Palestrantes participam de fórum dedicado às mulheres e mobilidade urbana - Felipe Rau / Divulgação
Palestrantes participam de fórum dedicado às mulheres e mobilidade urbanaFelipe Rau / Divulgação
Por Thiago Antunes*
Rio - Um dos painéis do Summit Mobilidade Urbana 2019, promovido pelo jornal O Estado de São Paulo e a 99 na quinta-feira (30), na Casa das Caldeiras, em São Paulo, tratou do tema da mobilidade urbana para mulheres. Moderado pela jornalista Mariana Barros, o fórum jogou luz sobre as demandas específicas de gênero e de como as cidades se beneficiam ao investir em meios mais seguros e completos para todos. Participaram Juliana de Faria, diretora da ONG Think Olga, Simony César, fundadora do Nina Mobile, e Stella Hiroki, doutora e palestrante sobre cidades inteligentes. Perguntadas sobre as especifidades, as participantes apresentaram pontos de vista complementares.
"Por causa das desigualdades de gênero, há influência da maneira como nós utilizamos os transportes públicos. Os homens partem do ponto a ao b, às vezes só precisam levar a criança à escola. A mulher exerce funções do lar, como cuidar de familiares idosos e ter a maior parte, se não a maioria, da carga doméstica. O deslocamento da mulher é mais complexo, então se os bairros fossem autossustentáveis poderiam ajudar. Na Olga, descobrimos que que o andar a pé é feminino. Claro, há interseccionalidade de classe e raça, mas cerca de 50% dos caminhos são a pé e 28% de ônibus em famílias com um salário mínimo. Há o perigo da violência sexual para mulheres. Os pontos de ônibus são onde elas se sentem mais vulneráveis, por estarem sozinhas na maioria dos casos", citou Juliana.

Para Simony, cujo aplicativo centraliza dados da violência contra mulher, é preciso prestar atenção nos pormenores da questão. "Temos que calcular quanto as mulheres gastam com mobilidade, é algo que compromete muito a renda delas. Como no Recife, 65% das mulheres caminham ou usam transporte público para acessar a cidade, há um índice de violência grande. A mulher periférica é a mais vulnerável, mas se os problemas são identificados e há ações contrárias, dá para impactar em toda a pirâmide", observou.

Stella Hiroki ressaltou que as mudanças sobre a mobilidade urbana nas cidades estão cada vez mais próximas da realidade, mas ressaltou a importância dos estudos dos dados. "Todos pertencemos ao espaço urbano. Não viveremos no mundo dos Jetsons, com carros voadores, mas a mudança será comparada à entrada da luz elétrica nas cidades. Precisamos estudar os dados para devolvê-los da melhor maneira possível. No que diz respeito às mulheres, pode-se analisar conceder postos de trabalho próximos ao trabalho delas, bem como locais mais iluminados e seguros. 
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Perguntadas sobre se a instalação de câmeras 24h seria suficiente para coibir os abusos contra as mulheres em pontos de ônibus, por exemplo, elas foram taxativas. "Não acredito que seja realmente efetivo. O que tem de ocorrer é uma mudança cultural. É preciso falar da forma como o gênero é tratado. Se parte da população masculina não compreender, não vai adiantar. Não há como fugir da educação, é o mesmo debate sobre os vagões exclusivos para mulheres. Os homens não precisam fazer o mesmo planejamento das mulheres ao saírem de casa, pensar em roupas para não serem assediados, pensarem em caminhos que demorem mais por medo de assédio ou mesmo pedir que um parceiro ou parceira as acompanhem para tentar evitar esses casos", disse Juliana de Faria.
"Em Fortaleza, o Nina atua muito recentemente. Em parceria com prefeitura, o aplicativo age com as câmeras e, quando há denúncia de algum caso, ele identifica o ônibus e as empresas têm até 72h para encaminhar as imagens à polícia. Em um mês, foram 200 denúncias, sendo 19 delas encaminhadas. Mas, posso dizer por experiência própria, que não basta só colocar as câmeras. Às 18h de um domingo, eu aguardava a chegada de um ônibus no ponto, onde estavam dois homens. Um assaltante se aproximou, me atacou e levei três facadas na mão. Perdi parte dos movimentos do dedo mindinho e do anelar. Quem me ajudou foi uma mulher que passou de carro buzinando. O bandido poderia ter atacado os dois homens, mas escolheu me atacar. Então, as câmeras na parada de ônibus, talvez não sejam muito efetivas. A desconstrução do machismo cabe ao espaço masculino", disse Simony.

"É mais um trabalho de baixo para cima. Faz diferença ter uma câmera, mas é preciso utilizar a tecnologia de forma crítica, pensando também nos problemas no entorno de um ponto de ônibus e questionar o porquê de faltar iluminação e policiamento", pontuou Stella.
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A especialista foi perguntada sobre como tornar os espaços nas smart cities mais colaborativos. "É necessário pensar nas intersecções, nas diferentes perspectivas de vivência. Há uma cultura na tecnologia que a relega a homens brancos, de classe média alta. Em outros países, como Singapura, há mulheres liderança essa questão da mobilidade. Em Dublin, há grupos de inclusão. O Brasil olha os parâmetros europeus. Se olhássemos para as nossas próprias características, conseguiríamos desenvolver os pontos principais e desenvolver projetos para ter cidades mais seguras. Em Medellin, deu muito certo o desenvolvimento, porque veio junto como o caminho para a periferia participar. Sem participação inteligente, não teremos cidadãos inteligentes e nem inclusão".

Já sobre a mudança do pensamento machista enquanto vetor de violência na sociedade, as três concordam que é necessária a desconstrução dos próprios homens. "A sociedade influencia na forma como o setor privado funciona. Em casos de assédio em apps, é preciso ter regras rígidas. Homens e mulheres também não podem ignorar casos de assédio nas ruas. Mesmo que uma mulher finja que conheça a outra para tentar ajudá-la, ela também pode correr risco. Nós estamos sozinhos, mas não precisamos estar", concluiu Juliana.

*Repórter foi a São Paulo a convite da 99