A personal trainer Kely Moraes usou as redes sociais para denunciar o caso absurdo que viveu em uma das academias que trabalha, na manhã desta segunda-feira (26). Ela, que também é fisiculturista, foi impedida por um casal de entrar em um banheiro ao ser confundida com uma mulher trans. O caso aconteceu em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife (PE), em uma unidade da rede Selfit.
No vídeo, que circula nas redes sociais, é possível ver que o homem reafirma diversas vezes que Kely não pode entrar no banheiro. Nas imagens, ele discute com uma das alunas da personal, que a defendeu depois de entender a situação. Em um momento, ele chega a afirmar que ela deveria usar outro banheiro da academia, que fica no andar inferior, por ela ser uma pessoa 'inclusiva'.
Casal impede personal de usar banheiro em academia por suspeitar que profissional era mulher trans pic.twitter.com/XS7NJmU2Dt
A mulher que iniciou a discussão aparece no fim do vídeo. Ela também reafirma que Kely não poderia entrar no espaço. Em seu perfil, do Instagram, a fisiculturista, que ficou muito abalada, expôs a gravação e explicou o que aconteceu.
"Eu já tinha ido no banheiro e estava descendo a escada. Ela passou por mim, parou no meio do caminho e disse que eu não poderia entrar naquele banheiro. Eu nem estava acreditando no que estava acontecendo, achei que ela estava brincando", contou.
Ela disse então que retornou e perguntou o motivo de ser impedida de acessar o espaço. "Porque ali não é o seu lugar, não é banheiro para homem", rebateu a mulher. "E aí eu entendi o peso da situação", disse Kely, que narrou os acontecimentos que viveu dentro da academia.
"Eu não tenho que provar nada para ninguém. Eu sou uma pessoa digna do meu trabalho, estudei para isso, estou no lugar onde Deus me colocou. E por que eu não posso ir? Por que ela está dizendo isso? Em nenhum momento ela titubeou para pedir desculpas ou de assumir que estava errada. Ela falou com tanta convicção o que eu era que se eu brincasse até eu acreditava. Eu estava errada em uma coisa que eu nem errei. Eu só queria ir no banheiro, só isso, nada mais. Ela falou que eu não era mulher e que não podia ir naquele banheiro, mas em um lá embaixo", seguiu.
Kely explicou que a mulher que iniciou a briga foi levada por funcionários da academia para uma sala reservada. Em seguida, a personal contou que uma de suas alunas entrou na briga e começou a defendê-la. De acordo com ela, foi nesse momento que o homem que aparece no vídeo surge e a discussão aumenta.
"Fico muito grata a ela, porque de toda essa minha vida é muito difícil alguém me defender na hora que precisa. Foi quando a minha aluna fica muito nervosa e começa a discutir que ele chega, não sei se é marido da menina, namorado, irmão... ele diz que eu não posso frequentar o banheiro, porque lá embaixo tem um banheiro e que eu era uma pessoa 'inclusiva'. Ele fica meio que tentando me impedir com o corpo", disse.
Nas imagens, é possível ver que, já no fim da discussão, o homem puxa a mulher e os dois vão embora sob protesto, ainda afirmando que Kely estaria errada. A fisiculturista afirmou que fez boletim de ocorrência e que vai processar os dois.
Nas redes sociais, o Conselho Regional de Educação Física da 12ª Região/Pernambuco (CREF12/PE) repudiou o caso e prestou solidariedade à personal trainer. "O Conselho já entrou em contato com a Profissional, se colocou à disposição dela e está acompanhando de perto toda a situação e reafirma que defende os Profissionais de Educação Física, especialmente quando têm seus direitos violados", afirma a nota.
Visivelmente abalada com a situação, Kely contou que o que restou do caso foi o sentimento de vergonha. "Eu estou, sinceramente, envergonhada, não por ser comparado a uma trans, porque honestamente para mim é um elogio. As trans são lindas e cada uma tem sua história, suas guerras, mas envergonhada pela vergonha [da situação]. Minha cabeça está cansada. Fiz minha parte, boletim de ocorrência... vou processar", afirmou.
Procurada pelo DIA, a Polícia Civil de Pernambuco não respondeu os questionamentos da reportagem até o fechamento da matéria. o espaço segue aberto.
Em nota, Selfit lamentou o episódio e reiterou que repudia qualquer ato de preconceito ou violência.
"Assim que a situação foi identificada, a equipe local agiu para conter os ânimos e garantir a segurança das pessoas envolvidas. As partes foram orientadas a formalizar o ocorrido às autoridades competentes e, desde então, a Selfit está à disposição para colaborar com as investigações. Também foi iniciada uma apuração interna rigorosa e serão aplicadas medidas disciplinares adicionais, conforme os princípios e valores da empresa", disse.
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