagabundas".
Durante a confusão, uma das mulheres acabou caindo e continuou recebendo chutes de diversos homens. Algumas mulheres chegaram perto delas e conseguiram as colocar dentro de um táxi, mas o grupo as seguiu e impediu que o veículo saísse, tirando a chave da ignição. Depois de alguns minutos, elas desistiram de ir embora no táxi e foram levadas pelas mulheres até uma viatura da Polícia Militar próxima. Com uma das irmãs desacordadas, a modelo abriu a porta da viatura e a colocou no banco de trás, mas os policiais teriam gritado para ela sair e chegaram a apontar as armas. Somente após elas explicarem a situação, eles disseram que se elas estavam feridas deveriam ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e que só poderiam levá-las para a delegacia, o que foi aceito pelo trio.

Na delegacia, segundo a mulher, mais momentos de violência ocorreram. "Quando as pessoa veem duas travestis negras pedindo ajuda, elas entram em todos os estereótipos possíveis para poder deturpar a história e fazer com que (falem): 'Elas fizeram alguma coisa, elas causaram isso'. Toda hora a escrivã tentava deturpar, colocar que a gente estava em casa noturna, mas a gente estava no samba, colocar alguma conotação de que nós éramos prostitutas. Toda hora ela colocava em dúvida as coisas que a gente estava falando", desabafou.

Dois seguranças do Casarão e o motorista de aplicativo também foram ouvidos na distrital e as vítimas passaram por exame de corpo de delito. Uma delas teve o nariz quebrado, outra fraturou a costela. Para a mulher, o trio foi vítima do machismo e da violência de gênero.
A Polícia Civil informou que "os envolvidos foram ouvidos e os agentes buscam testemunhas e imagens de câmeras de segurança da região". No entanto, a 5ª DP não atualizou mais o caso e não respondeu se conseguiu analisar imagens.
O que diz o Casarão do Firmino
A casa, inicialmente, negou envolvimento dos seguranças e tratou a denúncia como "fake news". Nesta segunda-feira, houve mudança no tom do posicionamento. Por meio de conta no Instagram, o espaço afirmou que "lamenta profundamente os fatos ocorridos na madrugada da última sexta-feira (19). A casa se sensibiliza com o relato das vítimas, e garante não tolerar qualquer tipo de violência, principalmente atos que possam ser decorrentes de discriminação".
Nesta quinta-feira (25), um novo comunicado foi feito. O estabelecimento voltou a lamentar o caso e disse ter entrado em contato com os advogados para oferecer o apoio necessário às vítimas. "Informamos também que seguimos colaborando com a investigação a fim de auxiliar as autoridades na resolução do caso o mais breve possível", disse por meio de nota.

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