Jairo Souza Santos JúniorDivulgação/Brunno Dantas e Felipe Cavalcanti/TJRJ
"Esse prontuário está em anarquia e infringe um monte de regras", afirmou o médico diante dos jurados, ao analisar os documentos enviados pela unidade hospitalar ao processo da morte do menino.
Durante o depoimento, Jeferson disse que os registros médicos apresentados têm falhas de identificação profissional, ausência de informações cronológicas e lacunas que, segundo ele, dificultam a reconstrução precisa do atendimento ocorrido.
"Cada folha precisa ter a identificação do profissional responsável e o horário do procedimento. O mais importante em medicina é a cronologia dos eventos. E aqui isso não aparece de forma clara", declarou.
Ao ser questionado pela defesa de Jairinho, o médico afirmou que encontrou páginas sem assinatura do profissional responsável e observou que alguns registros não teriam continuidade documental. Ou seja, ele apontou a ausência de um médico responsável naquele plantão.
Em um dos trechos citados no plenário, ele mencionou anotações incompletas sobre o estado clínico de Henry e afirmou que a ausência de folhas seguintes impede a leitura integral da evolução médica.
Segundo a testemunha, o prontuário encaminhado pela unidade reúne documentos "misturados" e sem padronização. Ele também afirmou que a diretora da unidade aparece assinando documentos enviados posteriormente, embora não tivesse participado diretamente do atendimento.
O médico contou ainda que teve contato com o caso ainda em 2021, quando recebeu de um advogado ligado à família de Jairinho um pedido de avaliação técnico-médica do processo. Na época, segundo ele, analisou parte dos autos e produziu uma opinião preliminar. O contato teria sido retomado meses atrás, já durante a preparação do julgamento.
A defesa do ex-vereador usou o depoimento para reforçar questionamentos sobre a cadeia de atendimento médico e a documentação produzida no hospital antes da remoção do corpo ao Instituto Médico-Legal.
Segundo o assistente técnico, a análise feita pela defesa aponta que o menino apresentava três lesões anteriores à chegada ao hospital e outras 16 registradas durante o atendimento médico. Ao comentar especificamente a laceração no fígado, o assistente técnico disse que o ferimento poderia ter parado de sangrar inicialmente e voltado a se agravar durante as tentativas de reanimação.
"Essa lesão teria coagulado espontaneamente. Obviamente, teria algum sintoma de mal-estar, dor abdominal, enjoo e vômito. Se está coagulado e você fizer massagem cardíaca, vai fazer esse fígado sangrar".
Em seguida, ele reforçou a hipótese ao responder perguntas da defesa. "Mesmo que ela estivesse coagulada, nesse tempo de massagem, o fígado é comprimido", declarou.
Contraponto do IML e divergências técnicas
Horas antes, o plenário ouviu o perito legista Leonardo Huber Tauil, responsável pela necropsia de Henry. Ele reafirmou aos jurados a principal conclusão do laudo do Instituto Médico-Legal: Henry morreu em decorrência de hemorragia interna provocada por ação contundente que causou laceração hepática.
"Não tenho dúvida", respondeu Tauil, ao ser perguntado se mantinha a conclusão de que a lesão no fígado provocou a hemorragia interna fatal.
O perito também voltou a afastar a hipótese de que manobras de reanimação tenham provocado os ferimentos descritos no laudo e afirmou que o quadro não seria compatível com massagem cardíaca. Segundo ele, havia sinais de múltiplos impactos e lesões internas em órgãos como fígado, rim e pulmão.
Ele admitiu erros de digitação em versões anteriores dos laudos, mas disse que nenhum deles alterou a conclusão sobre a causa da morte.
Júri entra na reta decisiva
O julgamento chega agora à fase mais aguardada do processo. Com o encerramento das testemunhas, a expectativa do Tribunal de Justiça é iniciar os interrogatórios de Monique Medeiros e Jairinho ainda nesta semana.
Monique será ouvida primeiro. Jairinho falará em seguida, após decisão judicial que alterou a ordem inicialmente prevista.
O júri popular teve início na semana passada e já ouviu dezenas de testemunhas de acusação e defesa, entre médicos, peritos, policiais, ex-companheiras do ex-vereador e familiares.
No sábado (31), o irmão de Monique, Bryan Medeiros, afirmou que a irmã foi orientada a mentir no primeiro depoimento prestado à polícia e negou ter visto sinais de agressão no corpo do sobrinho durante o período em que Henry frequentava a casa da família em Bangu.
Relembre o caso
Henry Borel morreu aos 4 anos, na madrugada de 8 de março de 2021, depois de chegar desacordado ao Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca.
As investigações da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro na época concluíram que a criança foi vítima de agressões dentro do apartamento onde Monique e Jairinho estavam naquela noite.
O Ministério Público denunciou o ex-vereador e a mãe do menino por homicídio triplamente qualificado e tortura.
A acusação sustenta que Henry foi submetido a violência física e que Monique se omitiu diante das agressões. As defesas negam os crimes.
Depois de mais de cinco anos entre investigação, perícias e recursos judiciais, o processo entrou na etapa final. A previsão é de que o veredito dos jurados seja conhecido nos próximos dias.


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