
Ao se deitar, se lembra das imagens vistas por ele e gravadas no celular. Segundo o motoboy, essas cenas aparecem em sequência repetitiva. É como se ele voltasse para aquele lugar e fosse capaz de ouvir os socos, os gritos e as vozes. José lembra inclusive de outra mulher que filmava as agressões junto a ele e, ao mesmo tempo, tapava os olhos do filho.
O motoboy tinha acabado de fazer compras de supermercado. Ao sair dos caixas, ele caminhou até o estacionamento e já tinha subido na motocicleta para ir embora quando viu dois seguranças agredindo um cliente negro. Era João Alberto.
De acordo com o relato dele, João Alberto estava com o braço esticado para trás como se tentasse se livrar. Mas, além disso, ele também diz que presenciou o soco de João Alberto e viu gente aglomerar.
As agressões ocorriam a três metros dele. Conforme relatou à polícia, já fazendo a gravação pelo celular, chegou mais perto dos seguranças para tentar fazer com que parassem. Falou alto que estava gravando, mas os socos continuaram.
Ao ver que tudo era gravado, a agente de fiscalização Adriana Alves Dutra, 51, o alertou que isso poderia prejudicá-lo, o "queimando" na loja. Ele respondeu que o que estava sendo feito com João Alberto não estava certo.
Os seguranças intimidavam quem tentasse ajudar a vítima ou tentasse apartar. "Todo mundo pediu para eles pararem", conta José. Um deles era mais agressivo e tentava pegar os celulares das pessoas que filmavam.
Nem mesmo a esposa de Beto, Milena Borges Alves, 43, foi poupada. Um deles a puxou pelo braço quando ela tentou se aproximar e outro, de paletó, a empurrou com a lateral do corpo.
Adriana estava aos gritos com as pessoas que acompanhavam a cena. A funcionária insistia que "o público" não sabia o que tinha acontecido no interior do mercado.
Dentro de 15 minutos, Beto já não apresentava mais resistência, nem falava mais. A boca estava roxa, as pontas dos dedos da mão tinham cor diferente. Os seguranças olharam para os presentes e perguntaram se alguém sabia checar sinais vitais. Um senhor de cerca de 70 anos se aproximou, analisou a vítima e avisou que ele havia morrido.
José esperou a chegada da segunda ambulância. Mesmo de longe, escutou o massageador cardíaco gritar: "tente mais forte, tente mais forte".






