Cláudio Rafael Landeiro Moreira, 37 anos, recebeu mais de 50 pauladas e morreu na noite de 11 de agostoReprodução / Câmeras de Segurança
Publicado 26/08/2026 22:06 | Atualizado 26/08/2026 22:11
Rio - O coordenador do grupo informal de “seguranças de rua” que atuava em Copacabana revelou à Polícia Civil detalhes de como funcionava o serviço na região onde o ciclista Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, foi espancado até a morte. O delegado Ângelo Lages informou que ainda trabalha para identificar o quinto agressor, que aparece nas imagens atacando a vítima e que outro comerciante ainda será ouvido, mas não há data definida para o depoimento.
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Em depoimento prestado nesta quarta-feira (26) à 12ª DP (Copacabana), Aluísio da Silva Filho, de 49 anos, afirmou que comandava a equipe havia mais de 25 anos, era responsável pelas contratações e escalas e admitiu que já havia recebido reclamações sobre o comportamento agressivo de Davi Santos Machado, um dos presos pelo assassinato.

Segundo Aluísio, o grupo não possuía empresa formalizada nem CNPJ. Ele afirmou que a equipe era formada por quatro integrantes (ele próprio, Davi, Jorge Luiz Ricardo Dias e um homem identificado apenas como Antônio) e que os chamados apoiadores eram contratados sem exigência de experiência, cursos, antecedentes criminais ou qualquer documentação.

O coordenador também explicou à polícia como o serviço era financiado. De acordo com seu relato, comerciantes da região contribuíam semanalmente com valores entre R$ 130 e R$ 150, gerando uma arrecadação de aproximadamente R$ 1 mil por semana. O dinheiro era dividido entre os integrantes, enquanto Aluísio recebia R$ 250 pela administração da atividade.

Apesar de atuar como responsável pela equipe, Aluísio afirmou que os seguranças não tinham autorização para abordar suspeitos, fazer revistas, reter objetos ou utilizar força física. Segundo ele, a orientação para situações consideradas graves era chamar a Polícia Militar.

Reclamações contra Davi

Durante o depoimento, porém, Aluísio admitiu que já havia recebido reclamações sobre a postura de Davi. O coordenador contou que chegou a repreendê-lo após uma agressão contra um morador de rua.

Ele também afirmou desconhecer que os integrantes utilizassem cassetetes ou outros objetos semelhantes durante o trabalho. Sobre a agressão contra Cláudio, disse ter tomado conhecimento do uso de um objeto desse tipo apenas depois do crime, por meio de relatos de terceiros e da imprensa.

Aluísio afirmou que estava em casa com a família na noite de 11 para 12 de agosto, quando Cláudio foi atacado, e que somente Davi e Jorge estavam escalados para aquele horário.

Segundo o depoimento, Jorge enviou durante a madrugada uma mensagem e uma fotografia de uma bicicleta supostamente furtada. Aluísio, entretanto, disse que só visualizou o conteúdo na manhã seguinte.

Posteriormente, Davi teria contado ao coordenador que eles haviam “pegado um ladrão de bicicleta” e atribuído as agressões aos entregadores do iFood. Depois de buscar mais informações, Aluísio afirmou ter descoberto que o próprio Davi havia participado da violência.

O coordenador disse ter desligado Davi do grupo após tomar conhecimento dos fatos e orientado os envolvidos a procurar a polícia. Ele também entregou voluntariamente o próprio celular para perícia e informou aos investigadores que mantém no aparelho mensagens, áudios e fotografias do grupo de WhatsApp chamado “Apoio”, utilizado pelos integrantes.

Outros depoimentos

A declaração de Aluísio ocorre depois de a Polícia Civil ouvir comerciantes e outras testemunhas que podem ajudar a esclarecer como funcionava o esquema de segurança informal em Copacabana.

Três comerciantes ouvidos pela investigação afirmaram que pagavam cerca de R$ 120 por semana pelo serviço. Eles não são apontados como participantes diretos das agressões, mas passaram a ser investigados em razão da contratação de uma estrutura de segurança privada que, segundo os relatos, funcionava de maneira irregular.

A polícia também ouviu o filho do proprietário de um bar da região. Segundo a polícia, ele presenciou parte das agressões e afirmou que pediu insistentemente para que Davi não atingisse Cláudio na cabeça. Apesar disso, não conseguiu impedir a violência. O caso também é analisado sob a possibilidade de omissão de socorro.

Outra testemunha ouvida foi uma funcionária do estabelecimento. Segundo a investigação, ela seria a pessoa que entregado um porrete a Davi durante a sequência de agressões. A participação dela também é apurada pela polícia.

Polícia busca quinto agressor

Os investigadores ainda tentam identificar um homem que aparece nas imagens se aproximando do local das agressões e dando um chute na cabeça de Cláudio.

De acordo com testemunhas, ele teria perguntado se a vítima era “ladrão” e, depois de receber uma resposta afirmativa, dito: “Ladrão tem que morrer mesmo”. A polícia considera esse homem o quinto agressor ainda não identificado entre as pessoas que participaram diretamente da violência.

Além dele, os investigadores analisam a possível participação de outras pessoas que estavam no local ou contribuíram de alguma maneira para a ação. O delegado informou que comerciantes ainda serão chamados para prestar novos esclarecimentos.

Quatro estão presos

Até o momento, quatro pessoas foram presas pelo caso: os seguranças Davi Santos Machado e Jorge Luiz Ricardo Dias e os entregadores Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da Silva. As prisões temporárias foram mantidas pela Justiça.

Em depoimento, Davi mudou a versão apresentada inicialmente e admitiu ter participado das agressões. Ele também reconheceu ter utilizado um cassetete ou pedaço de madeira contra Cláudio.

Jorge, por sua vez, afirmou ter chegado ao local depois de receber uma ligação de Davi e disse ter encontrado o colega junto de dois entregadores, enquanto Cláudio já estava caído e sendo agredido. Jorge negou ter participado diretamente do espancamento.

Já Felipe Eduardo confessou ter segurado Cláudio e dado quatro chutes nas costas da vítima. O entregador afirmou que acreditou na acusação de que Cláudio seria ladrão e que deixou o local ao perceber que Davi golpeava o homem na cabeça. Ailton permaneceu em silêncio em seu depoimento.

Bicicleta pertencia à irmã de Cláudio

Cláudio foi abordado na madrugada de 11 de agosto, em Copacabana, após ser acusado de ter roubado uma bicicleta. A investigação, porém, apontou que o veículo pertencia à irmã dele.

Segundo a apuração da 12ª DP, a abordagem evoluiu para uma sequência de agressões que envolveu seguranças e entregadores. Imagens de câmeras de segurança registraram parte da violência e mostram Cláudio sendo atacado mesmo depois de cair no chão.

O ciclista foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e levado ao Hospital Municipal Miguel Couto, mas morreu no dia seguinte. A investigação aponta traumatismo craniano e hemorragia interna como consequências das agressões.
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