Pedro DuarteFoto Divulgação

Quem circula pelo Rio, seja morador ou turista, percebe logo: a pichação tomou conta de vários pontos da cidade. De muros a monumentos históricos, passando por prédios públicos e privados, essa praga urbana não só enfeia o Rio, mas sinaliza abandono, alimenta a cultura do crime e custa caro ao bolso de todos nós.
Há uma diferença entre pichação e grafite artístico. Este é reconhecido como expressão cultural e autorizado em espaços públicos específicos. Já a pichação é vandalismo. Vai além da estética: transmite mensagem de que a cidade está largada e que o crime pode marcar território à vontade.
Basta olhar o que recentemente flagrei na Rua Alice, no coração de Laranjeiras. Por ali, onde todos os dias passam vans levando turistas ao Cristo Redentor, o que se vê são muros cobertos com siglas de facção criminosa. Um completo absurdo, um cartão de visitas vergonhoso para o Rio e um desserviço à nossa imagem no Brasil e no mundo.
O problema não está restrito a um bairro. Monumentos históricos, como o Chafariz da Glória, do século XVIII, restaurado recentemente com recursos públicos, foi alvo de pichação em fevereiro, pouco depois de serem entregues. Na Zona Norte, até o muro de um batalhão da PM foi pichado com símbolos de facções, em resposta à prisão de criminosos. O poder público gasta muito dinheiro a cada ano na remoção dessa sujeira, num eterno jogo de gato e rato. A Prefeitura limpa hoje, amanhã está pichado de novo.
Para o comércio e a economia da cidade, o prejuízo também é enorme. Fachadas depredadas afastam consumidores, desvalorizam imóveis e espantam investidores. Não é raro ouvir de empresários ou síndicos o desânimo com a constante manutenção e a sensação de enxugar gelo. E o problema afeta a todos: tanto nas áreas turísticas da Zona Sul quanto nos corredores comerciais da Zona Norte ou Oeste.
Do ponto de vista social, a tolerância à pichação normaliza a desordem e afasta a população do espaço público. Praças e monumentos pichados perdem sua função de encontro e convivência. Crianças deixam de brincar, famílias evitam passear, turistas mudam o roteiro. No fim das contas, quem perde é toda a cidade.
Além do impacto visual, a pichação traz insegurança. Quando não conseguimos proteger o patrimônio, transmitimos a mensagem de que a cidade está fora de controle, facilitando o avanço da criminalidade. A teoria das “janelas quebradas”, que sempre menciono por aqui, mostra como pequenas transgressões, não coibidas, abrem espaço para crimes mais graves.
Já passou da hora de agirmos de forma coordenada. Precisamos de uma fiscalização efetiva, foco no uso de câmeras de monitoramento, patrulhamento constante em áreas críticas e campanhas educativas para diferenciar grafite de pichação. Cidades como São Paulo avançaram criando programas de muralismo, valorizando a arte urbana sem abrir mão do combate ao vandalismo.
O Rio precisa resgatar o respeito ao espaço público. Já deu de tolerar a poluição visual, o prejuízo financeiro e a exaltação de facções através da pichação. Cuidar do básico é valorizar nossa cidade, proteger moradores, comerciantes e o turismo. E mandar um recado claro de que aqui, a regra é ordem e orgulho de ser carioca.