Por luana.benedito
Rio - Ela é celebrada em prosa e verso, sendo fonte de inspiração de compositores, poetas e escritores ao longo dos últimos cinco séculos, que não se cansam de exaltar suas mais variadas virtudes, seja para o bem, seja para o mal. Falamos da cachaça, bebida genuinamente brasileira e uma das preferências nacionais, perdendo apenas para o café. Patrimônio Histórico Cultural do Rio de Janeiro desde 2012, a cachaça tem em nosso estado um forte polo produtor, com vários alambiques espalhados por todas as regiões e, muitos deles, abertos à visitação. Além dos engenhos, temos ainda o Museu da Cachaça, o único dedicado exclusivamente ao tema no Brasil.
Estado do Rio se destaca quandoo assunto é a cachaça. São vários os alambiques abertos à visitaçãoDivulgação

Fundado em 1991, o Museu da Cachaça vale a visita, mesmo para aqueles que não apreciam a bebida. Afinal, lá é possível aprender um pouco sobre a história da ‘branquinha’ no Brasil. Localizada em Paty do Alferes, distante cerca de 120 quilômetros da cidade do Rio, a instituição é fruto da obstinação e de anos de pesquisas do casal Íris Pinto e Iale Renan. Com um acervo com mais de 1.200 garrafas de todos os cantos do país, o local possui pequena biblioteca com livros especializados e recortes de revistas e jornais, além de uma vasta coleção de rótulos, entre outros itens.

Fechado entre os anos de 2009 e 2013, o Museu da Cachaça se mantém como uma instituição particular, sem verbas públicas, e atualmente está sob o comandado do administrador Luiz Antonio Gomes, que assumiu o espaço após a morte do casal de fundadores. Ele conta que tinha acabado de se aposentar e resolveu encarar o desafio de cuidar do espaço. “Achava que o local não podia acabar. E com a cara e a coragem, resolvi tomar à frente. Ainda bem que está dando certo”, lembra.
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De acordo com o administrador, quem visitar o museu poderá conhecer de perto as várias etapas de fabricação da bebida, como, por exemplo, os processos de envelhecimento e de engarrafamento. As visitas ainda dão direto à degustação dos vários tipos de cachaça, licores e batidas produzidos por lá. “A importância da cachaça está cada vez maior. Cresceu muito o interesse nos últimos tempos. Se antes as pessoas ficavam com o pé atrás, hoje elas perderam o preconceito. Até mesmo as mulheres passaram a beber e são grandes apreciadoras”, destaca Luiz Antonio Gomes.
Os apreciadores da bebida, aliás, têm algumas cidades como referência quando o assunto é cachaça. Paraty é um bom exemplo. O município chegou a ter mais de cem alambiques entre os séculos XVIII e XIX. A fama foi tanta que até hoje o termo parati está presente nos dicionários como um dos sinônimos de cachaça. Também é impossível não se lembrar do sucesso de Assis Valente ‘Camisa Listrada’, de 1937, na voz de Carmen Miranda, com os versos “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí, em vez de tomar chá com torradas ele bebeu parati”. Não por acaso, a bebida é ainda celebrada todo mês de agosto, quando acontece o Festival da Pinga, realizado desde 1982.
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Em Paraty, o destaque é o Sítio Santo Antônio, de propriedade de Maria Izabel Gibrail Costa, que fica 7,5 quilômetros do trevo da cidade, no sentido Santos. Lá, pode-se conhecer o processo de produção da cachaça Maria Izabel, visitar a pequena loja para a compra da bebida e ainda se hospedar no paradisíaco sítio — há duas suítes da casa principal e um chalé para até cinco pessoas.
No Sítio Santo Antônio há hospedagem e a degustação é feita com a própria Maria IzabelDivulgação

De uma família que já produziu cachaça entre o século XVIII e meados do XX, Maria Izabel resolveu resgatar a tradição familiar em 1996, fabricando artesanalmente sua própria cachaça. Atualmente produz as variedades prata e ouro, sendo que a primeira fica pelo menos um ano em tonéis de jequitibá, enquanto a segunda em barris de carvalho. As com mais de dois anos de envelhecimento são vendidas apenas na lojinha do local. A produção da Maria Izabel é bem pequena e em 2016 não passou dos seis mil litros. “Eu só uso cana-de-açúcar colhida no meu próprio canavial, o que reduz a acidez e garante sabor muito mais apurado”, ensina ela.

No Norte Fluminense, Quissamã é outra cidade que se destaca na produção de cachaça. Vale a pena conhecer, por exemplo, o Engenho São Miguel, onde é fabricada a cachaça Sete Engenhos. Fundado em 1858, atualmente é comandado por Haroldo Carneiro da Silva e está aberto à visitação. As visitas guiadas devem ser agendadas e só podem ser feitas por grupos de seis a quarenta pessoas. “Além de conhecer a fazenda, temos degustação e um almoço típico do século XIX na nossa sede”, enumera.

Bebida virou sucesso, foi proibida e gerou a Revolta da Cachaça

A  história do início da produção da cachaça no Brasil é um tanto controversa e são várias as versões. Há quem defenda que a bebida foi produzida pela primeira vez em 1516 em um engenho de Itamaracá, em Pernambuco. A cana-de-açúcar teria sido trazida pelo português Fernando de Noronha, em 1504. 

O historiador Luís Câmara Cascudo, em ‘Prelúdio da Cachaça’, oferece uma visão mais próxima à realidade. Ele garante que a fabricação somente teve início por volta de 1532 em São Vicente, atual cidade de Santos, São Paulo, um ano depois da expedição de Martim Afonso de Souza desembarcar com as primeiras mudas de cana-de-açúcar para a definitiva colonização do país.
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Com nome de origem espanhola — cachaza —, a cachaça caiu no gosto dos brasileiros e se tornou um produto de sucesso. Tanto que fez com que houvesse forte redução do consumo da bagaceira, aguardente que chegava importada de Portugal. Insatisfeitos, os portugueses resolveram proibir a fabricação da bebida no Brasil através de Carta Real datada de 13 de setembro de 1649.
Os produtores brasileiros, indignados, protestaram. Portugal, então, retira a proibição, mas aumenta os impostos da cachaça. Em seguida, em 1659, a Coroa decide proibir novamente o comércio da bebida, gerando novos protestos. Produtores do Rio de Janeiro se rebelam e em 1660 explode a Revolta da Cachaça. O governador da província é deposto, mas a rebelião é sufoca e o líder Jerônimo Barbalho Bezerra é enforcado. Tempos depois, a cachaça volta a ser liberada.