Ao deixar o governo Bolsonaro, Moro afirmou que o chefe do Executivo tentou interferir em investigações da PF, o que desencadeou o inquérito AFP

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) prestou depoimento à Polícia Federal (PF) sobre o inquérito que apura se houve, ou não, tentativa de interferir politicamente no comando da corporação para proteger familiares de investigações. O chefe do Executivo afirmou que não interferiu na PF e que trocou o então diretor-geral, Maurício Valeixo, no ano passado, por "falta de interlocução".

"Que confirma que em meados de 2019 solicitou ao ex-ministro Sergio Moro a troca do Diretor Geral da Polícia Federal DPF Valeixo, em razão da falta de interlocução que havia entre o presidente da República e o diretor da Polícia Federal. Que não havia qualquer insatisfação ou falta de confiança com o trabalho realizado pelo DPF Valeixo, apenas uma falta de interlocução", registrou a PF no depoimento de Bolsonaro.

A oitiva ocorreu na noite desta quarta-feira, 3. Segundo determinação feita no dia 7 de setembro pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o depoimento deveria ser tomado presencialmente em um prazo de até 30 dias.

Bolsonaro também afirmou que não tentou obter informações privilegiadas ao trocar o comando da corporação, segundo trecho exposto na transcrição do depoimento. “Que nunca teve como intenção, com a alteração da Direção Geral, obter informações privilegiadas de investigações sigilosas ou de interferir no trabalho de Polícia Judiciária ou obtenção diretamente de relatórios produzidos pela Polícia Federal”.
Em diferentes trechos de seu depoimento, Bolsonaro também atacou Moro, o ex-aliado que agora pode ser seu concorrente nas eleições 2022.

O presidente repetiu a acusação de que o ex-juiz da Lava Jato teria concordado em colocar o delegado Alexandre Ramagem na chefia da PF "desde que ocorresse após a indicação do ex-Ministro da Justiça à vaga no Supremo Tribunal Federal". Além disso, afirmou que o ex-ministro estava "administrando a pasta sem pensar no todo, sem alinhamento com os demais ministérios e o Gabinete da Presidência".

Em nota, a defesa do ex-ministro Sérgio Moro reagiu ao fato de que não foi comunicada do depoimento, "impedindo seu comparecimento a fim de formular questionamentos pertinentes" (leia a íntegra da nota ao fim da matéria).

O ex-decano Celso de Mello, ao determinar que Bolsonaro prestasse o depoimento presencialmente, havia autorizado os advogados do ex-juiz a formularem perguntas a serem feitas ao chefe do Executivo.
Entenda o caso

O inquérito foi aberto pelo STF em abril do ano passado, a pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), após acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Ao deixar o governo Bolsonaro, Moro afirmou que o chefe do Executivo tentou interferir em investigações da PF ao cobrar a troca do chefe da Polícia Federal no Rio de Janeiro e ao exonerar o então diretor-geral da corporação Maurício Valeixo, indicado por Moro. Bolsonaro negou ter tentado interferir na corporação.
O relatório da Polícia Federal será enviado à Procuradoria-Geral da República, a quem cabe decidir se há provas suficientes para a apresentação de uma denúncia contra o presidente.
Defesa de Moro

"A Defesa do ex-ministro Sérgio Moro foi surpreendida pela notícia de que o presidente da República, investigado no Inquérito 4831, prestou depoimento à autoridade policial sem que a defesa do ex-ministro fosse intimada e comunicada previamente, impedindo seu comparecimento a fim de formular questionamentos pertinentes, nos moldes do que ocorreu por ocasião do depoimento prestado pelo ex-ministro em maio do ano passado. A adoção de procedimento diverso para os dois coinvestigados não se justifica, tendo em vista a necessária isonomia entre os depoentes.

Rodrigo Sánchez Rios. Advogado do ex-ministro Sergio Moro"
*Com informações do Estadão Conteúdo