'É esse valor dando aquele plus no túnel, né?', diz fiscal da Dersa em grampo

Obras são alvo da PF, que prendeu na quinta-feira o ex-diretor-presidente da Dersa Laurence Casagrande Lourenço, que foi secretário de Logística e Transportes do Governo Alckmin (PSDB)

Por ESTADÃO CONTEÚDO

Fiscal da Dersa foi pego em grampo
Fiscal da Dersa foi pego em grampo -

São Paulo - Grampo da Polícia Federal na Operação Pedra no Caminho capturou um diálogo entre o engenheiro fiscal da Desenvolvimento Rodoviário S/A (Dersa) Edison Mineiro Ferreira dos Santos e um homem não identificado tratando de valor de medição e de planilhas da construção do Trecho Norte do Rodoanel. As obras são alvo da PF, que prendeu na quinta-feira o ex-diretor-presidente da Dersa, Laurence Casagrande Lourenço, que foi secretário de Logística e Transportes do Governo Alckmin (PSDB).

A Pedra no Caminho mira desvios que podem chegar a R$ 600 milhões em recursos públicos em obras do Rodoanel Norte. As investigações apontam que aditivos contratuais, relacionados principalmente à fase de terraplanagem da obra, incluíam novos serviços para efetuar a remoção de matacões (rochas) misturados ao solo.

Edison foi alvo de mandado de prisão temporária ordenado pela juíza Maria Isabel do Prado, da 5.ª Vara Federal, em São Paulo. A conversa começou às 10h01, de 29 de maio do ano passado e durou dois minutos.

O interlocutor do fiscal cita o engenheiro Pedro Paulo Dantas do Amaral, da Dersa, também alvo de custódia na Pedra no Caminho. "Oh, Edson, deixa eu entender aqui. Eu tô com uma planilha que eu pedi pro Pedro Paulo ver com vocês. Quanto que daria a medição sem considerar o aditivo. É esse valor aqui mesmo?"

"É… esse valor… dando aquele plus no túnel, né?", responde Edison.

"Não, não. Esquece! Sem considerar nada… seco", pede o homem não identificado.

Edison diz. "Ah tá" Então eu vou fazer e te mando já! Tá?"

"Ah… quanto que é o valor seco? Sem considerar o (inaudível) aditivo. Quanto que dá?", insiste o interlocutor.

"Então, deve estar dando uns três e meio, quatro", afirma o engenheiro fiscal.

"Tá bom! Isso que eu preciso… eu preciso desse número. Tá bom?", solicita o homem.

"Tá, tá bom, tá, te passo", afirma Edison.

Em outro trecho da conversa, o interlocutor avisa ao engenheiro. "(Inaudível) aditivo ainda tá enroscado, tá ok?"

"Põe 3 então… tá ok?", responde Edison.

Em relatório, a PF afirma que o interlocutor foi 'bastante enfático' ao afirmar que o valor da medição 'não deveria considerar aditivo algum'.

"Edison, então, explicou que foi acrescentado no valor da medição um "plus" referente ao túnel, do que fora repreendido pelo interlocutor não identificado, nos seguintes termos: 'esquece, sem considerar nada… seco'. Edison, em seguida, responde que irá refazer o cálculo. Tal circunstância demonstra, pois, possível ascendência hierárquica do interlocutor não identificado sobre Edison", analisou a PF.

No documento, a Federal destaca um trecho final da ligação, na qual 'Edison passa uma estimativa do valor sem considerar nenhum adicional, em torno de 3,5 ou 4 (no contexto da ligação, as somas são de R$ 3,5 mi ou R$ 4 mi), mas ao final fala o valor de 3, dando a entender que se tratava da soma de R$ 3 mi'.

"Sobreleva notar esse ponto do diálogo, pois o interlocutor não identificado parecer dar ordens a Edison, que as aceita como se houvesse uma relação de hierarquia entre eles. Por outro lado, uma vez que a função de Edison é a de realizar medições da obra, espera-se que o faça utilizando parâmetros legais e fundamentados no andamento real da obra, não baseados em determinações internas ou externas", registrou a Federal.

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