Maria Fernanda Cândido usa suas facetas para narrar contos de Clarice Lispector

Atriz estreia o quadro 'Correio Feminino' no 'Fantástico'

Por O Dia

Atriz estreia o quadro 'Correio Feminino' no 'Fantástico'Divulgação

Rio - Aos 25 anos, Maria Fernanda Cândido foi eleita a mulher mais bonita do século 20, em um concurso promovido pelo ‘Fantástico’. Hoje à noite, mais de uma década após receber o título, a atriz volta ao programa de maneira não menos suntuosa, no quadro ‘Correio Feminino’, como Helen Palmer, pseudônimo utilizado por Clarice Lispector, uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira, em suas crônicas publicadas em jornais entre as décadas de 1950 e 60.

“A beleza pode abrir portas, sim, é um valor dentro da sociedade contemporânea, não há como negar. Mas o fato de abrir portas não significa que vá manter você em algum lugar. Ela não é o suficiente para lhe sustentar”, ensina Maria Fernanda, em total sintonia com a personagem criada por Clarice, que dá dicas às mulheres sobre culinária, sedução, beleza, maternidade, moda e casamento.

Prestes a completar 40 anos, em 2014, a Mulher do Século garante não ter problemas com o passar dos anos e as mudanças impostas pela idade. “Lido de maneira bastante natural. É a minha realidade! Tenho 39 anos e dois filhos. Envelhecer faz parte do processo”, enfatiza. O reflexo que vê no espelho todos os dias é algo que lhe agrada.

“Tenho que gostar, né? E eu gosto mais do que eu vejo hoje. Com a experiência, você passa a ter mais equilíbrio. Isso acaba influenciando e ajudando na relação que temos com a gente”, avalia, procurando não julgar quem se torna refém da própria aparência. “A vida é feita de escolhas. E essas escolhas vão norteando seu caminho. Não julgo ninguém, mas as minhas escolhas na vida estão aí, expostas”, diz.

Assim como a personagem criada por Clarice, Maria Fernanda conta que corta um dobrado com seus afazeres domésticos. “Sou uma dona de casa, me preocupo com o funcionamento e o bem-estar dos meus filhos. Ter uma casa é algo fácil. Ter um lar já é outra coisa, que exige dedicação”, observa ela, que se derrete ao falar dos filhos Tomás, de 7 anos, e Nicolas, 4, de seu casamento com o empresário francês Petrit Spahija.

“Depois que eu me tornei mãe, comecei a enxergar a realidade de uma maneira muito mais precisa e concreta. Até então, a gente ainda pode se dar ao luxo de fantasiar mais, com certo grau de distração. Com filhos, isso muda radicalmente. São crianças que dependem de você o tempo todo”, diz.

É por causa dos pequenos, aliás, que Maria Fernanda tem dado prioridade a trabalhos que não afetem tanto sua rotina. “Trata-se de uma questão de logística. Moro em São Paulo, meu marido trabalha lá e meus filhos estudam”, lamenta. Morar no Rio não passa pela cabeça da atriz. “Se eu tivesse que fazer (uma mudança), já deveria ter feito. Não dá para ficar trocando os meninos de escola. É complicado”, explica.

Ela confessa, no entanto, sentir falta de atuar em novelas. Seu último papel longo foi em ‘Paraíso Tropical’ (2007). Ano passado, fez uma participação especial em ‘Lado a Lado’. “Estou com muita saudade de fazer novela. Torço para que logo eu consiga. Mas estou muito feliz em retornar à TV na série, radiante em voltar a ter um contato direto direto com as pessoas”, comemora a atriz, em cartaz em São Paulo com a peça ‘Toca do Coelho’, ao lado de Reynaldo Gianecchini.

Crônicas escritas por Clarice sob o pseudônimo Helen Palmer foram descobertas pela atriz ao receber o convite para a sérieDivulgação

As mulheres de Clarice

O primeiro contato de Maria Fernanda Cândido com Clarice Lispector foi aos 18 anos, no clássico ‘A Hora da Estrela’, que narra a história da datilógrafa nordestina e ingênua Macabéa. “Nasceu aí uma grande paixão”, lembra. Mas as crônicas escritas por Clarice sob o pseudônimo Helen Palmer foram descobertas pela atriz ao receber o convite para a série, de oito episódios, que começa hoje. “A Clarice consegue dar profundidade a temas aparentemente banais nessas crônicas. Será uma oportunidade de ser fisgado e entrar no mundo da escritora, uma porta de entrada. Ela vai cativar muita gente”, acredita Maria Fernanda.

Sua personagem narra todos os episódios de ‘Correio Feminino’, como apresentadora de um programa de rádio e TV, sempre pronta a ajudar três gerações de mulheres: a top Cintia Dicker é a adolescente, a atriz Alessandra Maestrini vive a mulher jovem e a ex-modelo Luiza Brunet simboliza a mulher madura. As três não terão falas. Tudo será conduzido por Helen Palmer.

Desafiadas a trabalhar apenas com o gestual, elas tiveram aulas de balé clássico e preparação corporal. “Sempre consideramos que as personagens deveriam falar o mínimo, abrindo espaço para a voz de Helen Palmer. No texto original ainda permaneceram algumas frases aqui e ali, mas que eliminei na edição”, explica o diretor Luiz Fernando Carvalho. “Não tem voz, mas todo o corpo fala com emoção”, emenda Luiza Brunet.

Nos conselhos de Helen Palmer, diversas questões serão abordadas, como envelhecimento e o aparecimento das rugas. “Envelhecer não é fácil, mas essa é uma das funções da série. Eu não tenho nenhum problema com isso, acho que rugas fazem parte da vida. Eu aceitei o convite do Luiz, porque acho que iria me trazer autoconfiança e segurança para me despir da beleza e mostrar uma mulher verdadeira”, conta Brunet, de 51 anos.

Decepções amorosas também terão destaque na série. “Eu me identifiquei muito antes de gravar. O Luiz Fernando me contou como era a personagem: uma mulher apaixonada por tudo, pela vida, pelo homem... e desengonçada. Eu disse: ‘Essa mulher sou eu’”, brincou Alessandra Maestrini.
A top model Cintia Dicker, que vive a adolescente, está nervosa com sua estreia na TV. “Foi incrível gravar, mas é claro que fiquei com medo. Foram duas semanas entre eu saber que estava escalada e o início do trabalho, no Rio. Pareceu uma eternidade. Ligava para minha mãe o tempo inteiro”, lembra a ruiva.

A segunda temporada da série, segundo Luiz Fernando Carvalho, deve acontecer. “Há, indiretamente, uma conversa sobre a possibilidade de criarmos mais episódios. Clarice tem material para isso, sem dúvida”, conta o diretor.

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