Publicado 30/08/2026 00:00
Se em 1594 a dúvida era sobre quem herdaria as sesmarias (grandes lotes de terras distribuídos para ocupar e cultivar áreas improdutivas), o que já foi uma vasta área bucólica hoje se transformou em terra de ninguém. Jacarepaguá, dividido em vários subbairros, vem apresentando altos índices de violência. fotogaleria
O Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou, neste mês, os índices de criminalidade referentes a julho de 2026, mostrando um avanço de 25% na letalidade violenta em relação a julho de 2025 — 301 vítimas no estado, contra 240 no ano passado. Esse indicador soma homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, feminicídio, morte por intervenção de agente do Estado e latrocínio.
PublicidadeDas 41 Áreas Integradas de Segurança Pública (AISP) do estado, apenas cinco concentraram um terço de toda a letalidade violenta em julho. A área do 18º BPM (Jacarepaguá), na Zona Sudoeste, liderou esse ranking, com 25 mortes violentas atribuídas à disputa territorial entre o Comando Vermelho e milicianos.
A escalada da violência na região Sudoeste do Rio de Janeiro começa a produzir efeitos que vão além da insegurança diária enfrentada pelos moradores. Em Jacarepaguá, o avanço da criminalidade preocupa comerciantes e empresários, ameaçando a chegada de novos investimentos, a manutenção de empregos e o desenvolvimento econômico local.
Um exemplo recente é o Grupo Lokos Por Açaí, que anunciou a suspensão temporária das atividades de sua unidade em Curicica. Segundo a empresa, a decisão foi tomada diante do atual cenário de segurança pública, tendo como prioridade preservar a integridade de funcionários, clientes e parceiros.
Para o empresário Fábio Vaz, do Grupo Lokos Por Açaí, a decisão foi difícil, mas necessária. "Não foi uma escolha fácil, mas foi a decisão certa. Antes de qualquer resultado ou venda, vêm as pessoas: nossos colaboradores, clientes e parceiros. Estamos fazendo uma pausa consciente e responsável, acompanhando de perto a situação. Assim que houver condições seguras, queremos reabrir nossas portas em Curicica", afirma. A empresa destacou que a medida não representa um encerramento definitivo.
O problema, contudo, é generalizado: comerciantes deixam de investir, consumidores evitam determinadas áreas, funcionários enfrentam dificuldades para circular e novos empreendedores desistem de abrir negócios. Relatos de comerciantes das ruas Pintibu e Abadiana, e das estradas Virgolândia e Santa Maura, no Camorim e em Curicica, confirmam a rotina difícil. Assim como o proprietário da rede de açaí, outros empresários locais fecharam seus estabelecimentos por medo.
Esses episódios acendem um alerta: quando a insegurança afeta a operação das empresas, todo o bairro perde. A preocupação é que o cenário provoque um efeito em cadeia — menos empresas significam menos empregos, menor circulação de renda e, consequentemente, escassez de oportunidades. Jacarepaguá é uma das regiões mais populosas e importantes do Rio de Janeiro, com forte vocação comercial e de serviços.
Além da violência armada, moradores e comerciantes enfrentam a extorsão da "taxa da barricada". No fim do ano passado, um comerciante denunciou a cobrança de valores que variavam entre R$ 200 e R$ 1.000.
Além da violência armada, moradores e comerciantes enfrentam a extorsão da "taxa da barricada". No fim do ano passado, um comerciante denunciou a cobrança de valores que variavam entre R$ 200 e R$ 1.000.
Na quinta-feira (27), dois policiais militares foram presos em uma operação do Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ), com apoio da Corregedoria-Geral da PM. Eles são acusados de envolvimento com a milícia atuante em Curicica, na Zona Sudoeste, e com o Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo a denúncia, Jorge Anastácio Rodrigues Simões, lotado no 4º BPM (São Cristóvão), e Leo Carlos Araújo Santos, do 2º BPM (Botafogo), forneciam e intermediavam a compra de armas e munições para as organizações.
De acordo com o MPRJ, a milícia de Curicica possui estrutura hierarquizada. André Costa Bastos, conhecido como Boto ou Redbull, mesmo preso no sistema penitenciário federal, seria o responsável pelo comando estratégico, enquanto Osmar Silva de Souza, o Messi ou Novinho, exerceria a liderança operacional. "A organização tem como fontes de financiamento a cobrança extorsiva de moradores e comerciantes, além do roubo sistemático de veículos e cargas em Jacarepaguá e regiões próximas", explicou o órgão.criminosas.
Alguns casos recentes
Uma operação policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio, provocou tiroteios, bloqueios de vias e incêndios na madrugada de quinta-feira (27).
Durante a ação, a Polícia Militar chegou a interditar a Estrada Miguel Salazar de Moraes nos dois sentidos. Também houve registro de ao menos 2 ônibus atravessados na via e de contêineres de lixo incendiados por criminosos.
Durante a ação, a Polícia Militar chegou a interditar a Estrada Miguel Salazar de Moraes nos dois sentidos. Também houve registro de ao menos 2 ônibus atravessados na via e de contêineres de lixo incendiados por criminosos.
Operação na Boiúna: Um suspeito morreu e outro ficou ferido durante uma operação de inteligência do 18º BPM na localidade da Boiúna, na Taquara, na quarta-feira (26). A equipe investigava uma falsa blitz organizada por criminosos.
Disputas e bloqueios: Neste mês, disputas territoriais causaram três mortes na região. Criminosos bloquearam vias na Gardênia Azul e em Curicica. Em maio, a PM já havia realizado uma ocupação por tempo indeterminado na Gardênia Azul.
Impacto nas escolas e restaurantes: Uma escola na Avenida Tenente Muniz de Aragão, no Anil, contratou um funcionário exclusivo para vigiar o portão e monitorar a movimentação de motocicletas, relatando perda de alunos devido à insegurança. No mesmo bairro, o tradicional restaurante Vista Alegre, fundado há 70 anos, passou a fechar mais cedo devido a constantes tentativas de extorsão.
Tiroteios recorrentes: Apenas em agosto, foram registrados confrontos na comunidade do 15 e Dois Irmãos (Estrada André Rocha, em Curicica) no dia 1º, e na Rua Bacairis (Taquara) no dia 19, além de constantes ataques entre facções rivais na Zona Sudoeste.
Policiamento ostensivo intensificado
Em nota, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar (SEPM) informou que o 18º BPM atua na região com rondas de viaturas e motopatrulhas, além do reforço do Regime Adicional de Serviço (RAS), com base no mapeamento da mancha criminal.
A unidade afirma que segue intensificando o policiamento ostensivo nos horários de maior incidência de crimes e realizando abordagens contínuas. A SEPM reforça a importância do acionamento imediato via Central 190, do aplicativo RJ 190 e do registro de ocorrências nas delegacias da região para o direcionamento efetivo das patrulhas.
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