Prédio na Avenida Venezuela teve os acessos concretados e concertinas foram instaladas para impedir novas ocupaçõesReginaldo Pimenta/Agência O Dia
Publicado 14/10/2025 06:00
Rio - Um mês após a retirada de 120 famílias sem-teto da Ocupação Luísa Mahin - Palestina Livre, parte delas voltou a morar em áreas de risco e sobrevive atualmente com a ajuda de doações de cestas básicas. O grupo, que havia tentado ocupar um prédio na Avenida Venezuela, no Centro do Rio, foi removido pela Polícia Militar e pela Prefeitura do Rio no dia 7 de setembro. Na ocasião, houve confusão e até uso de gás de pimenta para dispersar o grupo.
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A reportagem de O DIA esteve no imóvel nesta segunda-feira (13) e constatou que o espaço teve os acessos concretados. Além disso, foram instaladas concertinas (cercas de arame farpado em formato espiral) para impedir uma nova tentativa de ocupação.
Veja as fotos:

Dona Enita de Fátima, de 57 anos, participou da ocupação e diz viver uma luta diária para manter o aluguel e custear itens básicos, como alimentação e medicamentos. "Estou passando por uma situação difícil desde o despejo. Eu e minha filha sofremos uma grande humilhação naquele dia. Jogaram gás de pimenta e até bomba. Minha filha saiu com o nariz sangrando e desenvolveu uma hemorragia. Hoje pago caro no aluguel e o pouco dinheiro que sobra vai para o remédio dela, que custa cerca de R$ 450. Tem dia que ela nem consegue ir para a escola", diz.

Adrian Santos, da coordenação estadual do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que acompanha as famílias, afirma que não houve diálogo com a prefeitura. Segundo ele, desde o despejo, o grupo não recebeu nenhum tipo de apoio. Para amenizar a situação, o movimento iniciou uma campanha nas redes sociais para arrecadar cestas básicas.

"Desde o dia 7 de setembro, as famílias não receberam nenhum tipo de suporte. Estão vivendo em áreas de risco, em comunidades marcadas pela violência urbana. Apesar de o movimento ter tentado contato, a prefeitura não deu retorno. Então, fizemos uma campanha nas redes sociais e conseguimos arrecadar cestas básicas para ajudar a complementar a renda dessas famílias", afirma Adrian.

O MLB pretende agora cobrar da prefeitura informações sobre o número de moradias populares construídas nos últimos anos para a população de baixa renda.

O que diz a prefeitura do Rio

Na época da desocupação, o prefeito Eduardo Paes afirmou que o imóvel não estava abandonado e que passaria por obras para abrigar o Centro Cultural Rio-Áfricas, dedicado à diáspora africana para o Brasil.

Questionada mais uma vez sobre o assunto, a prefeitura informou, por meio de nota, que as obras devem começar após a finalização do projeto e a obtenção das licenças, com previsão de início em 2026. "O Centro Cultural Rio-Áfricas é uma iniciativa realizada pela Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) e pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), dedicada à ancestralidade afro-diaspórica, em prédio que será cedido à Prefeitura pela iniciativa privada", informa um trecho da nota.

Sobre as famílias, o órgão afirmou que elas não estavam alojadas no local: "Sobre as famílias, que não estavam alojadas no local, agentes da Prefeitura atuaram em apoio a uma ação da Polícia Militar para evitar a invasão de prédio privado."
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