Conselheira tutelar registrou caso na polícia depois de ameaças em redes sociaisReprodução
Publicado 22/05/2026 21:06 | Atualizado 22/05/2026 22:30
A conselheira tutelar Patrícia Felix passou a viver sob ameaças, ofensas e ataques após atuar no encaminhamento de denúncias contra grupos de “justiceiros” que atuam na Zona Sul. Segundo ela, as intimidações começaram depois da repercussão da decisão judicial que proibiu William Correia da Silva Junior, apontado pelo Ministério Público como líder do grupo “Anjos da Guarda Vigilância Comunitária” (AGVC), de promover ou incentivar ações de vigilantismo envolvendo crianças e adolescentes.
Patrícia registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). Segundo o boletim, o caso foi registrado como injúria por preconceito, ameaça e injúria.

De acordo com a conselheira, ouvida pela reportagem de O DIA as ameaças se intensificaram após publicações feitas nas redes sociais criticando a atuação do Conselho Tutelar e do Ministério Público. Entre os comentários direcionados a ela, havia mensagens como: “Tem que invadir a casa dela e tocar fogo em tudo”, “Não é possível que alguém não atropele ela atravessando a rua”, “Maldita desgraçada”, “Piranha vagabunda” e “Sou o primeiro a torcer para que ela sofra nas mãos desses vermes”.

“Não estou aqui disponível para ficar recebendo ameaças. Cada pessoa que me atacou foi incluída na minha denúncia. As pessoas precisam ser responsabilizadas”, afirmou Patrícia.

A conselheira diz que os ataques ultrapassaram qualquer debate sobre segurança pública e passaram a atingir diretamente sua atuação profissional e pessoal.

“Estou sendo ameaçada de morte, sendo difamada e sofrendo racismo pela internet. Mas existem leis nesse país”, declarou.

Patrícia é uma das responsáveis por encaminhar ao Ministério Público denúncias envolvendo agressões contra adolescentes atribuídas aos chamados grupos de “justiceiros” de Copacabana. Segundo ela, o Conselho Tutelar começou a receber uma quantidade crescente de comunicados de violação de direitos vindos de famílias, moradores da Zona Sul e dos próprios jovens.

“Os adolescentes começaram a se aproximar do Conselho Tutelar porque começaram a identificar que estavam garantidos ali. Muitos chegavam machucados, sangrando. Alguns foram internados depois das agressões”, contou.

Segundo Patrícia, parte dos jovens agredidos sequer tinha envolvimento com crimes. Ela afirma que estudantes, adolescentes em situação de rua e jovens com sofrimento mental também foram vítimas das ações violentas.

“Tivemos jovens que nem cometiam ato infracional e sofreram ataques brutais. Alguns chegaram a ficar internados em coma”, relatou.

De acordo com a conselheira, o Conselho Tutelar encaminhava os casos ao Ministério Público, à Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), órgãos de inteligência e batalhões da PM.

“O nosso dever é acolher esses comunicados de violação de direitos e encaminhar para os órgãos competentes. O que a gente não pode fazer é se omitir”, afirmou.
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Líder do grupo na mira do Ministério Público

O caso ganhou repercussão após o Ministério Público ajuizar uma ação civil pública contra William Correia da Silva Junior. Segundo as investigações, o grupo liderado pelo lutador utiliza redes sociais e aplicativos de mensagens para organizar perseguições e agressões contra adolescentes considerados suspeitos de furtos e roubos na Zona Sul.

O MPRJ reuniu vídeos e mensagens que mostrariam convocações para “caçadas”, orientações para esconder a identidade dos participantes e imagens de jovens sendo espancados com socos, chutes, capacetes e armas improvisadas, como soco-inglês e pedaços de madeira.

A decisão judicial determina que William se abstenha imediatamente de “organizar, participar, incentivar, induzir ou publicizar quaisquer atos de vigilantismo que envolvam crianças e adolescentes”. A Justiça também proibiu a divulgação de imagens, nomes e informações que permitam identificar menores de idade.

Patrícia afirma que o problema se agravou após a chamada “Operação Verão”, realizada em 2023, quando dezenas de adolescentes foram retirados de ônibus e encaminhados para acolhimento institucional.

“Eram adolescentes pretos e pardos, vindos da Baixada, da Zona Norte e da Zona Oeste para acessar a praia. As famílias procuraram o Conselho Tutelar relatando constrangimentos e violações de direitos”, disse.

Segundo ela, foi a partir desse cenário que os grupos de “justiceiros” começaram a ganhar força, promovendo abordagens violentas e perseguições nas ruas da Zona Sul.

“A partir dali começaram as caças aos adolescentes. Primeiro contra jovens em situação de rua e depois contra estudantes e moradores de comunidades”, afirmou.

Patrícia também rebateu as críticas feitas à atuação do Conselho Tutelar e disse que o órgão continuará atuando na proteção de crianças e adolescentes.

“O senhor William não é policial, não é conselheiro tutelar e não é agente de segurança pública. Ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos”, declarou.

Apesar das ameaças, a conselheira afirma que seguirá denunciando os casos.

“Estou triste, mas tenho certeza de que estou do lado certo. O Conselho Tutelar não vai recuar. A violência não pode ser normalizada e ninguém pode substituir o Estado usando agressão e medo”, concluiu.
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