A região do Lote 2, em Santa Cruz, foi bastante castigada pela chuva desta quinta (26)Érica Martin/Agência O Dia
Publicado 27/02/2026 16:47 | Atualizado 27/02/2026 18:23
Rio – A sensação que tomou muitos moradores do Lote 2, em Santa Cruz, na Zona Oeste, na manhã desta sexta-feira (27), foi a de filme repetido. Após a forte chuva que teve início na noite anterior, muitas casas foram invadidas pela água, algo que, segundo deles, é recorrente no bairro, que teve acumulado de 94,2 mm.
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Confira fotos de como ficou o Lote 2 após a chuva que começou nesta quinta (26):
Morador da Rua Pentecoste, o instrutor de trânsito Ricardo Santos, 56 anos, não chegou a ter grandes sustos, mas destacou que vizinhos de outros endereços voltaram a sofrer com a chuva. Alguns moradores da região precisaram ser resgatados de barcos pelo Corpo de Bombeiros. 
Ele e outros moradores afirmaram que a nova enchente é consequência de uma série de problemas, como falta de dragagem de um rio próximo, o Cação Vermelho, e de modernização da rede de escoamento, que não dá conta em dias de temporal.
"Lote 2 está abandonado. Moro aqui há 50 anos e nada mudou. Daquela esquina para lá, não tem uma boca de lobo, não tem nada. Quando chove demais, a água de lá só sai quando esvazia aqui. Se fosse feita limpeza aqui uma vez ao ano, já estaria bom demais", lamentou Ricardo, comentando o drama de vizinhos: "Muita gente perdeu tudo. A partir das 20h, quando começou a chuva, os moradores não dormiram, porque entra água em casa. Eles ficaram preocupados em salvar alguma coisa, uma geladeira, um sofá. E muita gente nem conseguiu fazer isso".
O caminhoneiro Sanclair Duarte, 53, foi um dos que teve prejuízo. Ele relatou que chegou do trabalho por volta de 2h30 e encontrou a água com cerca de 30 cm dentro da casa em que vive, o que o fez perder alguns bens: "A água retornou pelo sanitário e foi se espalhando por banheiro, quarto, sala... Danificou o lavatório do banheiro, o rack da TV. Agora é trabalhar e entregar na mão de Deus".
Ele também reclamou da falta de modernização no sistema de escoamento do Lote 2.  "Moro aqui desde 1999, e esse esgoto é muito precário. Na época, foi feita uma coisa básica, porque tinha pouca população. Com o passar do tempo, essa população foi aumentando, mas a rede não foi substituída por uma mais apropriada. É uma saída de esgoto para quase três quarteirões no bairro. Meu sogro veio morar aqui nos anos 1970, viu a construção e contou que depois nada foi trocado", lembrou.
"Alagou tudo. Perdi minha geladeira, as roupas das minhas filhas. Meu cachorro está em cima da minha cama porque está tudo cheio de água. Estou desesperada”, admitiu a moradora Maria Clara.
Hilda Couto, 73, detalhou o transtorno e os prejuízos que precisou enfrentar nesta madrugada. "Minha casa ficou toda alagada. Acordei no meio da água. Perdi as compras e até meus dentes. Quase que morro afogada. Estava de pé às 5h, com meu filho me acordando", lamentou.
A aposentada lembrou que ter a casa tomada pela água no Lote 2 não é uma situação atípica. Na ocasião mais recente, aliás, o cenário foi pior: "Não perdi minha vida e estou com saúde para recomeçar. Graças a Deus não perdemos muito, porque da última vez, perdemos tudo".
A também aposentada Maria da Silva, 72, acrescentou sobre a prevenção contra enchentes pouco efetiva implementada na área: “Moro aqui há 40 anos, nunca vi melhorias. Quando chove muito, sempre acontece isso. O rio transborda...”.
Outras preocupações
O transbordamento do rio Cação Vermelho, citado por dona Maria, acarreta outros problemas, que não só a perda de bens materiais. "Não entrei em casa por medo de tomar choque, porque a energia estava em contato com a água. Por isso procurei ficar lá fora. E quando foi umas 5h, decidi entrar", recordou Sanclair.
"O rio enche e traz um monte de doença para cá", observou Ricardo. Hilda revelou uma "surpresa" levada pelas águas para a sua residência: "Tinha uma cobra no meu quintal".
Os afetados pela cheia foram recebidos no CIEP 1⁰ de maio, onde encontraram serviços como posto de vacinação, doação de água e roupa e cadastro de um cartão alimentação.
E enquanto ainda tentam se reerguer em meio aos danos causados pela última chuva, os moradores do Lote 2 já se preocupam com a possibilidade de um próximo temporal:
"Vou ter que subir para casa da minha filha, que mora no andar de cima", comentou Maria. "Quem vai dormir com uma chuva dessa sabendo do sistema precário daqui?", questionou Ricardo.
Procurada após as reclamações dos moradores, a Prefeitura do Rio retornou com uma nota sobre medidas paliativas. De acordo com o posicionamento, a Secretaria Municipal de Conservação mantém equipes na ativa, com caminhões conjugados, basculantes e retro-escavadeiras em locais com bolsões d’água.
A Prefeitura acrescentou que segue monitorando as condições climáticas, com equipes em prontidão nas áreas mais impactadas.
A reportagem também fez contato com o Governo do Estado, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto.
*Colaborou Érica Martin
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