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Dutra precisa de nova pista de descida na Serra das Araras

Movimentos exigindo execução da obra, orçada em R$ 1, 7 bilhão, com expectativa de geração de 15 mil empregos começaram na década de 1990

Novo traçado teria 7,7 quilômetros de extensão, 17 viadutos, túnel e retorno no início e fim Sandro Vox / Agência O Dia

Rio - Principal proposta da chamada Agenda Regional do Desenvolvimento, a construção de mais uma pista de descida na Serra das Araras, na Rodovia Presidente Dutra — a BR-116 —, entre Piraí e Paracambi, ressurge como bandeira de luta de empresários, políticos e entidades ligadas ao transporte e turismo fluminenses.

O contrato de concessão da estrada mais importante do país, válido até 2021, completou duas décadas ano passado sem que a duplicação do trecho mais perigoso da via, campeão de acidentes e de engarrafamentos, saísse do papel. Pela Concessionária CCR Nova Dutra, entre 2010 e 2016, foram 2.190 acidentes — com nove mortos nos últimos três anos, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Os movimentos exigindo a execução da obra, orçada em R$ 1, 7 bilhão, com expectativa de geração de 15 mil empregos diretos e indiretos começaram na década de 1990, mas passaram a ser mais frequentes, já que o governo federal vetou a possibilidade de a CCR Nova Dutra, investir mais de 3,4 bilhões em toda a extensão da rodovia, incluindo o projeto da Serra das Araras.

A aplicação dos recursos, com autorização inicial da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), estava condicionada à ampliação do contrato de concessão, que termina em quatro anos. O governo Temer entende que não há previsão de ampliação do tempo de contrato.

Além de ampliar a capacidade da via, a duplicação da pista daria mais segurança aos motoristas e reduziria o tempo de viagem de boa parte dos mais de 950 mil usuários diários da rodovia, sem contar com a melhora no escoamento de produtos na estrada, responsável pelo transporte de mais de 50% do PIB. O projeto do novo traçado tem 7,7 quilômetros de extensão, 17 viadutos, túnel e retorno no início e fim do trecho.

“A agenda regional é um documento prioritário e referencial para o avanço econômico e social de todo o Sul do estado, no horizonte dos próximos dez anos. Não podemos mais esperar que essa obra seja postergada. As perdas para diversos setores, especialmente indústria, comércio e turismo, são inestimáveis”, justifica Edvaldo de Carvalho, presidente da Representação Regional FIRJAN/Centro Industrial do Rio de Janeiro (CIRJ) no Sul Fluminense. “Falta sensibilidade política quanto aos benefícios. O governo tem que agir. Estamos falando da principal rodovia do país. Não é possível mais conviver com essa indefinição, com esse descaso”, argumenta Evaldo.

Para chamar a atenção da necessidade de se acelerar o desenvolvimento, com um novo traçado na serra, prefeitos fizeram uma manifestação na localidade há um mês. “Esse gargalo que se tornou a Serra das Araras acaba sendo prejudicial à economia de todo o estado e não só local”, avalia o presidente da Associação Estadual de Municípios (Aemerj), Luiz Antônio Neves, e prefeito de Pirai.

Principal proposta da chamada Agenda Regional do Desenvolvimento, a construção de mais uma pista de descida na Serra das Araras, na Rodovia Divulgação

Luiz Antônio adverte que novos protestos ocorrerão, lembrando que hoje o pedágio custa R$ 13,80. O valor, no início da privatização, em 1997, com tráfego de apenas 86 mil veículos, não passava de R$ 2,46. “A Serra das Araras é hoje o principal entrave para o desenvolvimento do Sul Fluminense. Muitos empresários preferem gastar mais para se deslocar de avião até São Paulo do que passar pela serra”, queixa-se o secretário de Desenvolvimento Econômico de Volta Redonda, Joselito Magalhães.

Quem é obrigado a trafegar periodicamente pelo local não esconde o medo. “Nossa segurança na Serra das Araras, sinceramente, é Nossa Senhora Aparecida. Mandei até pintar a imagem dela no cavalinho da minha carreta”, conta o caminhoneiro Juciano Coelho, de 39 anos, que, com o amigo, Claudir Sunda, 57, passa por lá pelo menos uma vez por semana, transportando 32 toneladas de pisos e granitos. “Perdemos tempo e dinheiro com frequência com engarrafamentos”, testemunha Jucemar dos Santos, de 54 anos.

ANTT diz que concluiu atribuições

Em nota, a ANTT argumentou que decidiu arquivar o processo de novas obras propostas pela Nova Dutra, após audiência pública para prorrogação do contrato de concessão. “A Agência concluiu as atribuições que lhe eram cabíveis no processo; portanto, qualquer consideração a respeito desse assunto deve ser feita pelo Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, órgão responsável pelas diretrizes e políticas públicas de transporte”, limitou-se a informar.

Também em nota, o Grupo CCR informou que a decisão do governo de não autorizar novos investimentos ao contrato “não altera o compromisso com a qualidade na prestação de serviços aos usuários “.

No texto, a CCR diz que elaborou um projeto executivo que permite o início quase imediato de obras, capazes de gerar 5 mil empregos diretos. “Cabe agora ao poder concedente definir se esses investimentos devem ou não ser feitos”, alega. 

A concessionária lembra que nos últimos 20 anos investiu R$ 17 bilhões para transformar a rodovia em uma estrada mais segura. “Esses investimentos salvaram vidas, como confere o índice de vítimas fatais, reduzido em 84% desde o início da concessão”, garante e empresa.

Rotina de acidentes e mortes

Da humilde barraca de água de coco, frutas e salgados, no início da pista de descida da Serra das Araras, dona Nilda de Oliveira, de 64 anos, observa o movimento dos veículos. Para ela, o trecho de 9 quilômetros é um misto de satisfação e de dor.

“Aqui já sustentei sete filhos”, orgulha-se, mudando a expressão e enchendo os olhos d’água quando o assunto é acidente, que ela diz ver “constantemente”. “Praticamente toda semana tem acidente grave. É veículo que pega fogo, gente que morre nas ferragens, caminhões que tombam à beira do precipício, cargas que se esparramam e são saqueadas. Um horror”, critica ela.

Nilda lembra que o marido, Augusto, 65, morreu atropelado lá há sete anos, por uma carreta, no dia do nascimento de uma neta. “Minha filha, Rosimere, 40, também foi atropelada, com 15 anos. Sobreviveu. Mas até hoje não ficou boa da coluna”, lamenta.

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