Médicos descartam pandemia mundial de ebolaDivulgação
Publicado 02/06/2026 13:05 | Atualizado 02/06/2026 13:38
Rio - As crescentes infecções por ebola em países africanos e notícias sobre casos suspeitos no Brasil - já descartados - podem gerar preocupação. Especialistas, no entanto, afirmam que não há risco real de a doença provocar uma pandemia global com a covid-19.
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Ao DIA, o infectologista Alberto Chebabo, gerente de Atenção à Saúde do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, explicou que o ebola não é um vírus com características pandêmicas.

“Ele não tem uma transmissão respiratória, como o covid. Não tem pacientes assintomáticos transmitindo o vírus. São pacientes que normalmente vão ter necessidade de internação hospitalar, onde os cuidados vão ser mais adequados, em termos de isolamento. É pouco provável que tenha uma pandemia de ebola, a gente nem espera isso”, diz.

Embora uma pandemia mundial de ebola seja improvável, o médico não descarta o surgimento de casos em outros locais, próximos ou não de onde acontecem os surtos.

“Eventualmente, podemos ter casos acontecendo fora da região mais quente, por causa do período de incubação e viagens, mas normalmente vão ser casos que certamente serão controlados, com uma transmissão secundária contra controlada. É pouco provável que se tenha uma expansão no mundo inteiro, a partir de um surto na Áfica”, afirma.

A opinião é compartilhada pela infectologista Tânia Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. Segundo ela, o risco maior é para países vizinhos de onde acontece o surto de ebola. Atualmente, o vírus se concentra na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. Outros países africanos, como Quênia, Etiópia, Ruanda, Tanzânia e mais estão em alerta máximo para a doença.

No Brasil, dois casos suspeitos apareceram, em São Paulo e no Rio, na semana passada. Os pacientes apresentaram sintomas iniciais do ebola depois de retornarem de viagem a países africanos, um da RDC e outro de Uganda. Após testes, ambos testaram negativo para ebola. O de SP foi diagnosticado com meningite meningocócica e o do Rio, com malária.

“É muito remota a possibilidade de uma pandemia de ebola. O risco maior é para os países vizinhos, mas é necessária a vigilância epidemiológica. Por exemplo, os casos suspeitos de São Paulo e do Rio, foram recebidos como se fosse ebola porque tinham sintomas que poderiam ser relacionados e vieram de áreas onde está ocorrendo surto. Os casos tiveram diagnóstico de meningite meningocócica e malária, mas só pode ser descartado ebola com exames negativos”, explica a médica.
Sintomas e transmissão
Segundo Tânia, o ebola é um vírus que usa RNA como material genético. Quando entra no organismo, ele invade as células e se multiplica rapidamente, causando danos. Esse processo pode comprometer gravemente o sistema imunológico, provocar intensa inflamação no corpo, alterar a coagulação do sangue e levar à falência de vários órgãos.

“Após um período de incubação, de 2 a 21 dias, os sintomas iniciais são inespecíficos, como febre, fadiga, dor muscular, dor de cabeça e calafrios - fase seca. A seguir vem a chamada fase úmida da doença com náuseas, vômitos e diarreia. O período de contágio do ebola inicia apenas após o aparecimento dos sintomas e não ocorre durante o período de incubação. A transmissão persiste durante toda a doença aguda e pode continuar em fluidos corporais específicos por meses após a recuperação. O maior risco de transmissão ocorre nos estágios tardios da doença grave, quando ocorrem vômitos, diarreia e manifestações hemorrágicas”, detalha.

De acordo com Alberto, o vírus é silvestre e circula principalmente entre macacos. “O homem pode se contaminar ao ter contato com esses animais ou com frutas contaminadas ou com material contaminado com secreção desses animais. E existe o risco de transmissão de uma pessoa para outra através de materiais contaminados ou de secreções do paciente infectado”, explica.

Além do risco de contaminação através dos fluidos dos pacientes contaminados, uma das principais formas de pegar o vírus é pela manipulação de cadáveres, segundo os médicos.

“É necessário uma série de cuidados para a segurança dos sepultamentos. Há um risco elevado durante funerais tradicionais. Os restos mortais devem ser minimamente manuseados, é necessária a desinfecção do corpo e do ambiente, e o sepultamento em locais específicos. Quem manuseia os corpos deve ser treinado para precauções de controle de infecção e deve usar equipamentos de proteção individual adequado. É recomendável sepultamento ou cremação imediata. Sepultamentos seguros têm impacto importante na redução da transmissão”, afirma Tânia.

“A gente vê, principalmente na África, uma transmissão muito importante em profissionais de saúde que estão atendendo esses pacientes ou que manipularam esses pacientes.
Há também o risco de transmissão na manipulação do corpo daquelas pessoas que vieram a óbito, porque na hora de manipular o corpo, se não tiver feito isso com todos os equipamentos de proteção individual, pode ter transmissão, mesmo depois de morto. Tem vários hábitos culturais, em termos de manipulação do corpo após a morte, que aumentam a contaminação”, completa Alberto.
Tratamentos e vacina
O surto de ebola em países africanos é causado pela variante Bundibugyo, mais rara. Até o momento não há vacinas ou tratamento específico para este tipo do vírus. “Existe uma vacina desenvolvida para outra espécie, mas não para essa, que está causando os quadros atuais. Também não existe nenhum antiviral, neste momento, testado e liberado para uso em pacientes com ebola. O tratamento é feito tratando os sintomas da doença e aguardando que o próprio organismo responda, através do seu sistema imune”, diz Alberto.

“O tratamento de suporte é a base do manejo clínico. É necessária reposição hidroeletrolítica adequada, manter a oxigenação necessária, controlar a pressão arterial, usar antitérmico e analgésicos e vigilância e tratamento de infecções secundárias que poderão ocorrer. Para o Ebola Zaire há medicamentos que usam anticorpos monoclonais.
Para o Bundibugyo essas medicações não estão aprovadas. Para o Zaire há uma vacina aprovada, mas para a Bundibugyo, não”, completa Tânia.

Segundo a médica, o isolamento e a proteção pessoal de profissionais de saúde e agentes funerários são os principais meios de combater a proliferação do vírus. “As medidas de prevenção são: isolamento de casos suspeitos e confirmados, proteção de barreira para a enfermagem, uso adequado de equipamentos de proteção individual. Todas as superfícies deverão sofrer desinfecção regularmente. Os principais grupos de risco para a infecção são os profissionais de saúde, trabalhadores de laboratório, familiares, cuidadores de pacientes infectados, participantes de rituais funerários tradicionais e pessoas com contato com animais selvagens infectados”, descreve.
Sintomas se confundem com outras doenças
Os sintomas iniciais do ebola podem se confundir com diversas outras doenças. De acordo com Alberto, é por este motivo, alinhado a uma viagem recente à África, que o paciente que era suspeito no Rio, e posteriormente diagnosticado com malária, ficou sob observação.

“No começo, o quadro inicial do ebola se assemelha a outras doenças infecciosas, inclusive a própria malária. Muitas viroses podem causar sintomas semelhantes. O alerta é que qualquer pessoa com esses sintomas, mesmo gerais, que tem histórico de ter vindo dessa região, entra na definição de caso suspeito. A pessoa que veio de Uganda ou da República do Congo e chega com quadro infeccioso, a gente acaba colocando esses pacientes em isolamento até que consiga descartar a infecção para o ebola”, explica.
O que diz a Fiocruz e a SMS
Por meio de nota, a Fiocruz informou que o paciente que era suspeito no Rio, e foi diagnosticado com malária, recebeu todos os cuidados médicos compatíveis com seu quadro clínico e recebeu alta hospitalar nesta segunda-feira (1º), após melhora, sendo orientado a dar continuidade ao tratamento em casa.

“A Fiocruz reitera que o risco de transmissão da doença no Brasil é considerado baixo e segue preparada, por meio da Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, para eventual resposta a situações que demandem atendimento médico e diagnóstico laboratorial”, afirmou.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), após a negativa, não há mais casos suspeitos do vírus no município do Rio. O Centro de Inteligência Epidemiológica da SMS (CIE/SMS) realiza o monitoramento permanente do cenário epidemiológico da cidade por meio de diversas estratégias voltadas à detecção precoce de novos vírus e patógenos em circulação.

“Entre elas, destacam-se a vigilância sentinela, com análise periódica de amostras para atualização do panorama viral, e a identificação e investigação laboratorial de casos suspeitos. Os atendimentos nas unidades de saúde são monitorados por algoritmos que identificam tendências de sinais e sintomas e emitem alertas para a rede, incluindo o Plantão CIEVS (Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde), que funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana”, disse, em nota.

Ainda de acordo com a SMS, quando necessário, são adotadas medidas de prevenção à transmissão de doenças, como o rastreio de contactantes, o monitoramento clínico de sintomáticos e o isolamento do paciente e encaminhamento a unidade de saúde de referência, segundo protocolo do Sistema Único de Saúde.

“Como orientação para viajantes com destino às áreas afetadas (atualmente algumas regiões de Uganda e República Democrática do Congo), recomenda-se evitar contato direto com sangue, secreções e fluidos corporais de pessoas doentes ou cadáveres suspeitos, bem como contato com animais silvestres, seus fluidos ou carne crua. Também é orientado realizar higiene frequente das mãos, seguir recomendações das autoridades sanitárias locais e buscar informações apenas em fontes oficiais”, explicou.
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