Publicado 31/08/2026 18:26 | Atualizado 31/08/2026 18:47
Rio - Após diversas mortes de árvores da rua Viúva Lacerda, no Humaitá, Zona Sul, moradores se mobilizam para tentar recuperar a arborização. A comunidade buscou especialistas para entender o que afetou a vegetação, coordenou a poda de parte das árvores e, agora, espera que a Prefeitura do Rio finalize o processo de retirada dos troncos que ficaram no local. Só depois dessa etapa será possível dar início ao replantio e recuperar parte da memória afetiva da vizinhança.
PublicidadeSegundo o presidente da Associação dos Moradores e Amigos da Rua Viúva Lacerda (Amavil), Alberto Buglione, 69 anos, os moradores começaram a perceber mudanças na vegetação e se uniram para contratar um biólogo ainda em 2024.
"Nós estávamos vendo que as árvores estavam ficando com alguns galhos secos. Então, nós, moradores da associação, contratamos um biólogo para fazer um levantamento", explica o presidente.
O relatório, realizado pelo especialista em 21 de maio de 2024, ao qual O DIA teve acesso, certificou a morte de quatro árvores na ocasião. No entanto, o pedido de substituição se estendeu a 18 plantas, incluindo, além das já mortas, duas quaresmeiras e quatro cássias-de-sião em processo de morte, além de cinco arecas-bambu e três fícus-benjamina, considerados inadequados para o local.
Alberto Buglione afirma que após relatório elaborado pelo biólogo, os moradores encaminharam a solicitação de poda à Fundação Parques e Jardins, que levou cerca de oito meses para dar um retorno. Emitido em julho de 2025, o documento previa a remoção de 17 árvores e a poda de outras 20 em área pública.
Morador da rua desde 2007, o conselheiro da associação Eduardo Quental Moraes, 45, lamenta a demora burocrática. "O relatório apontou que boa parte das árvores precisava de tratamento. Com a demora de quase um ano da Fundação Parques e Jardins para autorizar as podas, não foi possível salvar essa vegetação. Elas acabaram morrendo."
Segundo ele, uma das partes mais difíceis do processo foi conscientizar os moradores. "Nós contratamos uma empresa para fazer a poda e fizemos uma comissão para resolver o problema, mas, como, nesse meio-tempo, essas árvores acabaram morrendo, algumas pessoas apontaram que a poda teria ocasionado isso."
"Há muita desinformação e uma visão de desconhecimento, de achar que as podas são nocivas para as árvores. Na verdade, é o contrário. Quando as árvores são bem podadas, é algo positivo para elas", afirma.
Diante da demora da prefeitura para realizar a poda das árvores, Alberto Buglione conta que os moradores se mobilizaram, junto à associação, para arrecadar o valor necessário para o serviço, que, segundo ele, ficou em torno de R$ 50 mil. O presidente da associação também destaca que, no início do ano, a destoca foi realizada apenas em uma pequena parte das árvores e que a equipe da Comlurb não retornou ao local para concluir o serviço.
"Eles fizeram uma parte do processo, cortaram os pedaços e fizeram a destoca apenas em quatro árvores. Largaram as placas de não estacionar penduradas aqui por duas semanas e nunca mais voltaram", diz. Destoca é o processo de remoção ou trituração de tocos e raízes que permanecem no solo após o corte.
Eduardo também relembra quando equipes da Comlurb estiveram no local. "Eles vieram com um caminhão, que era supermoderno. Disseram que iriam fazer a destoca das árvores, mas foram poucas. Desde janeiro, nós estamos correndo atrás, mas, até agora, nada", aponta.
Procurada, a Comlurb afirmou que não executou "nenhum serviço nas árvores em questão".
Nesta segunda-feira (31), foi realizada uma reunião com o subprefeito da Zona Sul, Pedro Angelito, para cobrar as demandas da rua, tendo como principal pauta a situação das árvores. O encontro reuniu o presidente e o conselheiro da associação, Alberto Buglione e Eduardo Moraes.
"Durante a reunião, levantamos a demanda sobre a destoca das árvores, que eles precisam fazer. As podas foram realizadas por nós, moradores e pela própria Associação. Na época, a Fundação Parques e Jardins orientou que a nós deixássemos essa etapa para a Comlurb realizar, que eles fariam a destoca e preparariam os canteiros para o replantio. Durante a reunião, o subprefeito se comprometeu a conversar com a Comlurb para realizar as destocas", informou o conselheiro Eduardo Quental Moraes.
A reportagem procurou a Fundação Parques e Jardins para obter um posicionamento sobre o caso, mas não recebeu retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.
Morte das árvores
Nas redes sociais, o problema na Rua Viúva Lacerda ganhou visibilidade. Enquanto alguns internautas afirmaram que as árvores foram cortadas por opção dos próprios moradores, outros disseram que se tratava de leucenas, espécie cujo nome científico é Leucaena leucocephala, considerada uma grave praga ambiental.
O biólogo contratado pelos moradores da via, que preferiu não ser identificado, no entanto, esclareceu ao O DIA que nenhuma das duas informações está correta.
"Quando fiz o levantamento, uma coisa era muito clara. Havia muitos indivíduos de uma espécie que foi bastante plantada a partir das décadas de 1950, 1960 e 1970 no Rio de Janeiro. É a cássia-de-sião, cujo nome científico é Senna siamea", destaca.
De acordo com o especialista, o problema dessa árvore é a longevidade. "Essa espécie foi muito plantada no Rio naquela época. O problema é que ela não vive muito tempo, considerando a longevidade de uma árvore. Algumas já estavam mortas e outras estavam em processo de senescência, ou seja, estavam morrendo", informa.
O especialista também ressalta que o problema ocorre em outras partes do Rio de Janeiro. "Na cidade toda, em locais onde essas árvores foram plantadas naquela época, elas estão morrendo. Na Gávea, por exemplo, muitas morreram. O que acontece é que muitas foram plantadas ao mesmo tempo e, como pertencem à mesma espécie e têm aproximadamente a mesma idade, estão chegando ao fim do ciclo de vida praticamente juntas", explica.
"Também houve relatos de que elas estavam sofrendo com um tipo de broca, um inseto que entra na árvore quando ela está fragilizada e passa a se alimentar de seu interior. Isso foi constatado em quase todas."
O biólogo também pontua os riscos de manter a vegetação morta no local. "Eu trabalho com restauração ecológica e sou totalmente contra qualquer remoção de árvores, a menos que seja realmente necessário. Tento sempre manter elas em pé. Mas, nesse caso, as principais consequências estão relacionadas ao risco de acidentes", frisa.
O profissional conta que, naquela rua, havia galhos podres e alguns que já apresentavam risco de queda sobre carros, pessoas e casas. Quando há risco para pessoas, o biólogo sugere a remoção ou a poda.
"Por exemplo, se uma árvore está sujando uma calha, você limpa a calha. Não é motivo para fazer uma poda. O principal problema é o risco de um carro ser danificado ou de alguém sofrer um acidente", conclui.
Vizinhança quer replantio
Além de contribuírem para a beleza da Rua Viúva Lacerda, as árvores também fazem parte das memórias de quem vive na região. Vera Dantas, 77, é moradora da rua há cerca de 30 anos e conta que comprou o apartamento por conta da vegetação.
"O que determinou a compra foi uma árvore majestosa que havia aqui no meu prédio, uma figueira, além das árvores da rua. O meu prédio é um prédio pequeno, de oito andares. E aqui tinha muito passarinho. Olha, era uma coisa maravilhosa. Então, quando ela morreu, foi um luto para a gente. Quando essa árvore morreu, tentamos salvá-la de todo jeito, mas não deu", relembra Vera.
A moradora conta que, há cerca de três anos, uma das árvores em frente ao seu prédio começou a morrer. Segundo ela, a prefeitura foi até o local, fez a destoca e plantou um ipê-brasil, que já está crescendo. Com o tempo, no entanto, outras começaram a se deteriorar.
"As árvores foram secando, a gente começou a ver isso. Então, os moradores resolveram tomar uma providência, porque a Prefeitura não tomava nenhuma. A única coisa que era feita aqui eram as 'podas assassinas'. Nós consideramos podas assassinas as feitas pela Comlurb e pela Light", frisa.
Procurada, a Light se manifestou por meio de nota oficial. "A Light não faz poda, apenas afasta os galhos da fiação para que não haja interrupção no fornecimento de energia elétrica. A concessionária também atua em conjunto com as prefeituras dos municípios que fazem parte de sua área de concessão".
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