Lula disse que nunca teve 'problema fiscal' e voltou a falar na criação do Ministério da Segurança PúblicaReprodução / TV Globo
Publicado 28/08/2026 07:38 | Atualizado 28/08/2026 07:51
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu o filho, Fábio Luís Lula da Silva, mas reconheceu que é "totalmente errado" que seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, tenha recebido recursos da lobista Roberta Luchsinger, como revelado pelas investigações da Polícia Federal. O presidente foi sabatinado nesta quinta-feira, 27, pela TV Globo.
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O presidente afirmou que não existe, até o momento, uma acusação contra o seu filho, mas apenas suspeitas baseadas em conversas telefônicas e outros elementos da investigação. "Uma conversa de telefone não justifica nada. São só ilações tiradas de telefonemas", afirmou.

Lula disse, porém, que não irá proteger Lulinha caso seja comprovado algum ilícito. "Se ele cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar", afirmou. O presidente também disse que não pretende trocar delegados da PF nem interferir nas investigações "Não haverá um milímetro de movimento", declarou.

Sobre Lulinha, ele afirmou que a PF não encontrou, até o momento, provas de desvio de dinheiro público ou de conversas do filho com ministros. "Até agora, não existe uma prova de um centavo público ou de uma conversa de um filho com algum ministro", afirmou.

O presidente também afirmou não conhecer Roberta Luchsinger, citada nas investigações, e disse que nunca a viu ou teve contato próximo com ela. Ele ainda perguntou, para defender seu governo: "Essa mulher conseguiu liberar o dinheiro que ela estava atrás?"

O presidente defendeu ainda a presunção de inocência de pessoas que são investigadas, mas não foram condenadas, como Marcola, seu ex-chefe de gabinete.

Apesar disso, questionado se seria adequado o chefe de gabinete receber recursos e joias, como apontado pelas investigações, o presidente apenas afirmou que "é totalmente errado".

"Não é adequado, é totalmente errado e o Marcola sabe disso, porque não é esse o papel do chefe de gabinete", afirmou Lula, dizendo que o chefe de gabinete poderia ter falado com ele se estava com problemas financeiros.

Lula disse que a relação política ou pessoal com alguém investigado não significa participação em eventuais irregularidades administrativas. "Era uma pessoa de total confiança, cometeu o erro, paga o preço", declarou.

Ele reconheceu que a relação entre Marcola e Roberta Luchsinger gera "suspeita e desconfiança" para o Palácio do Planalto. O presidente afirmou que o ex-chefe de gabinete cometeu um erro ao receber os R$ 249 mil, mas disse acreditar, por enquanto, na versão de que o dinheiro foi emprestado. Segundo Lula, uma eventual acareação entre Marcola e Roberta poderá esclarecer a origem dos recursos.

Lula também foi questionado sobre as fraudes no INSS e a relação de pessoas próximas ao governo com os investigados. O presidente afirmou que seus aliados atuaram para prender os responsáveis e ressarcir os aposentados e pensionistas prejudicados. "Nós fizemos questão de pegar na cadeia as pessoas, fizemos questão de pagar o devido", disse.

Lula mencionou a situação do ex-ministro da Previdência Social Carlos Lupi, demitido após o estourar da crise envolvendo os descontos ilegais. Contudo, foi questionado sobre o fato de que manteve uma aliança política com ele e o elogiou publicamente após o episódio. "[Lupi] não está condenado, é um cidadão livre, tenho que deixar de falar com ele?", perguntou.

Ao tratar da fila do INSS, Lula afirmou que pretende anunciar na próxima semana que ela foi zerada. Segundo o presidente, atualmente há 251 mil pessoas aguardando atendimento, número que ele considera dentro da normalidade.

Presidente defende Jaques Wagner
A entrevista também abordou as investigações envolvendo o Banco Master. O presidente também comparou o caso às investigações envolvendo seu filho e disse que o episódio do Banco Master seria "mais grave", mas estaria "silenciado".

O presidente ainda defendeu o senador Jaques Wagner (PT-BA), investigado por supostas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro. Lula disse que não está provado que ele tem relação com o dono do Banco Master e, ao falar sobre o caso, disse que "pessoas são inocentes até que se prove o contrário".

"Não posso admitir e aceitar é fazer política vivendo de ilações todo santo dia. Você tem um processo, tem uma apuração e tem uma investigação. As pessoas são inocentes até que se prove o contrário", disse Lula.

Ao falar sobre Jaques Wagner, Lula afirmou que não irá colocar em dúvida o comportamento do aliado, de quem é amigo próximo. Disse ainda que defenderá o senador durante o curso das investigações e disse ter consciência de que ele é "honesto".

"É um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista. Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação. Eu tenho consciência de que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu", declarou.

Jaques Wagner foi alvo de uma operação de busca e apreensão por parte da Polícia Federal em junho, após os investigadores suspeitarem de que ele havia beneficiado Vorcaro em articulações no Senado em troca de benefícios financeiros.

A PF suspeita que Jaques Wagner recebeu um imóvel de R$ 2,5 milhões e pagamentos de propina que totalizaram R$ 3,5 milhões por meio de uma empresa ligada a um de seus familiares.

Lula diz que nunca teve problema fiscal
Questionado sobre o aumento da dívida pública durante seu atual governo, Lula rejeitou a avaliação de que o País esteja em uma situação fiscal insustentável. O presidente lembrou o desempenho fiscal de seus primeiros mandatos e afirmou que teve superávit primário durante oito anos. "Nunca tive problema fiscal nesse País", disse.

Lula também relacionou a evolução da dívida ao crescimento econômico e afirmou que a economia brasileira voltou a crescer após seu retorno à Presidência. Para defender sua avaliação sobre a dívida brasileira, comparou o País a outras grandes economias, como Estados Unidos, Japão e Itália, e afirmou que os Estados Unidos têm cerca de US$ 40 trilhões em dívida.

"A mim não preocupa a dívida pública. Eu herdei esse governo com déficit fiscal de 2,8% [do PIB]. Sabe quanto vai ser esse ano? Superávit primário de 0,1% [do PIB]. Se tem alguém nesse País que tem responsabilidade fiscal sou eu", afirmou, ao ser questionado se tinha preocupação com a trajetória da relação dívida/PIB do Brasil, que atingiu 81,9% do PIB em junho deste ano.

Ao falar sobre segurança pública, Lula foi questionado sobre o tempo em que o PT governou a Bahia e como o Estado contém cinco das 10 cidades mais violentas do País.

Ele afirmou que nenhum governador baiano, independente do partido, conseguiu resolver o problema da violência no Estado. Segundo o presidente, a questão só poderá ser enfrentada com "muita inteligência".

Lula voltou a dizer que fará a criação de um Ministério da Segurança Pública se a PEC da Segurança for aprovada, tratando da definição do papel da Polícia Federal na atuação nos Estados.

Lula também afirmou que o governo está preparado para realizar novas operações de combate ao crime organizado e defendeu uma atuação conjunta com as prefeituras. "Nós estamos preparados para muitas operações", disse. Segundo o presidente, os municípios devem estabelecer uma comunicação com o governo federal para permitir um trabalho coordenado na área.

Estatais
O presidente afirmou, na sabatina, que não vai vender os Correios e garantiu que a estatal sairá da crise em que se encontra. O prejuízo foi de R$ 3,1 bilhões no primeiro semestre de 2026.

Ao ser questionado sobre a situação da empresa e propostas para uma privatização, Lula disse que os números negativos são uma realidade histórica. O petista, porém, apontou a importância estratégica da estatal e a presença dela em todas as partes do País.

"Desde 1985, os Correios vivem crise e alguém quer privatizar os Correios. É uma empresa muito importante para o Brasil, porque ela está em todos os municípios", disse Lula.

O candidato à reeleição defendeu que os Correios devem se adaptar a uma realidade em que há concorrência de outras empresas do ramo. Além disso, Lula disse que será feito um "enxugamento" nas contas da estatal do que o governo achar necessário.

"A crise dos Correios é que não se adaptou aos novos tempos. Surgiram muitas empresas de fazer entregas e os Correios ficaram na mesmice", disse o presidente.

Os Correios enfrentam uma grave crise econômica há anos. Em junho de 2022, o resultado negativo era de R$ 171,8 milhões. Saltou para R$ 1,5 bilhão um ano depois e chegou a R$ 1,7 bilhão em 2024. Em 2025, o déficit foi de R$ 2,6 bilhões. Neste ano, o resultado foi de um déficit de R$ 1,5 bilhão.

O governo Lula trocou o presidente dos Correios no ano passado, em meio a um plano de tentativa de recuperação da estatal. Emmanoel Schmidt Rondon assumiu o lugar de Fabiano Silva dos Santos. Desde então, alguns diretores foram substituídos. A empresa elaborou um plano de reestruturação, com a previsão de fechar agências e de um plano de demissão voluntária.

Ao final, Lula também falou sobre sua trajetória pessoal e política. "Eu vivo hoje aos 80 anos o melhor momento da minha passagem nesse planeta Terra", afirmou. O presidente destacou ainda sua trajetória como metalúrgico e disse considerar significativo ter sido responsável pela criação de universidades no País, apesar de não possuir diploma universitário. "É muito estranho dizer que um metalúrgico sem diploma foi quem mais fez universidade no País", declarou.
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