Jairo Souza Santos JúniorReginaldo Pimenta/Arquivo O Dia
Publicado 01/06/2026 21:23 | Atualizado 01/06/2026 21:27
Rio - O oitavo dia do julgamento pela morte do menino Henry Borel foi marcado nesta segunda-feira (1º) por uma nova tentativa da defesa de afastar a tese de que a criança sofreu as lesões fatais dentro do apartamento onde estava com a mãe, Monique Medeiros, e o então padrasto, Jairo Souza Santos Júnior, em 2021. Última testemunha do dia ouvida no II Tribunal do Júri, no Centro do Rio, o médico legista Jeferson Evangelista Corrêa afirmou aos jurados que os ferimentos internos encontrados no corpo da criança podem ter ocorrido até 48 horas antes da morte.

"As lesões podem ter ocorrido entre 24 ou 48 horas antes. É o mais provável", declarou. A afirmação foi uma das principais falas do depoimento do especialista, contratado como assistente técnico pela defesa do ex-vereador, conhecido como Jairinho, que é réu ao lado da ex-professora.

Ao longo de mais de três horas de depoimento, Jeferson contestou pontos centrais da perícia oficial do caso, questionou documentos médicos produzidos durante o atendimento no hospital e apresentou aos jurados a tese de que a laceração hepática descrita no laudo poderia ser resultado de um trauma anterior, com agravamento progressivo ao longo das horas seguintes.

Segundo ele, a lesão no fígado de Henry, descrita como uma ruptura de cerca de quatro centímetros e classificada como grau 2, seria compatível com situações traumáticas diversas e não necessariamente com um episódio violento ocorrido na madrugada de 8 de março.

O médico citou como hipóteses possíveis quedas em brinquedos de parquinho, escorregador, bicicleta ou patinete, além de desaceleração em veículo.

De acordo com a avaliação apresentada pela defesa, uma criança pode sofrer esse tipo de trauma, seguir consciente e apresentar sinais clínicos de forma gradual, com piora posterior.

"Uma criança pode cair, chorar naquele momento, voltar a brincar e depois começar a apresentar dor abdominal, enjoo e vômito. Isso é possível do ponto de vista médico", explicou.

Em outro trecho que chamou a atenção do plenário, Jeferson levantou a hipótese de que as manobras de ressuscitação cardiopulmonar feitas no Hospital Barra D'Or possam ter agravado um sangramento já existente no fígado.

"Essa lesão teria coagulado espontaneamente. Obviamente teria algum sintoma de mal-estar, dor abdominal, enjoo e vômito. Se está coagulado e você fizer massagem cardíaca, vai fazer esse fígado sangrar", afirmou. "Mesmo que ela estivesse coagulada, nesse tempo de massagem, o fígado é comprimido", acrescentou.

A defesa também usou o depoimento para atacar a documentação médica produzida no hospital onde Henry deu entrada desacordado. Ao comentar o prontuário anexado ao processo, Jeferson foi direto. "Esse prontuário está em anarquia e infringe um monte de regras".

Segundo ele, os registros enviados ao processo apresentam falhas de identificação profissional, páginas sem assinatura, ausência de horários e trechos que, segundo sua avaliação, impedem a reconstrução exata da sequência do atendimento prestado naquela madrugada.

"O mais importante em medicina é a cronologia dos eventos. E aqui isso não aparece de forma clara", declarou aos jurados.

Jeferson afirmou ainda que encontrou lacunas documentais no material e citou ausência de continuidade em determinadas anotações clínicas. Para ele, o conjunto de documentos teria comprometido parte da análise técnica sobre o que aconteceu no hospital antes da remoção do corpo para o Instituto Médico-Legal.

O depoimento foi acompanhado com atenção pelo Ministério Público e pela assistência de acusação, que fizeram questionamentos sobre a análise do médico e confrontaram parte das conclusões apresentadas.

Outro ponto explorado e questionado pelo legista foi a perícia da Polícia Civil. O médico criticou trechos da reprodução simulada feita durante a investigação e afirmou que o trabalho deveria ter se limitado a verificar se as versões apresentadas pelos envolvidos eram compatíveis com o ambiente e com a dinâmica narrada.

"Do ponto de vista estrutural, a reprodução simulada objetiva tornar essas versões compatíveis e verificar se a narrativa apresentada é possível".

Na sequência, disse entender que houve extrapolação em conclusões técnicas do laudo e afirmou que não encontrou respaldo pericial suficiente para alguns apontamentos feitos na investigação. "Não tem uma prova técnica. Não tem foto. Isso é erro do perito".

"Mais cedo, o plenário havia ouvido o perito legista Leonardo Huber Tauil, responsável pela necropsia de Henry. Ele reafirmou integralmente a conclusão oficial do IML de que a criança morreu por hemorragia interna provocada por ação contundente que causou laceração no fígado. Ele também voltou a afastar a possibilidade de que as manobras de reanimação tenham provocado as lesões descritas no laudo. Ao ser questionado se mantinha a conclusão da necropsia, respondeu: "Não tenho dúvida".

O júri popular começou na semana passada e já ouviu dezenas de testemunhas entre médicos, peritos, policiais civis, familiares e ex-companheiras de Jairinho.

A expectativa do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro é concluir a fase de testemunhas e iniciar ainda nesta terça-feira (2) os interrogatórios de Monique e Jairinho, etapa considerada decisiva antes dos debates finais entre acusação e defesa.
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Relembre o caso

Henry morreu aos 4 anos, na madrugada de 8 de março de 2021, depois de chegar desacordado ao hospital na Barra da Tijuca.

A investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro concluiu que a criança foi vítima de agressões no apartamento onde estava naquela noite.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro denunciou Jairinho e Monique por homicídio triplamente qualificado e tortura.

A acusação sustenta que o menino foi submetido a violência física e que a mãe se omitiu diante das agressões. Os dois negam os crimes.
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