Publicado 17/06/2026 14:23 | Atualizado 17/06/2026 14:29
Rio - O motociclista por aplicativo encontrado morto em uma rua da Penha Circular, na Zona Norte, nesta terça-feira (16), foi brutalmente torturado antes de ser assassinado. A denúncia é de Juliana Sandim, de 39 anos, companheira de Sandro Castro Menezes. Ao DIA, ela relata que a vítima apresentava sinais de extrema crueldade, incluindo um corte profundo no pescoço e mutilação das partes íntimas.
Publicidade“Ele foi muito torturado. Estava muito machucado, machucaram muito ele. Quase degolaram ele. O pênis foi cortado ao meio. Recebi mensagens de pessoas que moram na comunidade [Quitungo], que dizem que [os criminosos] estão fazendo isso por pura maldade. O Sandro foi buscar uma encomenda, porque estava fazendo uma entrega, quando os bandidos pegaram ele sem olhar o telefone ou perguntar quem era”, conta.
Segundo Juliana, na segunda-feira (15), Sandro chegou em casa para almoçar, descansou durante a tarde e decidiu sair para trabalhar à noite. Ela, que mora em Realengo, na Zona Oeste, pediu para que ele não fosse longe, já que estava chovendo.
“Ele chegava em casa geralmente entre 22h30 e 23h. Eu cochilei e quando acordei por volta de 0h, vi que ele não tinha chegado. Mandei mensagem, mas ele não recebeu. Comecei a ligar e dava desligado direto. Ele não ficava com o celular desligado”, relata.
Juliana começou a ficar preocupada, já que da última vez que algo parecido havia acontecido, Sandro tinha sido assaltado. No dia seguinte, ainda sem notícias do marido, ela levou a filha de 5 anos para a escola e tentou entrar em contato com a Uber, plataforma em que ele trabalhava, para tentar informações sobre sua rota, mas não teve sucesso.
“Foi quando eu recebi a ligação de uma sargento informando que o corpo dele foi encontrado na Rua Francisco Enes. Eu me dirigi até o local na mesma hora. Ainda estava sem acreditar. Chegando lá, ele estava jogado na rua. Tirei o plástico de cima e vi que ele foi torturado, que estava muito machucado. Só o vi de bruços”, diz, com a voz embargada.
Depois que chegou em casa, Juliana começou a receber diversos relatos e imagens de pessoas que moram na comunidade que sustentam, para ela, a hipótese de tortura. Segundo a mulher de Sandro, a motocicleta dele já teria sido encontrada dentro de um valão no Quitungo.
“Barbarizaram muito ele. O rapaz da funerária perguntou se seria caixão fechado, porque machucaram muito o rostinho dele, mas eu falei que não. Eu vou maquiar ele, eu vou arrumar ele, porque ele não merece isso. Já comprei as maquiagens do tom de pele dele para poder tampar aquelas marcas, para ele ter um um enterro digno”, conta.
Para Juliana, que trabalha na área de necropsia, a decisão de arrumar o corpo do companheiro é uma das mais difíceis.
“É péssimo! Quando chega alguém conhecido, a gente pode ser recusar a fazer, justamente por conta da emoção, mas ele é o amor da minha vida. Não ia deixar o último adeus dele ser com o caixão fechado. Pelo amor que eu tenho por ele e pela força que os nossos amigos e família estão dando, eu vou estar ali do lado dele até o final”, afirma, sem conseguir segurar as lágrimas.
Sandro era pai de uma menina de 5 anos. De acordo com Juliana, ele era o único que estava trabalhando e, portanto, responsável pelo sustento da família.
“Eu pedi para ele não ir, mas é aquela coisa: tem conta para pagar. Nossa filha é paciente renal crônica e tem outros problemas de saúde. Era só ele trabalhando. Ele ficava naquela: ‘Não, amor, eu tenho que trabalhar, eu tenho que fazer dinheiro, corrida mais longa é mais dinheiro, na chuva é mais caro…’ E agora levaram ele. Tiraram ele da gente. Eu não contei para nossa filha ainda, não estou com coragem. Ontem ela me perguntou: ‘Mãe, você já achou meu pai?’ Mas eu não vou contar agora, vou esperar um momento”, revela.
O corpo de Sandro é velado na capela B do Cemitério do Murundu, em Realengo, na Zona Oeste. O sepultamento está marcado para às 16h15. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).
Procurada, a Uber lamentou o ocorrido. "A Uber lamenta profundamente que entregadores que desejam apenas gerar renda sejam vítimas da violência que permeia nossa sociedade. Compartilhamos nossos sentimentos com a família de Sandro Castro Menezes neste momento tão difícil. A empresa está à disposição das autoridades competentes para colaborar, nos termos da lei, e ressalta que todas as viagens na plataforma são cobertas por seguro. A seguradora entrará em contato com a família da vítima a fim de oferecer apoio", disse, em nota.
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