Publicado 26/05/2026 10:04 | Atualizado 26/05/2026 11:53
Rio - A Justiça do Rio iniciou, nesta terça-feira (26), a oitiva das testemunhas relacionadas ao julgamento do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior e Monique Medeiros, acusados pela morte do menino Henry Borel. Ao longo do dia, o Tribunal do Júri pretende ouvir dois delegados, um médico legista e um perito.
PublicidadePor volta das 9h40, a juíza Elizabeth Machado Louro deu início aos questionamentos ao delegado Henrique Damasceno, que recebeu o registro de ocorrência da morte de Henry quando estava à frente da 16ª DP (Barra da Tijuca).
Durante seu depoimento, o delegado explicou que o crime não foi direto para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) porque foi registrado como violência doméstica. Os relatos e as marcas de violência no corpo do menino, no entanto, contestaram esta versão.
"O depoimento dos dois era absolutamente compatível. Foram versões absolutamente mentirosas. Eles sabiam das agressões que o menino sofria. Ficou muito demonstrado pela investigação que o menino já havia tido episódios muito sérios de violência na casa. Era o mesmo advogado para os dois. O normal é ver uma família destruída. Já trabalhei em casos em que morre uma criança e ela está preocupada em saber o que aconteceu, não em treinar com advogado para prestar depoimento. Isso não é comum, posso assegurar que não é comum", afirmou.
"A Monique chegou junto com o Jairo e estava muito tranquila. Quando eu a prendi, ela também estava muito tranquila. Eles foram para a casa de uma tia avó, um endereço que não existia no inquérito. Eles estavam conversando dentro do carro tranquilos. Eles estavam falando: ‘Olha esse monte de urubu da imprensa’. Eles estavam muito tranquilos", descreveu.
De acordo com Damasceno, na delegacia, Jairinho e Monique disseram que Henry havia caído da cama no quarto do casal. Em depoimento, eles afirmaram que encontraram o menino já gelado no chão e que Jairinho, que era médico, não fez manobras de ressuscitação pois nunca havia exercido a Medicina e treinou apenas em bonecos.
"Ele foi vítima de agressões que levaram a sua morte. Foi um laudo assinado por oito peritos. Atestaram que são lesões típicas de homicídio. A ocorrência chegou de uma maneira que tivemos todo o cuidado de fazer, pouco a pouco, para esclarecer o que havia acontecido. Você tinha três pessoas no apartamento: um casal e uma criança. A criança morreu. Não tem câmeras. As verões foram ensaiadas, as lesões que o menino sofreu eram incompatíveis com queda de cama. Se cair da cama causasse esse tipo de lesão, quantas crianças teriam morrido?", questionou.
Na época do crime, foram divulgadas imagens de câmeras de segurança que mostram o casal entrando no elevador com a criança já imóvel. Após o registro ser apresentado no tribunal, Henrique Damasceno disse que conversou com equipes técnicas e afirmou que há sinais de que Henry já estava morto naquele momento.
Após deixarem o apartamento, Jairinho e Monique levaram Henry para o hospital particular Barra D'Or, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio. De acordo com Damasceno, o ex-vereador fez contato com o alto executivo da Rede D'Or, ligando diversas vezes e mandando mensagens de texto. Ele pediu para que o óbito fosse atestado na unidade de saúde, já que não queria que o corpo fosse encaminhado ao IML, para não ser periciado pela polícia. Na época, Jairo disse que "queria virar logo essa página" para Leniel, pai de Henry.
Para Damasceno, o caso se demonstrava complexo desde o início. Ele revelou que chegou a pensar em encaminhá-lo para a DHC, mas foi aconselhado por Antenor Lopes Martins Júnior, Diretor do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), à época, a manter na delegacia, já que a ocorrência havia sido narrada como violência doméstica.
“Eu vi que era uma situação grave e complexa desde o primeiro momento. Eu já vi milhares de laudos de necropsia. Sei o que é uma situação complexa ou não. Tinha hematoma em rim, lesão no pulmão, laceração hepática, lesão na cabeça… Não podia simplesmente encaminhar para a Homicídios. Mantive comigo, mas sabia da gravidade da situação desde o primeiro momento. Estamos falando de uma criança de 4 anos que morreu dentro de um apartamento”, disse.
Violências anteriores
Segundo o delegado, o menino Henry já havia sido agredido outras vezes por Jairinho. "O laudo trouxe alguns prints de conversa que ela teve com Thayná, baba do Henry, no dia 12 de fevereiro, que mostravam situações extremamente graves. O menino estava em casa e, de repente, foi colocado por Jairo dentro do quarto. A Monique estava no cabeleireiro. O menino saiu mancando e com dor de cabeça. Rosângela, empregada doméstica, confirmou. Henry correu para o colo da Thayná e ficou tão desesperado que chegou a rasgar a blusa dela. Ele chorava, gritava", relatou.
Neste episódio, que não foi o primeiro, Henry disse para a mãe que estava com dor por ter sido derrubado pelo padrasto, mas Monique deu outra versão no hospital, de acordo com a babá.
"Ficou claro que aquela não era a primeira vez que estava acontecendo. Ficamos sabendo que já havia acontecido no dia 2 de fevereiro. É um comportamento que não é razoável. Saber que um homem adulto se trancou em um quarto com uma criança, a babá bate na porta e ninguém responde, depois o menino sai mancando do quarto. A Thayná fala que o Henry disse para Monique que machucou a cabeça porque levou uma banda do padrasto. No hospital, ela relata que o menino caiu da cama", afirmou o delegado.
O delegado ainda desmentiu a versão utilizada pela defesa de Monique, de que ela também havia sido vítima de violência doméstica. "A Thayná fala claramente que, apesar de existirem discussões, Monique batia de frente com o Jairo. Ela disse que a Monique podia prejudicar severamente Jairo se ele não fizesse o que ela queria. Ninguém era subjugado naquele cenário. No momento da prisão, eles jogaram os celulares pelo basculante do banheiro e um dos policiais encontrou os celulares ali embaixo", contou.
Primeiro dia de julgamento teve reviravoltas e embates
O primeiro dia de julgamento ficou marcado por reviravoltas envolvendo a defesa de Jairinho e embates entre os representantes jurídicos dos dois réus. Os advogados do ex-vereador ainda apresentaram uma nova série de pedidos de nulidade e questionaram desde provas digitais e laudos periciais até a participação da assistência de acusação.
Ao fim das manifestações, a juíza rejeitou todos os requerimentos e determinou a continuidade do júri. A sessão, porém, foi encerrada sem ouvir as testemunhas que estavam previstas para depor.
No plenário, o clima ficou tenso após a defesa de Monique apresentar argumentos que, na avaliação dos advogados de Jairinho, tentavam direcionar a responsabilidade do crime exclusivamente ao ex-vereador. Os representantes da mãe de Henry rebateram que não alteraram a atuação no processo.
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